No dia dois de fevereiro, foi publicada uma coluna de autoria de Paulino Cardoso no sítio Brasil 247 intitulada “A branquitude é o alvo ou que aprendi com colegas da FAED/UDESC”.
A matéria traz de volta uma carta escrita pelo autor no ano de 2015 em que ele descreve supostos ataques racistas que teriam sido feitos contra ele na universidade, carta que ele acredita que poderia contribuir com o atual momento político em Santa Catarina.
O texto se inicia com:
“Recentemente, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, justificou ao Supremo Tribunal Federal, STF, o fim das Cotas Raciais nas universidades catarinenses, alegando que nosso estado é “o mais branco do país. Ver aqui. Embora aparentemente anacrônico, este discurso está no centro da identidade catarinense. Ou seja, aqui o negro é visto como não existente. Logo, nosso, agora nacionalmente ilustre governador, será reeleito por ampla margem.”
Segundo o autor, portanto, o governador estaria em coro com a maioria da população catarinense, que seria extremamente racista.
Essa política identitária busca jogar a população negra contra a população branca, o que, além de ser em si uma política racista e de apartheid social, por conta da separação da população em raças, é altamente desastrosa para os negros.
Imaginemos o seguinte cenário: Santa Catarina é um estado com a maioria da população branca, diferente de outros lugares do Brasil. O que aconteceria se a política identitária conseguisse promover um conflito racial no estado? É óbvio que os negros, em minoria, seriam massacrados.
É verdade que o negro sofre em Santa Catarina, mas não sofre exatamente por ser negro. Sofre por ser pobre, assim como os brancos do estado também sofrem. O Brasil é um país extremamente miscigenado e a pessoa que é identificada como branca, assim como a que é negra, são pessoas fruto de muita mistura entre diferentes povos.
A tentativa de separação e delimitação entre os brancos e os negros é que é uma política racista, muito parecida com as políticas eugenistas do final do século XIX e começo do XX que os identitários tanto criticam.
O texto segue com o seguinte:
“Como nos EUA, a tendência é personalizar na pessoa do governante de plantão uma característica que nos singulariza em relação ao restante da população brasileira. Não temos vergonha de afirmar nosso supremacismo racial.”
A política do identitarismo é isso, a importação da política norte-americana, como se o que acontece nos Estados Unidos também se passasse no Brasil. Diferente dos EUA, nunca houve no Brasil uma política de segregação racial, nem mesmo em Santa Catarina.
Com o fim da escravidão, o negro se tornou um cidadão brasileiro como os demais, extremamente pobre, como é a maioria esmagadora do Brasil. Não houve nenhum tipo de lei que rebaixasse o negro ou que o impedisse de frequentar determinados lugares, como era nos Estados Unidos.
Essa importação dá lugar a outras ideias exibidas no texto:
“Como Donald Trump, ele é a expressão de um profundo conservadorismo. O problema, é que do outro lado, naqueles que dizem representar a esquerda, mas não passam de liberais, como bons seguidores de Bill Clinton e o charmoso Barack Obama, eles precisam produzir uma justificativa não racial para o seu racismo a fim de difamar, criminalizar e produzir o linchamento de seus adversários [grifo nosso].”
Segundo a parte em negrito acima, o racismo seria o motivo em si da agressão contra os negros no Brasil. Ou seja, o problema não seria que a burguesia busca atacar as condições materiais dos trabalhadores e que isso recaia especialmente sobre os negros, mas seria o racismo interior dos brancos o que levaria a isso.
A realidade, no entanto, é o contrário. O problema não está na ideologia da burguesia, mas sim naquilo que ela faz dentro da luta de classes.
Mas, conforme indica o texto, não existem as lutas de classes. Tudo se resumiria a uma luta racial, o que é em si, novamente, uma ideia racista:
“Portanto, a questão que tenho ruminado nestes últimos dias, é que para os brancos por maiores que sejam suas credenciais, você nunca será bom o suficiente se não passar pela aprovação deles.”
Também não faz sentido a ideia do trecho acima. Por que é que os negros precisariam da aprovação de um branco? Isso só revela como as diferentes opiniões do identitarismo nada mais são do que uma luta dentro da burocracia estatal e de empregos melhores no setor privado, não uma luta real pelos oprimidos.
O motivo todo da carta, inclusive, se dá porque o autor não conseguiu o cargo que desejava, pelo menos é o que se entende.
Isso não é um problema apenas dos negros. Existe a burocracia estatal justamente porque não existem empregos para todos, porque o desenvolvimento que o país chegou até o momento não é o suficiente para que todas as pessoas vivam bem e tenham todas suas necessidades sanadas. Brancos pobres também têm dificuldades na vida, assim como os negros, enquanto pessoas como Barack Obama, que o autor chamou de “charmoso”, tem o poder suficiente para dar golpes de Estado e bombardear países.
Por fim, o último ponto a ser debatido do texto. O autor afirma que:
“Nós realmente acreditamos que os colonos brancos cometeriam suícidio político, e abririam de bom gosto os seus privilégios consolidados a quinhentos anos de dominação.”
Quem é capaz de acreditar que um grupo acabaria com os próprios privilégios de bom grado? Sem contar o fato de que os “colonos brancos” já se foram há alguns séculos e o que domina hoje o país é em parte a burguesia brasileira e, em uma parte muito maior, a burguesia dos países imperialistas, não tendo nada a ver com ser branco ou não.
De qualquer forma, acreditar que o problema da pessoa é que ela é branca dá apenas duas opções. A primeira, é o que o autor disse no trecho em questão, esperar que ela se apiede da situação dos negros. A segunda, é exterminar os brancos.
Essa segunda opção, a única que poderia ser realmente válida se o problema fosse realmente racial, revela, mais uma vez, a política racista dos identitários. Estariam eles dispostos a levar adiante um genocídio contra uma parcela da população na América Latina e do Brasil, que é o que, de fato, é a população de Santa Catarina?





