No dia 30 de janeiro de 2026, a Justiça dos Estados Unidos liberou um novo lote de documentos das investigações dos serviços de inteligência norte-americanos contra Jeffrey Epstein. Mais de três milhões de páginas, dois mil vídeos e 180 mil imagens foram publicadas, citando milhares de celebridades, políticos, empresários, diplomatas e mais.
Aqui, o foco da grande imprensa é, naturalmente, a relação entre Epstein e o Brasil, citando figuras como Eike Batista, Jean-Luc Brunel, a família Marinho, entre outros. No entanto, a cobertura da burguesia ignora aquele que, hoje, ocupa o posto de terceiro lugar entre os mais ricos do País: Jorge Paulo Lemann.
Amigo de um amigo
A primeira menção a Lemann nos arquivos recém-liberados pelo governo norte-americano é de 10 de dezembro de 2002. O documento consiste em uma conversa por e-mail entre a esposa de Epstein na época, Ghislaine Maxwell, e um homem chamado Marcelo de Andrade, que buscavam articular encontros entre Epstein e figuras brasileiras poderosas durante uma viagem do bilionário nova-iorquino ao Brasil.
Apesar de não estar contido no arquivo, infere-se pela conversa que Andrade já havia sugerido alguns nomes para o encontro e que Ghislaine teria feito perguntas sobre cada um. No texto abaixo, o que está em negrito faz parte da resposta dada à esposa de Epstein:
“Prezada Ghislaine,
Conforme nossa conversa, sugiro aqui alguns nomes para sua consideração, como possíveis encontros para quando você e Jeffrey estiverem em SP. Sem saber o propósito da viagem, sugiro aqui uma mistura de nomes, que trazem:
- Arminio Fraga – Presidente do Banco Central do Brasil – Sim, JE [Jeffrey Epstein] gostaria de conhecê-lo – Fornecerei o motivo + uma bio – Ótimo. Isso será importante, pois ele está em transição de Governo este mês. O novo Presidente do país assume em 1º de janeiro!
- Jorge Paulo Lemann – O empresário mais prestigiado da região – qual negócio – Ele teve o banco de investimento mais bem-sucedido da América do Sul. Vendeu-o e mantém o melhor portfólio de private equity da região. Exemplo: Ele é dono de 80% da fabricação e distribuição de cerveja e refrigerantes no Brasil. O que não é Coca-Cola, é quase tudo dele. Ele é o grande nome e ícone da indústria aqui.
- Sergio Andrade – Outro grande empresário – é parente + quais negócios – Não é parente (infelizmente!), mas é o mais próximo que existe. Eles têm a maior construtora da América do Sul e vêm comprando a maior empresa de telecomunicações (TELEMAR) do país, é o maior concessionário de rodovias e pontes. Ele está no poder. etc.
- Paulo Coelho – O maior escritor brasileiro de best-sellers internacionais – que tipo de livros ele escreve – mistério, finanças, suspense etc – Ele não estará no Brasil na próxima semana, desculpe
- Luis Fernando Levy – Ele é dono da Gazeta Mercantil, o maior jornal de negócios da América do Sul. Eles têm o prestígio equivalente ao Wall Street Journal ou Financial Times para a região. Está cronicamente quebrado, mas nunca morre, pelo seu prestígio e importância para o país/região.
Por favor, me avise logo, essas pessoas são difíceis de encontrar na última semana do ano!
Aguardo ansiosamente sua chegada!
Abraços,
DOC”
No mesmo documento, lê-se outra mensagem, na qual Marcelo revelou a data da viagem dos Epstein para o Brasil: “por favor, me avise o quanto antes, pois as pessoas viajarão em breve para as festas! Ansioso para te ver em SP [São Paulo] na segunda-feira, dia 16”.
No entanto, outro e-mail mostra que o encontro não aconteceu e foi adiado. No dia 16 de dezembro de 2002, Marcelo de Andrade escreve:
“Prezada Ghislaine,
Consegui confirmar o primeiro encontro: Luis Fernando Levy, Presidente da Gazeta Mercantil, para sexta-feira [20 de dezembro] às 10h, no escritório deles.
Jorge Paulo Lemann está voltando de sua viagem esta noite, então confirmarei amanhã.
