Oriente Próximo

EUA e Irã iniciam negociações indiretas

“Devemos superar esta atmosfera de desconfiança para então desenhar um quadro de diálogo que assegure os interesses do povo iraniano”, declarou ministro iraniano

Em meio às ameaças do governo dos Estados Unidos e a novas agressões do regime sionista, a República Islâmica do Irã iniciou mais uma rodada de negociações nucleares indiretas com os EUA, desta vez em Mascate, capital do Omã. O encontrado, embora celebrado pela diplomacia iraniana como um “bom começo”, é atravessado por um histórico de traições, sabotagens e tentativas do imperialismo de subjugar a soberania da República Islâmica.

As negociações, mediadas pelo chanceler omanense Badr al-Busaidi, ocorrem após quase um ano da guerra de 12 dias entre o Irã e o Estado de “Israel”, que resultou na morte de mais de mil pessoas, entre civis, cientistas nucleares e militares. A conversa, portanto, é marcada por profunda desconfiança.

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, chefiou uma delegação de alto nível com o objetivo de reafirmar os direitos soberanos do país, sobretudo no tocante ao enriquecimento de urânio — ponto inegociável para a nação persa. Durante os encontros, Araghchi foi enfático: “devemos superar esta atmosfera de desconfiança para então desenhar um quadro de diálogo que assegure os interesses do povo iraniano”.

Do outro lado da mesa, está uma delegação norte-americana liderada por Steve Witkoff, enviado especial do presidente Donald Trump para o Oriente Próximo, e Jared Kushner, genro e assessor do mandatário republicano. Também integra a comitiva imperialista o almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central (CENTCOM), cuja presença militar reforça o caráter coercitivo da postura norte-americana.

Enquanto o Irã insiste na centralidade do tema nuclear nas discussões, os Estados Unidos e o Estado de “Israel” pressionam para que o Irã abra mão de seu programa balístico — fundamental para sua defesa — e de seu apoio aos movimentos de resistência da região, como o Hesbolá libanês, as forças xiitas iraquianas e o Ansar Alá do Iêmen.

O Irã, no entanto, rechaça categoricamente qualquer interferência nesses assuntos, reafirmando que sua política externa e defesa nacional não são temas passíveis de negociação com potências estrangeiras.

Um dos pontos centrais das exigências iranianas é o levantamento das sanções econômicas que estrangulam sua economia. O governo do Irã deixou claro que qualquer acordo sem resultados concretos nesse sentido “não terá valor prático”. A exigência não é nova — desde a assinatura do acordo nuclear original de 2015 (o JCPOA), os Estados Unidos têm sistematicamente violado os termos, inclusive saindo unilateralmente do pacto durante o governo de Donald Trump.

A política imperialista de impor sanções para asfixiar economias que não se submetem aos seus ditames é conhecida e recorrente. Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e o Irã são apenas alguns dos alvos dessa guerra econômica criminosa.

Apesar da atmosfera considerada “positiva” pelos diplomatas iranianos, nenhum acordo foi firmado. A continuidade dos encontros dependerá de consultas entre as capitais. Araghchi destacou que os EUA devem abandonar a política de ameaças para que qualquer progresso seja possível:

“As negociações nucleares devem ocorrer em ambiente calmo, livre de tensões e ameaças”, afirmou.

Enquanto isso, o governo Trump respondeu ao fim da primeira rodada impondo novas sanções contra o setor petrolífero iraniano.

A tentativa de trazer temas não nucleares para a pauta — como a limitação de mísseis e o corte do apoio à resistência árabe — atende diretamente aos interesses do regime sionista, que teme a crescente influência iraniana na região. “Israel”, que mantém arsenal nuclear secreto e ilegal, cobra que o Irã renuncie ao seu legítimo direito de defesa.

Além disso, a chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln à região e o deslocamento de esquadrões adicionais de caças norte-americanos evidenciam que, mais do que dispostos a negociar, os EUA mantêm sua estratégia de “diplomacia” baseada em ameaças e intimidação.

O Irã, por sua vez, deixa clara sua disposição ao diálogo — mas não à capitulação. Como afirmou o líder da Revolução Islâmica, Ali Khamenei, qualquer ataque contra o país terá como resposta uma guerra regional.

A insistência em envolver temas como os mísseis e os aliados da resistência árabe na pauta evidencia que o verdadeiro objetivo do imperialismo norte-americano e de “Israel” não é impedir a proliferação nuclear, mas sim desestabilizar o Irã e enfraquecer o Eixo de Resistência que enfrenta o domínio imperialista na região.

No momento em que iranianos e norte-americanos se preparavam para as negociações indiretas, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou o governo dos EUA ajudou a desencadear os recentes protestos violentos no Irã ao criar uma escassez de dólares, o que levou ao colapso de um grande banco e a uma inflação descontrolada.

“O que fizemos foi criar uma escassez de dólares no país”, disse Bessent durante depoimento ao Comitê Bancário do Senado na quinta-feira.

“Isso chegou a um ápice rápido e, eu diria, grandioso em dezembro, quando um dos maiores bancos do Irã faliu. Houve uma corrida bancária”, acrescentou. “O banco central teve que imprimir dinheiro, a moeda iraniana entrou em queda livre, a inflação explodiu e, consequentemente, vimos o povo iraniano nas ruas”.

Bessent descreveu a escassez artificial de dólares como parte da “campanha de pressão máxima” do presidente Donald Trump contra o Irã, lançada após seu retorno à Casa Branca em janeiro de 2025. A campanha incluiu esforços para reduzir as exportações de petróleo do Irã “a zero”.

Em meio à escassez de dólares, o Banco Ayandeh do Irã entrou em colapso em outubro, ajudando a desencadear os protestos contra o regime dois meses depois. O banco faliu após perder US$5 bilhões em empréstimos para projetos apoiados pelo governo.

Após o início dos protestos desencadeados pela crise cambial em dezembro, gangues organizadas pelo Mossad começaram a atacar manifestantes, forças de segurança, prédios governamentais e mesquitas. A polícia iraniana prendeu manifestantes e organizadores dos protestos, incluindo alguns que estariam sendo pagos pelo exterior e outros encontrados com armas e explosivos. O chefe de polícia iraniano, Ahmad Reza Radan, explicou que os protestos inicialmente “eram protestos econômicos legítimos de comerciantes do mercado”, mas “depois se transformaram em distúrbios”.

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