O artigo É preciso resgatar o sentido anti-imperialista na esquerda brasileira, de Thiago Flamé, publicado no sábado (31) no sítio Esquerda Online, ligado ao MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores), revela que uma parte estava como no conto de fadas, adormecida, até que despertou pelo beijo de um príncipe. Não que Donald Trump se pareça com um, apesar do penteado.
O texto é praticamente ininteligível, o que é fácil conferir neste trecho: “o trotskismo tem sua própria tradição a oferecer para essa vanguarda difusa, tanto como tradição teórica original dentre as primeiras teorias da ‘formação nacional’, como fração minoritária mas existente nos combates do proletariado brasileiro, que sempre manteve vivo o internacionalismo, dos gráficos de SP com a aplicação da tática da frente única que quebrou literalmente a moral dos ‘galinhas verdes’”. Ainda assim, é possível trazer, e criticar, alguns elementos do meio desse caos.
A ‘novidade’
A todo momento se depara na imprensa de esquerda com a urgência da luta contra o fascismo. Começou com Bolsonaro e a bola da vez é o presidente americano, embora na Europa as “democracias” avançam sem dó sobre os direitos dos cidadãos.
No olho do artigo, o autor diz que publica “reflexões para colaborar na imperiosa necessidade de resgatar o anti-imperialismo na esquerda brasileira, no momento em Trump declarou guerra aos povos de norte a sul das Américas e em que se levantam dentro dos EUA os batalhões da juventude e da classe trabalhadora, imigrantes e nativos, em Minneapolis e em todo o país, fazendo tremer o governo de Trump e apontando o caminho a seguir”.
Fica a pergunta: com o que sonhava essa gente quando Biden deportou 1,5 milhão de imigrantes?
Sem dúvida é preciso lutar contra o imperialismo, mas que nome se deve dar à agressão contra a China utilizando Taiuan? E o golpe na Ucrânia visando armar o país com armas atômicas contra Rússia se chama o quê? E como chamar os inúmeros golpes na América Latina e no Brasil, contra Dilma Rousseff? Tudo isso era imperialismo, mas não se via na esquerda nenhum senso de urgência.
Velha contradição
Segundo Flamé, “chama muito a atenção a contradição entre o rechaço forte e majoritário ao ataque tarifário ao Brasil e o rechaço minoritário à intervenção na Venezuela”, mas não há contradição, sim uma continuação da política capituladora da esquerda pequeno-burguesa que condena o governo Maduro, atacado incessantemente pela grande imprensa por sua oposição ao imperialismo.
Assim como o imperialismo, essa esquerda considerava o governo venezuelano autoritário.
A prova disso é que o articulista escreve que “joga um papel o rechaço a Maduro pelo nível de repressão e ataques e a posição embelezadora do governo Maduro de setores da esquerda continental”. Em que consistiria o tal “embelezamento”?
Um governo que arma milhões de pessoas pode ser considerado uma ditadura, ou autoritário.
Anos 60/80
Flamé tenta recorrer a uma análise histórica por meio de outros autores, como Roberto Schwarz, segundo o qual, nos anos 60 “reinava um estado de espírito combativo”. Nesse período “o nacionalismo havia sido objeto da crítica”. E que o “raciocínio de então vem sendo retomado em nossos dias, mas agora sem luta de classes nem anti-imperialismo, e no âmbito internacionalíssimo da comunicação de massas”.
Adiante, a intelectualidade paulista é criticada, uma parte foi para o PSDB e outra para o PT.
A divagação de Flamé tenta explicar como se formou, no âmbito do Movimento pelas Diretas, Já! uma Frente Ampla. No entanto, para quem se propõe a uma luta contra o imperialismo, o autor deveria tentar explicar o porquê de se tentar formar uma frente ampla nas últimas presidenciais. A desculpa da esquerda pequeno-burguesa foi a urgência da luta contra o fascismo. No entanto, os candidatos propostos pela frente eram todos alinhado ao imperialismo: Eduardo Leite, Ciro Gomes, ou João Doria.
Os defensores da ideia recorreram à memória das Diretas, Já! para tentar demonstrar a importância de uma frente ampla. Apenas omitiram que naquele período o classe trabalhadora foi traída. Como seria também em 2022, caso não tivesse jogado para fora esses candidatos direitistas.
Anti-imperialismo
Para o articulita “uma das coisas para refletirmos é como se liga na subjetividade dos vários setores esse ressurgimento de um sentimento antiimperialista, que [segundo sustenta] dialoga com elementos do ciclo sessentista que não tiveram a mesma força na saída da ditadura”.
O fato é que não existe nenhuma ligação. Na verdade, não existe uma luta contra o imperialismo por parte da esquerda pequeno-burguesa.
Existe uma ‘luta’ contra Donald Trump, mas este, diferentemente de Joe Biden, não representa integralmente os interesses do imperialismo. E Biden não era combatido. Na verdade, sua candidatura foi apoiada pela maioria da esquerda, que age como um puxadinho do Partido Democrata.
Caos
A conclusão do texto, se é que pode ser chamada assim, coloca tudo no liquidificador: Jones Manoel, símbolos comunistas, africanistas, brasilidade revolucionária, vanguarda difusa, III Internacional de Stálin, revolução cubana em Pernambuco etc.
Apesar disso, nota-se uma grande confusão na esquerda que não consegue enxergar a política a partir da luta de classes. Sem essa ferramenta é impossível entender o caráter do governo Trump e sua adequação parcial ao imperialismo e seu atrito com o imperialismo.
A pretensa luta anti-imperialista é, na verdade, uma adesão à política imperialista, disfarçada de democracia.
São as potências europeias que impedem a todo custo o fim da guerra na Ucrânia. São elas que estão em uma corrida armamentista que colocará em breve o mundo na Terceira Guerra Mundial. Enquanto isso, Trump serve de espantalho e cortina de fumaça para uma esquerda cada vez mais direitista.