Arminio Fraga, Presidente do Banco Central (ex-menino-prodígio do Soros [tradução livre de ‘former Soros wiz kid’]), está passando seu cargo esta semana em Brasília para [Henrique] Meirelles, seu sucessor, e pode não conseguir comparecer, talvez no sábado [21 de dezembro], vocês estão disponíveis?
Esses são alguns dos meus melhores amigos pessoais, então podemos nos encontrar em outra ocasião, até mesmo nos EUA, se necessário.
Ansioso para ver todos vocês na Terra do Wooby Dooby! [sic]
Abraços,
Marcelo”
Mais uma vez, o encontro foi remarcado. O motivo não é dito nos arquivos divulgados, apesar de que se pode inferir que as datas não foram convenientes em meio à transição do governo Fernando Henrique Cardoso para o governo Lula e aos feriados de final de ano. Fato é que, em março de 2003, Marcelo volta a falar com Ghislaine. Em 14 de março, ele escreve, em e-mail com assunto “Viagem ao BR”:
“Queridíssima Ghislaine,
Estou tãããããããããão feliz que você finalmente está vindo!
Iniciei os contatos com Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central do BR, Jorge Paulo Lemann, GP (fundador do Banco Garantia) e Luis Fernando Levy, Presidente e proprietário da Gazeta Mercantil, o equivalente local do Wall Street Journal / Financial Times.
A Gazeta Mercantil pode representar uma oportunidade de investimento interessante, já que não estão em uma posição financeira confortável e acabaram de sair de um grande processo de reestruturação, que os colocou em um caminho muito melhor.
Há mais alguém que você ou Jeff [Jeffrey Epstein] desejem ver? Algum lugar especial para visitar, algum pedido especial?
Por favor, me avise se isso está bom ou se há algo mais que você precisa ou que eu precise saber (propósito da viagem, etc).
Um grande beijo, [em português]
Marcelo”
Até o momento, a identidade de Marcelo de Andrade não era sabida. Com exceção dos e-mails, a única informação que se tinha do homem era que ele está no “Pequeno Livro Negro” (“Little Black Book”) de Epstein, agenda entregue às autoridades norte-americanas por mordomos do bilionário na qual estão registrados seus principais contatos.
No entanto, uma investigação do Diário Causa Operária mostra que pode se tratar do médico e ambientalista Dr. Marcelo Carvalho de Andrade, fundador da organização Pró‑Natura (Pro‑Natura International).
Primeiramente, analisemos os dados que constam no Pequeno Livro Negro sobre Marcelo:
- Endereço 1: Rua Euclides Figueiredo 76, Jardim Botânico, RJ, Brasil, CEP 22261‑070
- Endereço 2: Av. Presidente Wilson 164, Cobertura, Centro, RJ, CEP 20030‑020
- Diversos telefones fixos e celulares do Rio e números internacionais (inclusive da França e de Nova Iorque)
- E‑mail: mcadoc@attglobal.net (em algumas transcrições aparece como atlglobal/attglobal)
Ou seja, sabe-se que Marcelo morava, na época da apreensão da agenda, no Rio de Janeiro e que possuia uma relação com o exterior muito forte não só pela proximidade com os Epstein, mas pelo fato de possuir vários telefones internacionais.
Do outro lado, a documentação pública sobre o ambientalista Dr. Marcelo Carvalho de Andrade mostra várias coincidências:
- Ele é descrito como médico brasileiro e ex‑remador olímpico, fundador da Pró‑Natura International, uma das primeiras organizações de desenvolvimento sustentável baseadas no hemisfério sul, com sede no Rio de Janeiro.
- Atua há décadas como consultor e investidor em finanças sustentáveis, tendo cofundado o Terra Capital Fund (fundo de capital de risco focado em biodiversidade), o Axial Bank/Axial Par (instituição financeira voltada a investimentos em desenvolvimento sustentável) e a gestora Earth Capital Partners, especializada em investimentos ambientais.
- Serviu em conselhos e painéis de grandes corporações (BHP Billiton, DuPont, Procter & Gamble, Shell), exatamente o tipo de conexão internacional que tende a aparecer na agenda de Epstein.
A prova mais forte, no entanto, é o contato da sede brasileira no Rio de Janeiro que consta no sítio oficial da Pro-Natura: mcadoc@gmail.com. O mesmo nome utilizado no endereço de e-mail do contato de Marcelo no Livro Negro e ao assinar suas mensagens a Ghislaine (“DOC”, gíria em inglês para “doutor”).
