O artigo de Ana Cristina Rosa na Folha de S.Paulo, intitulado A grande revolução, eleva o sistema de cotas e a ascensão individual de uma pequena parcela da população negra ao status de “revolução”. O que ela descreve, no entanto, não é uma revolução, é um micro-progresso institucional que serve, paradoxalmente, para estabilizar o regime que oprime a maioria esmagadora dos negros e pobres neste país.
A autora afirma sentir-se parte de uma “revolução em marcha” ao observar profissionais de um salão de beleza ingressarem na universidade. Essa visão romântica ignora a realidade material do capitalismo. As cotas são, no máximo, uma reforma democrática parcial. Elas permitem que uma pequena elite negra ascenda aos estratos superiores da burocracia ou do mercado de trabalho, mas não alteram em um milímetro a estrutura de exploração econômica que sustenta o Brasil. A desigualdade fundamental não vai diminuir porque um grupo de negros agora possui um diploma de contabilidade ou gestão pública; ela permanece intacta enquanto o controle dos meios de produção estiver nas mãos da burguesia.
O capitalismo é um sistema intrinsecamente anárquico e decadente, que necessita de um exército de miseráveis para funcionar. A promessa de “futuro melhor” via qualificação formal, citada no texto, é uma falácia meritocrática vestida de reparação histórica. Como a própria autora admite, o mercado discrimina mesmo quem tem diploma. No entanto, ela falha em concluir o óbvio: o problema não é a falta de educação, é o caráter econômico do regime. Em um sistema que necessita do desemprego para manter os salários baixos, sempre sobrará para o setor mais oprimido da sociedade. As cotas não se propõem a mudar esse funcionamento, apenas a mudar a cor de quem ocupa algumas cadeiras nas faculdades federais.
Uma mudança profunda, uma revolução de fato, não seria medida pelo número de negras trançando cabelos enquanto estudam para concursos, mas pelo fim das instituições de repressão que massacram a juventude negra diariamente. O fim da polícia e do sistema penal seria uma medida de impacto infinitamente superior a qualquer política de cotas. Enquanto a esquerda identitária celebra diplomas, o Estado burguês continua utilizando seu braço armado para sufocar qualquer rebelião. Uma política revolucionária real focaria em garantir emprego e condições de vida dignas para a totalidade da população, e não em integrar uma minoria em um sistema de ensino que, no fundo, serve para reproduzir a ideologia dominante.
O identitarismo funciona como uma válvula de escape para o regime. Ao focar em “disputas de espaços de poder e decisão”, como faz a colunista, retira-se o foco da luta de classes. O poder real no capitalismo não está na reitoria da universidade ou no cargo de gerente; está no capital. Enquanto a “grande revolução” da Folha se resume a profissionais liberais negras, a massa da população negra continua submetida a condições de trabalho semelhantes à escravidão e à violência policial. Vender esse avanço cosmético como o fim de um projeto político de 500 anos é uma capitulação cínica. A verdadeira revolução exige o fim da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, algo que nenhuma Lei de Cotas ou reforma dentro da ordem jamais poderá oferecer.





