O artigo O Grande Irmão, o duplipensar e o 2+2=5 ainda explicam a pulsão autoritária do nosso tempo, assinado João Pereira Coutinho e publicado na Folha de São Paulo nesta sexta-feira (13), toca em alguns pontos sobre o assédio à liberdade de expressão, mas não toca no essencial.
No início do texto temos que “a liberdade de expressão já viveu dias melhores. E [o autor] não fal(a) apenas de ditaduras (óbvio) ou governos populistas (nem sempre tão óbvio assim). Em seguida, escreve que “em edição recente, a The Economist informa que a liberdade de imprensa vem recuando nas democracias liberais com rapidez e constância. Não se trata de casos isolados, mas de uma tendência global”.
Aqui já começa uma questão: os setores da economia que a revista The Economist representa são contra e combatem a liberdade de expressão. A própria Folha de São Paulo, onde o texto é publicado, também é favorável à censura, mas mascara essa posição defendendo, por exemplo, a regulamentação das redes e apoiando o Supremo Tribunal Federal com seu ministro Alexandre de Moraes – o censor-mor da República –, que burla a Constituição e restringe a livre expressão do pensamento.
Sim, o que acontece no mundo “é gave”, como diz o colunista, “a liberdade de expressão é um valor fundacional das democracias – desde a Grécia antiga. Sem ‘isegoria’, isto é, sem a possibilidade de falar livremente na assembleia ateniense, dificilmente estamos na presença de um governo de cidadãos livres”.
A imprensa não é livre
No quarto parágrafo, Coutinho atesta que “se a fiscalização enfraquece, a corrupção política avança”. E que “esse parece ser o padrão identificado pela revista ao analisar 180 países ao longo de 80 anos: quanto mais venal o sistema político, maior o incentivo para apertar o garrote sobre a imprensa. E quanto mais o controle aumenta, maior o estímulo para continuar e aprofundar o saque. Um ciclo perverso”.
Não se tem notícia de que alguma fiscalização tenha impedido a corrupção, mesmo porque essa prática é inerente ao capitalismo, onde tudo se pode comprar e vender.
No mais, a imprensa não é uma entidade neutra, além de ser controlada pela burguesia e, portanto, responder a seus interesses. A Folha de São Paulo, por exemplo, apoiou a ditadura militar no Brasil, além de ter participado da repressão. A The Economist apoia todos os crimes do imperialismo, desde a guerra na Ucrânia até o genocídio que os sionistas realizam na Faixa de Gaza.
Não se deve acreditar que a imprensa burguesa seja uma defensora da verdade que hora se vê garroteada por um sistema político venal, ela própria está à venda.
Democracias?
Coutinho diz que “em ditaduras, a liberdade de expressão é reprimida de forma explícita”, e que “nas democracias, porém, os métodos são mais sutis”. Sendo assim, como classificar os governos da União Europeia e o que vimos recentemente na Austrália? A repressão é brutal e explícita.
Dentre as formas sutis, Coutinho diz que “espalhar ‘apparatchiks’ pelo ecossistema da mídia é um caminho”. Espalhar pessoas compradas (apparatchiks) pelos meios de comunicação é justamente o que sionismo tem feito por décadas. E é muito comum ler colunistas na Folha atacando a resistência palestina e o jornal trata o Hamas, que luta contra o colonialismo sionista, de organização terrorista.
É verdade que existe pressão econômica, que grandes grupos, ou mesmo governos, podem restringir a publicidade para controlar a imprensa.
Também é verdade que “para os veículos que insistem na sua independência editorial, há métodos ‘legais’ cada vez mais usados: auditorias fiscais punitivas, processos judiciais intimidatórios ou financeiramente devastadores, além de legislações contra “fake news” que frequentemente funcionam como eufemismo para silenciar vozes incômodas. A imaginação autoritária é infinita”.
George Orwell
Em seu artigo, Coutinho recorre ao escritor inglês George Orwell, famoso principalmente pelos livros A Revolução dos Bichos e 1984. Segundo escreve, “Existe nas palavras de Orwell uma insuportável lucidez que continua queimando 76 anos após sua morte”.
Após uma espécie de biografia, o colunista diz que na colônia foram as “experiências que levaram [o escritor] para o mundo sórdido da política. Na guerra civil espanhola, Orwell acreditou que a batalha se travava entre o fascismo e uma autêntica revolução operária”. E diz também que “a ilusão durou até Stálin iniciar a perseguição contra anarquistas e trotskistas que fugiam da linha de Moscou. Espanha foi a escola onde Orwell aprendeu, quase com a própria vida, sobre o poder do totalitarismo: sua capacidade de fabricar mentiras úteis, seu desprezo pela verdade e sua redução da política a puro cálculo sem princípios”.
Stálin foi mesmo um inimigo da classe trabalhadora, além do desserviço que prestou ao ligar o socialismo a sua figura.
Porém, o totalitarismo a que Orwell se refere não diz respeito ao stalinismo, ainda que A Revolução dos Bichos seja um ótimo retrato da burocratização do Estado e da perseguição a Leon Trotski. Em 1984, Orwell pinta um retrato da Inglaterra. A BBC, a comunicação estatal controlada pelos militares, eis o que se tinha.
A atualidade do que foi escrito em 1984 pode ser vista agora, em cores, com o governo britânico colocando na cadeia pessoas por simplesmente segurarem um cartaz onde se lê: “Pare o genocídio em Gaza”. Não se sabe ao certo o número de presos, mas até esta edição deve ser algo em torno de 20 mil pessoas acusadas de terrorismo por se oporem a um massacre de civis.
Além disso, pessoas estão sendo presas por postagens nas redes sociais, por expressarem suas opiniões. A mesma brutalidade se vê na Alemanha “democrática”, país onde o governo põe sob suspeição quem lê as obras de Karl Marx.
O inimigo
Coutinho fala sobre o duplipensar no livro 1984 para se referir à “pulsão autoritária do nosso tempo. Uma pulsão que, como no passado, identifica na liberdade de expressão o inimigo principal”.
O colunista encerra seu texto dizendo que “ler George Orwell ou escutar as suas palavras é regressar a princípios essenciais em tempos renovados de mordaça. É lembrar, nas suas palavras, que ‘liberdade é poder dizer que dois mais dois são quatro’ – com a garantia de que todo o resto se segue a partir daqui”.
É isso que está acontecendo hoje. As ditaduras, travestidas de democracias liberais, estão proibindo pessoas de expressarem nas redes sociais. Fingem proteger os jovens para lhes tirar o direito de navegar pela internet.
Tudo isso é uma ação deliberada, pois as “democracias” aumentam seus orçamentos militares e se preparam para a guerra. E, para isso, precisam amordaçar as pessoas e controlar a informação.
A grande imprensa, claro, apoia.