Outro e-mail encontrado por este Diário mostra, ainda, que Marcelo tinha uma relação muito próxima a Ghislaine, possivelmente de tipo amorosa. Em 26 de abril de 2002, o ambientalista escreve:
“Como está a minha Garota Bond? [Bond Girl, diz respeito aos interesses amorosos do personagem James Bond] Espero que as coisas estejam indo bem nos negócios e na vida pessoal, e acima de tudo, espero te ver muito em breve.
Mando um grande beijo, com carinho,
DOC”
A esposa de Epstein, então, responde, assinando com suas iniciais:
“Que bom ter notícias suas. A ideia de negócio não foi pra frente. Os números [tradução de ‘no’s’] simplesmente não fecharam no final. Pessoalmente, sinto sua falta.
Beijos,
Gx”
Não existe nenhuma comprovação oficial de que Epstein se encontrou com Lemann naquele momento — até porque uma reunião como essa não seria pública. No entanto, é possível cruzar as datas com os registros das viagens feitas pelo bilionário em seu jatinho particular, conhecido como “Lolita Express”. Dados que também foram publicados pelas agências de inteligência dos Estados Unidos.
Com isso, temos uma indicação de que Epstein e Lemann se encontraram em São Paulo — conforme era planejado por Ghislaine e Marcelo — em meados de abril de 2003:
Segundo o Diário de Bordo de Jeffrey Epstein, ele; sua esposa, Ghislaine Maxwell; Jean-Luc Brunel, conhecido como o homem que levava garotas brasileiras para Epstein; Sarah Kellen, designer de interiores apontada como uma das principais organizadoras do esquema de prostituição de Epstein; Magale Blachou, apontada como uma das massagistas de Epstein que depois foi recrutada para ser técnica esportiva/de saúde; e Naomi Campbell, modelo norte-americana; pegaram um voo das Ilhas Virgens Americanas — onde fica a ilha de Epstein — com destino a São Paulo em 2 de abril de 2003.
Curioso é, também, o fato de que esta comitiva saiu do Brasil em 5 de abril com destino a Genebra, na Suíça — a principal casa de Lemann é na Suíça desde 1999!
Outra prova de que Epstein esteve no Brasil nessa época é um artigo publicado em 28 de outubro de 2002 pela revista norte-americana New York. Em um perfil de Epstein, intitulado Jeffrey Epstein: International Moneyman of Mystery (Jeffrey Epstein: o misterioso homem do dinheiro internacional, em tradução livre), o jornalista Landon Thomas Jr. diz:
“Antes de assumir uma grande posição, Epstein geralmente voa até o país em questão. Ele passou recentemente uma semana na Alemanha se reunindo com vários funcionários do governo e tipos do mercado financeiro, e tem uma viagem ao Brasil marcada para as próximas semanas. Em todas essas viagens, ele voa sozinho em seu 727 do tamanho de um jato comercial.”
Mais uma prova de que Epstein veio ao Brasil em algum momento — algo que, até hoje, não é confirmado oficialmente — é o depoimento da ex-contabilista da MC2, agência de modelos de Jean-Luc Brunel em Miami, Maritza Vasquez. Ao ser perguntada sobre as meninas que eram levadas do Brasil para Epstein, ela diz:
“Jeffrey Epstein estava indo ao Brasil porque ele tem um ou dois clientes que são de lá. Então eles [Epstein e Brunel] estavam indo, estavam se reunindo lá e tudo mais.”
No mesmo depoimento, o entrevistador pergunta a Vasquez como ela conheceu Jean-Luc Brunnel. Ela responde:
“P. Então como você se encontrou com Jean-Luc Brunel no escritório dele em 1998?
R. Porque havia um cavalheiro da Suíça que queria fazer negócios com eles. E eu fui contratado por esse cavalheiro para examinar todas as contas para ter certeza de que – sabe, eles estavam meio que em falência. Mas ele queria saber se o dinheiro dele, o investimento dele, seria bom. Então foi por isso que eu fui. Tipo, uma auditoria externa para fazer – para ver qual era a receita, as despesas e coisas assim.
