O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, general de divisão Abdolrahim Musavi, afirmou neste sábado (7) que qualquer “aventura” militar contra a República Islâmica resultará em “derrota definitiva e estratégica” para os agressores e ampliará a crise para toda a região. A declaração foi feita em mensagem ao general de brigada Bahman Behmard, comandante da Força Aérea do Exército iraniano, por ocasião do Dia da Força Aérea.
Na mensagem, Musavi afirmou que os adversários do Irã “sabem” que uma tentativa de impor guerra ao país “não apenas levará à derrota absoluta e estratégica”, como também “expandirá a guerra e a crise por toda a região”, impondo custos “pesados, graves e irreparáveis” aos próprios agressores e também a “planejadores, apoiadores e patrocinadores” de uma escalada.
Prontidão e modernização da Força Aérea
Musavi destacou que a Força Aérea do Exército tem papel “estratégico” no fortalecimento da dissuasão ativa, na elevação da preparação defensiva e no enfrentamento das ameaças no quadro atual, que descreveu como sensível e marcado por desdobramentos internos e regionais complexos. Ele citou, de modo particular, os acontecimentos posteriores à guerra de 12 dias imposta por “Israel” e pelos Estados Unidos ao Irã, em junho do ano passado.
O general afirmou que a força vem passando por modernização constante, com atualização de meios, elevação da capacidade de combate e fortalecimento da prontidão integral, e que hoje estaria no “mais alto nível de preparação”, apoiada em “fé firme”, conhecimento e capacidades próprias, além de experiência operacional.
Em seguida, disse que, em coordenação com os demais ramos das Forças Armadas, a Força Aérea está pronta para responder a qualquer ameaça, agressão ou erro de cálculo do inimigo com uma reação “decisiva, rápida e dissuasória”, que classificou como “lamentável” para o agressor e capaz de “atingir em cheio” qualquer atacante.
Musavi ainda afirmou que o Irã “não iniciará” uma guerra, mas não hesitará em defender sua segurança, sua integridade territorial e seus interesses vitais. No mesmo texto, descreveu a Força Aérea como expressão do vínculo profundo do Exército com o povo e com o sistema islâmico.
Guerra de 12 dias, ataques e resposta iraniana
A mensagem retoma a escalada de junho do ano passado. “Israel” iniciou, em 13 de junho, uma guerra de agressão contra o Irã, quando Teerã estava em negociações nucleares com os Estados Unidos. Depois de uma semana, os EUA entraram diretamente na ofensiva com ataques a instalações nucleares iranianas, inclusive bombardeando três sítios, em violação grave do direito internacional, da Carta das Nações Unidas e do Tratado de Não Proliferação.
Em resposta, as Forças Armadas iranianas atacaram alvos estratégicos nos territórios palestinos ocupados e atingiram a base aérea de Al-Udeid, no Catar, a maior instalação militar norte-americana na Ásia Ocidental, no marco da operação Promessa Cumprida Promessa III. Em 24 de junho, após as operações de represália, o Irã anunciou que a ofensiva foi contida e que um cessar-fogo foi imposto aos agressores. Desde então, Teerã afirma ter acelerado o reforço das suas capacidades defensivas e ofensivas.
Novas ameaças e conversas em Omã
As declarações de Musavi ocorrem após o governo Donald Trump voltar a ameaçar intervenção militar caso não houvesse um novo acordo nuclear. A região voltou a entrar em estado de alerta depois que os Estados Unidos deslocaram forças aéreas e navais e passaram a falar abertamente em atacar a República Islâmica.
Autoridades iranianas advertiram que qualquer agressão norte-americana teria resposta imediata e poderia incendiar a região. Na semana passada, o aiatolá Saied Ali Khamenei, líder da Revolução Islâmica, afirmou que uma guerra iniciada pelos Estados Unidos se converteria em guerra regional. “Os norte-americanos devem saber que, se iniciarem uma guerra desta vez, será uma guerra regional”, afirmou, acrescentando que ameaças e demonstrações de poder militar não intimidariam o povo iraniano.
