No dia 5 de fevereiro, a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), publicou o artigo Zohran Mamdani e a inversão do discurso da austeridade. No texto, os autores analisam as primeiras semanas de gestão do novo prefeito de Nova Iorque, celebrando o que chamam de uma abordagem “socialista democrática” para enfrentar o déficit fiscal de 12 bilhões de dólares da cidade. O artigo destaca o discurso de posse de Zohran Mamdani, no qual ele afirma que “chegou a hora de taxar os mais ricos e as corporações mais lucrativas”, e apresenta o prefeito como um exemplo de resistência à austeridade que pode servir de referência global.
Na verdade, o PSOL saúda Mamdani porque ambos são engrenagens do mesmo mecanismo político. O PSOL no Brasil exerce a mesma função que Mamdani cumpre nos Estados Unidos: a de uma esquerda de fachada, umbilicalmente ligada à rede de organizações não governamentais (ONGs) financiadas pelo capital internacional e pelo aparato de George Soros. O entusiasmo do PSOL com Mamdani é o reconhecimento de um espelho. O partido que no Brasil se especializou em substituir a luta de classes pela demagogia das fundações bilionárias não poderia deixar de aplaudir o político nova-iorquino que utiliza a estética da rebeldia para preservar a estrutura do Partido Democrata.
Um dado fundamental que o artigo omite é a natureza do financiamento e das alianças de Mamdani. Enquanto o PSOL fala em “taxar os ricos”, ignora que o apoio decisivo para a construção da imagem de Mamdani como uma alternativa “viável” veio de setores ligados ao mercado financeiro que buscam uma “reforma por dentro”. Alex Soros, que hoje comanda a Open Society Foundations, tem sido um articulador chave para promover essa “nova esquerda” que foca no micro-gerenciamento da crise enquanto mantém a fidelidade canina aos pilares do imperialismo. É o mesmo modelo das ONGs que ditam as diretrizes programáticas do PSOL, vinculando partidos que deveriam ser de esquerda a interesses estrangeiros e fundações “filantrópicas”.
A retórica de Mamdani sobre “ser honesto e transparente” e “corrigir a relação fiscal” é uma demagogia que desvia a atenção da função real da prefeitura de Nova Iorque. A cidade é o centro nervoso do sistema bancário mundial. Mamdani herdou uma crise de Eric Adams e Andrew Cuomo, mas seu papel não é implodi-la, e sim administrá-la com um vocabulário que acalme a base militante. Em seus discursos recentes, Mamdani insiste que “não vamos sucumbir a uma mentalidade restrita”, mas sua prática política é de total submissão. Exemplo disso foi sua declaração oficial logo após assumir, na qual atacou manifestantes que defendiam o direito de resistência do povo palestino, afirmando que “cânticos em apoio a uma organização terrorista [Hamas] não têm lugar na nossa cidade”.
Ao classificar o Hamas como “terrorista”, Mamdani revela-se um filhote Joe Biden e do Departamento de Estado dos EUA. O “socialista” do PSOL é, na prática, um agente diplomático do sionismo no coração da metrópole. O artigo da Fundação Lauro Campos finge que esse “detalhe” não existe, focando em uma suposta “taxação de corporações” que, se aprovada, será apenas o preço que o capital aceita pagar para acalmar um país revoltado, como foi visto nas ocupações de universidades de elite.
A verdadeira lição de Nova Iorque é que o imperialismo aprendeu a produzir seus próprios “adversários”. Mamdani não é o coveiro da austeridade; ele é o médico encarregado de dar uma sobrevida ao regime. Enquanto houver uma esquerda que prefere celebrar o financiamento de Soros e a “transparência” fiscal em vez de organizar os trabalhadores para a destruição dos monopólios, a extrema direita continuará sendo a única a capitalizar a revolta contra o sistema.