P. Quem é o cara da Suíça?
R. Não vou dizer o nome dele.
P. É alguém que ainda está em contato com Jean-Luc Brunel?
R. Não. De jeito nenhum.
P. Qual o motivo de não querer revelar o nome dele? Ele tem algo a ver com este caso?
R. Não. Mas não tenho permissão. Tenho que perguntar a ele.”
Até agora, provamos que:
- Marcelo de Andrade era extremamente próximo de Epstein e de sua esposa, a ponto de ser a referência para conexões com algumas das figuras mais poderosas do Brasil e estar na agenda de contatos de Jeffrey;
- Este homem de extrema confiança no Brasil considerou importante organizar um encontro entre os Epstein e o amigo Jorge Paulo Lemann que, naquele momento, nem sequer figurava na lista da Forbes dos 500 bilionários mais ricos do mundo, que já contava com nomes como Abílio Diniz (Pão de Açúcar) e Roberto Marinho (Grupo Globo);
- Por fim, o encontro teria ocorrido entre março e abril de 2003 (cabe lembrar que nem todos os voos feitos por Epstein foram registrados).
Começava, então, a relação entre Jeffrey Epstein e Jorge Paulo Lemann.
Dez anos depois
A partir de então, o nome de Lemann não é mais citado nos arquivos até 2013. Não é uma prova de que ele e Epstein não se relacionaram durante todo esse período, pois muito ainda não foi revelado e muito pode ter sido escondido/destruído. Mas cabe lembrar que é neste intervalo que o brasileiro desenvolve sua fortuna. Somente em 2007, por exemplo, ele entra para a lista de 500 pessoas mais ricas do mundo, tomando o primeiro lugar de Eike Batista justamente em 2013.
O próximo e-mail a citar Lemann é de 1º de março de 2013. Ian Osborne envia a Jeffrey Epstein a seguinte mensagem:
“Aguardo nossa conversa em uma hora.
Apenas uma atualização:
Vou te enviar as informações de caixa disponível e do contrato de locação amanhã. (só compilando o contrato dos arquivos da Osborne & Partners).
JY Lee não estará na cidade nessa data. JK Shin estará lançando o novo Galaxy S4 em Nova Iorque no dia 14 e estaremos em DC no dia 13.
Roman estará na cidade de 1º a 10 de abril.
Jorge Paulo Lemann estará em NY a partir de 3 de abril, depois da Páscoa.”
Ian Osborne é um investidor britânico discreto, cofundador da Hedosophia (firma de capital de risco bilionária). Os documentos sobre Epstein mostram que ele era o principal lobista no chamado “Project Jes”, lobby financiado por Epstein para instalar Jes Staley no banco britânico Barclays, um dos maiores do mundo. O e-mail acima mostra Osborne coordenando encontros entre os nomes mencionados e Epstein no sentido de fazer avançar este lobby, elencando Lemann como um dos principais interesses.
Naquele momento, o bilionário brasileiro, por meio da 3G Capital, empresa fundada por Lemann junto a Marcel Herrmann Tellese e Carlos Alberto Sicupira, havia acabado de fechar um acordo de 23 bilhões de dólares para comprar a empresa norte-americana Heinz. A sede da 3G era, inclusive, em Nova Iorque.
A compra foi feita em conjunto com Warren Buffett, um dos maiores capitalistas da história. Na época do acordo, em entrevista concedida à rede de televisão norte-americana CNBC, Buffett disse: “nunca vi um time de executivos tão capazes como o formado por Jorge Paulo Lemann”, consagrando o brasileiro cada vez mais como um dos homens mais poderosos do mundo.
A próxima aparição de Lemann nos arquivos se deu em 6 de outubro de 2013. Em mensagem a Epstein, Boris Nikolic diz:
“Acabei de sair do Jorge Paulo Lemann. Passei 5h com ele. Imediatamente depois que contei que estou deixando o Bill e pensando em um fundo, ele se ofereceu para investir (eu não pedi). Ele também disse que poderia trazer vários outros amigos bilionários para entrar.
Está ainda mais empolgante com o Alex. Passei o dia inteiro ontem e vou me encontrar com ele de novo. Te conto quando conversarmos.
Voltando para NYC amanhã de manhã.
Você está em Paris? Se divertindo???