Houve, contudo, um alívio parcial das tensões após uma nova rodada de conversas indiretas entre Irã e Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano, realizada na sexta-feira (6), em Mascate, Omã. As delegações foram conduzidas pelo chanceler Abbas Araqchi e pelo enviado especial norte-americano Steve Witkoff, com o ministro das Relações Exteriores de Omã, Sayyid Badr Al Busaidi, atuando como intermediário entre as partes. Após cerca de seis a oito horas de tratativas, Araqchi classificou a rodada como “um bom começo” e disse que as negociações podem continuar.
Araqchi: próxima rodada pode mudar de local
Neste sábado (7), após participar como convidado especial do painel de abertura do Fórum da Al Jazeera, em Doa, Araqchi declarou em entrevista à Al Jazeera Arabic que o local da próxima rodada de negociações pode mudar. Ele disse que Irã e Estados Unidos concordaram em realizar uma segunda rodada, ainda sem data definida, mas que ambos os lados consideram que ela deve ocorrer “em breve”.
Araqchi recordou que a primeira rodada havia sido planejada inicialmente para Istambul, mas que o Irã pediu mudança para Mascate, onde Omã já mediou negociações anteriores entre os dois países. Ele acrescentou que a possibilidade de guerra “sempre existe”, reiterando que a República Islâmica está preparada “para a paz e para a guerra”.
O chanceler procurou diferenciar governos da região das forças dos Estados Unidos estacionadas em seus territórios. “Não atacaremos países vizinhos; atacaremos as bases norte-americanas estacionadas neles. Há uma grande diferença”, disse. Ao mesmo tempo, afirmou que questões ligadas ao programa nuclear só podem ser resolvidas por negociação, mas rejeitou qualquer tratativa sobre mísseis: “a questão dos mísseis é puramente defensiva” e “não pode ser negociada, nem agora nem no futuro”.
Araqchi voltou a sustentar que negociações devem estar livres de ameaças e pressão e que o processo exige construção de confiança para resultar em um desfecho “justo” e de benefício mútuo. Sobre o enriquecimento de urânio, afirmou que o Irã se opõe à retirada de urânio enriquecido do próprio território, mas indicou disposição para reduzir o nível de enriquecimento. Disse ainda que a principal exigência iraniana em Mascate é o levantamento efetivo e verificável das sanções econômicas e financeiras, e que qualquer acordo sem ganhos econômicos concretos “não teria valor prático”.
O Irã não abre mão de seu direito legal de enriquecer urânio em solo iraniano e trata o tema como “linha vermelha” nas negociações. Nessa visão, medidas técnicas só podem ser consideradas dentro de um marco que reconheça esse direito; precondições adicionais seriam sinal de má-fé. Antes dos ataques de junho, o Irã havia conduzido cinco rodadas de conversas para substituir o acordo nuclear de 2015.
No mesmo Fórum, Araqchi advertiu governos regionais e o chamado “Sul Global” de que permitir que “Israel” aja acima do direito internacional amplia a instabilidade. Ele afirmou que a guerra em Gaza se tornou um teste para a credibilidade moral e jurídica do sistema internacional e disse: “ninguém deve se enganar: uma região não pode ser mantida estável permitindo que um ator atue acima da lei”. Em seguida, resumiu a ideia central: “a doutrina da impunidade não produzirá paz; produzirá conflito mais amplo”.
Araqchi descreveu o que ocorre em Gaza como destruição deliberada de vidas civis em escala massiva, qualificando o processo como “genocídio”. Disse que a imunidade concedida a “Israel” cria precedente perigoso ao tolerar ataques contra civis, infraestrutura e assassinatos transfronteiriços sem responsabilização, e defendeu ação coordenada com consequências práticas: sanções, embargo imediato de armas e suspensão da cooperação militar e de inteligência com “Israel”.
