António José Seguro foi eleito o próximo presidente de Portugal após uma vitória expressiva no segundo turno das eleições realizadas neste domingo (8). O candidato do Partido Socialista — que há muito se tornou um ponto de apoio fundamental do imperialismo no regime português — obteve aproximadamente 66,8% dos votos, derrotando André Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, que alcançou cerca de 33,2%. Seguro, de 63 anos, é um dirigente antigo do Partido Socialista e ex-ministro que regressou à linha da frente da política após uma década de afastamento, apresentando-se como um candidato de “união” e “estabilidade institucional”. Ele sucederá Marcelo Rebelo de Sousa em 9 de março, após uma campanha marcada por uma forte polarização e pelo avanço fulminante da extrema direita.
A vitória de Seguro foi o resultado de um gigantesco aparato que se mobilizou para garantir a continuidade do regime. Essa vitória veio em meio a uma ampla frente de apoio que atravessou diferentes setores políticos e partidários, formando uma verdadeira coalizão de conveniência que uniu desde a chamada “extrema esquerda” até a direita tradicional. Embora o primeiro-ministro Luís Montenegro tenha optado pela neutralidade oficial para não desgastar sua base, o sistema agiu por outras vias: diversas figuras de destaque da direita e ligadas ao governo, incluindo o antigo presidente Aníbal Cavaco Silva e o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, manifestaram apoio a Seguro. Além desse apoio político, o candidato socialista contou com uma cobertura midiática favorável e o respaldo de instituições europeias de peso, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente francês Emmanuel Macron, que enviaram sinais claros de apoio à sua candidatura antes mesmo do fechamento das urnas. O movimento foi apresentado como um “cordão sanitário” necessário para proteger as “instituições democráticas” contra o “discurso populista” de Ventura, expondo a operação do imperialismo para manter Portugal sob o controle das forças tradicionais. Em seu discurso de vitória em Caldas da Rainha, Seguro destacou a “responsabilidade cívica” do povo português e o apego aos “valores da liberdade e da democracia”, prometendo ser o presidente de todos os cidadãos.
Apesar da derrota numérica, o desempenho de André Ventura representa um abalo sísmico na política ibérica. O resultado confirmou que Portugal segue a mesma tendência de crescimento da extrema direita que percorre a Europa, e com uma velocidade impressionante: em apenas seis anos, o Chega saltou de um partido de um único deputado para uma força que mobiliza um terço do país. Ao conquistar mais de 33% dos votos, Ventura não apenas superou os 23,5% que obteve no primeiro turno, como também atropelou a votação histórica da direita governamental (AD) nas últimas legislativas, provando que é capaz de roubar votos diretamente do eleitorado conservador e socialista. O Chega demonstrou uma presença robusta em todo o território português, quebrando a hegemonia da esquerda no sul do país e registrando um crescimento significativo entre os eleitores jovens e a classe trabalhadora urbana. Ventura utilizou temas como o custo de vida, a crise na habitação e a imigração para mobilizar o eleitorado, capitalizando a revolta contra o sistema que Seguro representa. Ao final da apuração, Ventura afirmou com autoridade que o seu partido se tornou a liderança real da direita no país e que, diante do colapso do direita tradicional, o caminho para o governo é agora uma questão de tempo, consolidando-se como a segunda maior força política viva da nação.
A reta final do processo eleitoral foi dificultada por condições meteorológicas severas, com tempestades e inundações que forçaram o adiamento da votação em algumas zonas do país, como o Cartaxo. Ventura chegou a questionar a legitimidade da manutenção da data do pleito em meio ao caos climático, sugerindo que o sistema ignorou o sofrimento das populações afetadas para acelerar a confirmação de Seguro.
Embora a presidência em Portugal tenha um caráter predominantemente cerimonial, o novo chefe de Estado terá um papel importante como árbitro político num cenário de governo minoritário. António José Seguro terá o poder de dissolver o Parlamento e convocar eleições em caso de crise, além de exercer o direito de veto sobre leis. No entanto, com um terço do eleitorado fechado com o Chega, qualquer tentativa de isolar Ventura no Parlamento poderá aprofundar a crise do regime que Seguro agora assume a responsabilidade de defender.
Quem é António José Seguro
Natural de Penamacor, António José seguro iniciou a sua ascensão precocemente no aparato partidário, tornando-se secretário-geral da Juventude Socialista (1990-1994). Aos 24 anos, já ocupava cargos de nomeação política e, aos 33, foi integrado diretamente no núcleo duro do poder como Secretário de Estado da Juventude e, posteriormente, Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro António Guterres.
A sua atuação como Secretário-Geral do Partido Socialista (2011-2014) consolidou sua imagem como homem de confiança da burguesia. No auge da crise da dívida, Seguro foi o rosto da “oposição responsável”, garantindo que, independentemente da alternância de governo, Portugal honraria rigorosamente os compromissos com a Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia). Embora fizesse críticas pontuais ao ritmo da austeridade, Seguro foi o avalista político que impediu qualquer ruptura com o sistema financeiro internacional, assegurando a continuidade das políticas que sacrificaram o bem-estar da classe trabalhadora em favor da estabilidade bancária.
Após ser atropelado internamente por António Costa em 2014, Seguro refugiou-se na vida acadêmica apenas como um “período de quarentena”, aguardando o momento em que o regime precisasse novamente de sua imagem de sobriedade e conformismo institucional.