B”
Boris Nikolic é um imunologista croata, ex-assessor científico de Bill Gates e investidor em biotecnologia, conhecido principalmente por ter sido nomeado executor reserva no testamento de 600 milhões de dólares de Jeffrey Epstein, sem — supostamente — seu conhecimento prévio.
E-mails mostram trocas casuais entre eles de 2010 a 2017, incluindo menções a encontros sociais, Bill Clinton, Príncipe Andrew e eventos como o amfAR Gala em Viena. Na foto abaixo, da esquerda para a direita, vemos Larry Summers, da OpenAI; Jes Staley, da JPMorgan; Jeffrey Epstein; Bill Gates; e Boris Nikolic.
Na mensagem acima, a menção a “saindo de Bill” é sobre Bill Gates. Na época, o croata planejava sair de seu cargo na Fundação Bill & Melinda Gates após disputas conjugais entre Bill e Melinda. Epstein, demonstrando confiança no que Lemann dizia, aconselha Nikolic a tomar uma decisão e fechar um acordo “antes cedo do que tarde”.
Boris Nikolic efetivamente deixou seu cargo como conselheiro científico principal de Bill Gates no mesmo período, confirmando o que disse a Lemann durante a reunião. O encontro, nesse sentido, aparentemente deu frutos: em 2014, Nikolic fundou a Biomatics Capital, uma firma de capital de risco em biotecnologia.
Antes dos e-mails de Osborne e Nikolic, Lemann foi citado em um e-mail de novembro de 2012 sobre um retiro da Dialog em 2014, sociedade que hospeda retiros anuais fechados:
“Você está convidado a se juntar a nós no Retiro Dialog… 150 pessoas para mudar o mundo… uma conversa participativa e empreendedora sobre mudar o mundo.
Os participantes do Dialog não são modestos. Queremos mudar o mundo. Mas não queremos passar nosso tempo sendo uma grande plateia ouvindo discursos longos. Não há palestrantes. Não há painéis. Todos os participantes participam de discussões facilitadas em grupos menores. E limitamos a discussão a apenas 150 líderes globais.
Datas: 13-15 de março de 2014
Local: Sundance Resort, Utah (40 minutos do aeroporto de Salt Lake City)
Alugamos o resort inteiro.”
A Dialog é comparada, muitas vezes, ao Clube de Bilderberg e ao Fórum Econômico Mundial. Foi fundada por Peter Thiel, co-fundador do PayPal e da Palantir Technologies, empresa norte-americana que esteve envolvida, conforme mostrou reportagem da Al Mayadeen, no ataque sionista envolvendo bipes no Líbano em 2024.
Empresa norte-americana esteve envolvido em carnificina no Líbano
Lemann é listado como um dos participantes desse retiro, junto a outros grandes capitalistas e líderes mundiais, como ex-ministros de Estado e afins.
O nome de Lemann não aparece mais nos arquivos. No entanto, o da AB Inbev, empresa formada pela fusão da belga Interbrew e da brasileira Ambev, criada por Lemann, sim.
Entre outubro e dezembro de 2017, menos de dois anos antes da morte de Epstein, o bilionário norte-americano troca uma série de e-mails com Maxim Churkin, filho de Vitaly Ivanovich Churkin, Representante Permanente da Rússia na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2006 até à data da sua morte, em fevereiro de 2017.
Nos e-mails, Epstein pede atualizações a Maxim sobre sua situação empregatícia. O jovem informa que lhe foi oferecida um cargo na AB Inbev:
“A Ab-Inbev prometeu me dar um retorno com a oferta final ou rejeição para a equipe de Compras Globais (supostamente a melhor equipe do mundo), mas não estou tão interessado neles. Quero fazer mais coisas internacionais locais aqui”, disse em 1º de outubro de 2017 em e-mail a Epstein.
Depois, em 21 de novembro, afirma: “parece que vou entrar na Ab Inbev em Compras, Inovação e Sustentabilidade”. Por fim, em 6 de dezembro, informa a Epstein que aceitará o emprego na Ab Inbev em Zug, cidade na Suíça.