O chanceler também defendeu um horizonte político baseado no direito internacional, com fim da ocupação e criação de um Estado palestino independente, com Al-Quds Oriental como capital. Na exposição, ele citou violações continuadas do cessar-fogo: mesmo após anúncio de janeiro pelo governo norte-americano de que a segunda fase do acordo havia começado, “Israel” cometeu centenas de violações desde a entrada em vigor da trégua em outubro, assassinando ao menos 574 palestinos e ferindo 1.518. A reconstrução, estimada pelas Nações Unidas em cerca de US$70 bilhões, integra essa fase. A guerra genocida iniciada em 7 de outubro de 2023, que se estendeu por mais de dois anos, deixou cerca de 72 mil palestinos mortos, mais de 171 mil feridos e destruiu aproximadamente 90% da infraestrutura civil de Gaza.
Analista árabe: guerra seria um atoleiro para os EUA por duas décadas
Em paralelo às declarações de autoridades iranianas, o pesquisador e analista político árabe Mohamad Yaghi publicou, neste sábado, no sítio Arabi 21, um artigo no qual sustenta que uma guerra contra o Irã imporia custos políticos e econômicos gigantescos aos EUA e produziria um atoleiro do qual os Estados Unidos não conseguiriam sair por pelo menos duas décadas, como ocorreu no Iraque e no Afeganistão.
Yaghi afirma que o Irã responderia a uma agressão bombardeando alvos de “Israel” na Palestina ocupada e todas as bases militares norte-americanas na região, além de fechar o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho e atacar instalações e interesses econômicos e políticos dos EUA. Ele sustenta que a escalada entraria em choque com o slogan eleitoral de Trump, “sem mais guerras estrangeiras”, porque poderia obrigar o país a enviar “dezenas, talvez centenas, de milhares” de soldados, revertendo a pressão interna por retirada da Ásia Ocidental e entregando ainda mais a condução regional ao aliado “Israel”.
O analista acrescenta que, se houver envio massivo de tropas, Trump perderia o apoio popular que o levou ao poder e o Partido Republicano correria risco nas eleições legislativas. No plano estratégico, argumenta que a reimposição de grande empenho militar no Oriente Médio impediria os EUA de concentrarem recursos para enfrentar a China, pressionar a Europa como vem fazendo e manter sua política de extorsão na América Latina.
No campo econômico, Yaghi alerta que, nos primeiros três meses de uma guerra, se o Irã conseguir fechar Ormuz, os preços globais do petróleo poderiam dobrar ou quadruplicar e os preços da gasolina, no mínimo, dobrariam, puxando o custo de bens e serviços, do pão ao metrô e às passagens aéreas, e elevando inflação e desemprego. Ele recorda ainda que guerras como as do Iraque e do Afeganistão, nas próprias declarações de Trump, custaram cerca de US$7 trilhões aos Estados Unidos, e conclui que, se o Irã convencer os EUA de que cumprirá as ameaças, o temor de pagar esse preço pode funcionar como elemento de dissuasão.
NYT: reparos rápidos e prioridade ao arsenal de mísseis
Um levantamento citado por analistas do diário imperialista New York Times, com base em imagens de satélite, aponta que o Irã reparou rapidamente instalações de mísseis balísticos atingidas na guerra de 12 dias de junho. O pesquisador associado do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação, Sam Lair, afirmou que “dezenas” de instalações mostram sinais de reparos extensos, e que obras também seguem, em ritmo mais lento, em sítios nucleares.
Os especialistas ouvidos interpretam o cronograma de reparos como indicação de que o Irã prioriza o reforço do seu arsenal de mísseis em meio às ameaças de Trump e de autoridades de “Israel”. O relatório menciona o centro espacial de Shahrud, na província de Semnã, a leste de Teerã, descrito como instalação de testes e associado à produção de mísseis: ele teria voltado a operar poucos meses após os ataques. “Shahrud é a maior e mais nova planta de produção de mísseis de combustível sólido… por isso é natural que tenha atraído toda a atenção”, disse Lair. As imagens também indicariam a construção de telhados sobre edifícios danificados em Natanz e Isfahan.




