O Banco Central da Bolívia refinanciou um crédito extraordinário de quase US$5 bilhões (mais de 31.000 milhões de bolivianos) concedido ao Ministério das Finanças, numa operação que alonga obrigações de curto prazo para 35 anos, com juros de 4,3% e carência de cinco anos. A medida foi aprovada em 27 de janeiro e foi relatada pelo correspondente da teleSUR no país, Freddy Morales.
O presidente do Banco Central, David Espinoza, afirmou que o crédito extraordinário está previsto na lei financeira do orçamento, promulgada em 31 de dezembro de 2025, e que o objetivo seria “financiar obrigações de curto prazo” do exercício de 2025. Espinoza sustentou que a operação não cria um novo compromisso, mas “exclusivamente” transfere a dívida para um prazo mais longo: “fizemos um refinanciamento, que é o que realizamos com esta operação. Transferimos exclusivamente as obrigações de curto prazo para um prazo mais longo”, afirmou.
Morales destacou que o refinanciamento ocorre após o atual governo prometer repetidamente que não usaria o Banco Central como “caixa” para cobrir gastos do Tesouro. Com a carência estabelecida, os pagamentos ficariam fora da atual administração, conforme explicou o jornalista.
Economistas ouvidos pela teleSUR questionaram a compatibilidade da operação com a política econômica apresentada pelo novo governo como “bem-sucedida” em menos de três meses de gestão. O economista Martín Moreira afirmou que o governo estaria “bicicletando” o dinheiro para utilizá-lo ao longo dos meses, enquanto aguarda a entrada de dólares anunciada para o período. Moreira lembrou que, dos créditos internacionais divulgados, apenas US$550 milhões foram executados, provenientes da Corporação Andina de Fomento (CAF), enquanto o restante permaneceria como promessa, com previsão de efetivação até junho.
Na mesma linha, Morales recordou que o governo anterior impulsionava empresas estatais que geravam mais de 45.000 milhões de bolivianos por ano, valor que, na avaliação apresentada, seria suficiente para cobrir o crédito agora refinanciado. O correspondente acrescentou que, no momento, há uma campanha contra essas empresas públicas, com o objetivo de substituí-las por atividade privada.
Moreira avaliou ainda que a medida indicaria um recuo do chamado “modelo econômico, social, produtivo, comunitário” deixado pelo Movimento ao Socialismo (MAS). Ele mencionou que, além da estrutura orçamentária de 2026, a gestão anterior teria mantido pagamentos de serviços da dívida, o que, segundo ele, contribuiu para reduzir o risco-país e estabilizar o câmbio.
A reportagem apontou também que o atual governo conta com cerca de US$1,6 bilhão em créditos externos que ficaram congelados por dois anos no governo anterior. Esse congelamento, de acordo com o relato, levou à escassez de divisas, a dificuldades na importação de combustíveis, que superaria 70% do consumo nacional, e a uma crise econômica usada como argumento eleitoral pela oposição para chegar ao poder no ano passado.