“Tivemos uma viagem em família maravilhosa para Abu Dhabi, adoramos lá! Voltamos há alguns dias. Precisávamos de um tempo de férias. Decidi aceitar o emprego na Ab Inbev em Zug, é uma oferta sólida e um bom emprego em todos os aspectos. Não vou ficar rico, mas como você disse, Business School. O trabalho na Inbev é para Compras, Inovação e Sustentabilidade (5-7 projetos por ano) no mundo todo. Vou ganhar ótima experiência em operações e gestão de projetos, talvez alguma experiência em VC e M&A em uma empresa internacional com pessoas muito brilhantes de todo o mundo. Embora não estivesse empolgado inicialmente, vou ser o trabalhador mais dedicado da sala, nunca reclamar e me divertir enquanto faço isso. Mamãe vai ficar em Moscou por um tempo para cuidar de assuntos familiares e virá ficar comigo quando quiser. Ela manda lembranças e votos de boas festas.
Parece que ninguém em Moscou está interessado em caras de nível médio, ou é um alto executivo da Forbes ou um peão que trabalharia por quase nada. A maioria das ofertas que recebi aqui não faziam quase nenhum sentido. Só queria que você soubesse que pensei muito aqui, mas as cartas estavam contra mim, eu acho.
Vou partir para a Suíça no final de dezembro, seria ótimo falar com você na próxima semana. Espero que esteja bem e espero manter contato! Agradeço muito seu apoio.”
Nos arquivos divulgados, também é possível ver uma conversa por meio do aplicativo iMessage entre Vitaly Churkin e um número censurado a partir de 23 de maio de 2016. Utilizando outro documento, é possível concluir que Churkin estava conversando com o próprio Epstein.
Nas mensagens, Epstein informa o pai de Maxim sobre sua contribuição para arrumar um emprego para o jovem:
“Epstein: Qualquer ajuda ao Maxim é confidencial
Vitaly: Claro
E: Ele é um ótimo filho
E: Max está melhorando
E: Ele só precisa entender os hábitos do American biz
V: Você é um ótimo professor!
E: Obrigado
E: Falei com o Maxim. Primeiro emprego confirmado para começar no dia seguinte ao Dia do Trabalhador 🙂
V: Fantástico!
E: Ele irá amar
V: Sem dúvidas”
Esse diálogo, somado ao fato de que Maxim agradeceu Epstein, em 2017, por sua ajuda, indica que o bilionário “mexeu alguns pauzinhos” na Ab Inbev para garantir o emprego ao filho do recém-falecido diplomata russo.
Mais que um conhecido, um parceiro
As relações de Epstein com a burguesia brasileira são muito vastas, desde encontros com representantes das principais famílias do País, como os Marinho, até reuniões com grandes empresários e especuladores. No entanto, o que procuramos mostrar com esta reportagem é que a relação entre Epstein e Lemann era diferente das demais: o bilionário brasileiro não era simplesmente um contato, era um parceiro de negócios com o qual Epstein podia contar.
Recapitulando: ao visitar o Brasil pelo que, aparentemente, foi a primeira vez, se encontrou com Lemann após indicação da pessoa mais próxima da família Epstein aqui no País. Em seguida, procura Lemann para contribuir com um lobby para controlar um dos maiores bancos do mundo. Depois, exorta seu amigo, Boris Nikolic, a fechar um negócio bilionário com Lemann em oposição a Bill Gates — como vimos, o brasileiro se prontificou a não só ajudar, como também a trazer outros bilionários para dentro da jogada. E, por fim, pode ter arrumado um emprego na Suíça para o filho de seu amigo diplomata.
No que diz respeito às ligações de Epstein com o Brasil, a imprensa burguesa foca no tráfico de modelos por meio de Jean-Luc Brunel e, eventualmente, nas menções a Eike Batista. Em outro artigo, mostraremos como Epstein se aproveitou antecipadamente da bancarrota de Batista para beneficiar seus amigos nos Emirados Árabes Unidos, demonstração de que, para Epstein, Eike não era ninguém. “Não é um amigo”, disse Epstein em um e-mail endereçado ao sultão Bin Sulayem.
Com Lemann é diferente. O dono da educação privada brasileira, um dos principais responsáveis pela privatização da Eletrobrás, o dono das Lojas Americanas que aplicou um golpe de 45 bilhões de reais na população — o maior capitalista do País era parceiro de Epstein. Uma demonstração cabal da influência imperialista no Brasil e, principalmente no caso de Epstein, dos serviços de inteligência estrangeiros como a CIA e o Mossad.


























