Em janeiro de 2026, um novo lote de milhares de páginas previamente lacradas foi liberado pelo tribunal de Nova Iorque, incluindo agendas completas de Epstein de 2015-2016, mensagens de texto entre Ghislaine Maxwell e Jean-Luc Brunel, e nomes até então protegidos de dezenas de visitantes da ilha Little St. James. Esses arquivos, divulgados após recurso bem-sucedido de veículos de imprensa, trouxeram à tona detalhes ainda mais explícitos sobre a extensão global da rede, inclusive novas menções a viagens de recrutamento na América Latina e nomes de empresários brasileiros que teriam sido contactados por Brunel.
O caso Jeffrey Epstein representa um dos maiores escândalos de tráfico sexual e exploração de menores nas últimas décadas. O financista norte-americano, que morreu em 2019 na prisão em circunstâncias suspeitas enquanto aguardava julgamento, foi acusado de comandar uma rede que recrutava e abusava de jovens, muitas delas menores de idade, durante anos.
O recrutamento e a exploração das vítimas
A operação funcionava de forma organizada e cruel. Agenciadores, liderados principalmente por Ghislaine Maxwell (ex-namorada e cúmplice de Epstein, condenada a 20 anos de prisão por tráfico sexual), abordavam meninas e jovens mulheres em situações vulneráveis. Muitas vinham de famílias desestruturadas, escolas ou ambientes pobres. Elas eram atraídas com promessas de dinheiro fácil por “massagens”, oportunidades de carreira em moda, educação paga ou viagens luxuosas.
Uma vez dentro da rede, as vítimas eram pressionadas a realizar atos sexuais com Epstein e, em alguns casos, com outros homens. Para perpetuar o ciclo, muitas recebiam pagamento extra se trouxessem novas garotas, criando uma pirâmide de recrutamento onde as próprias vítimas se tornavam agenciadoras para escapar ou aliviar sua própria exploração. Relatos de vítimas descrevem como meninas de 14 anos eram levadas a mansões em Palm Beach, Nova Iorque ou à ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens, onde eram abusadas repetidamente. Documentos judiciais e depoimentos confirmam que o esquema durou décadas, desde pelo menos os anos 1990 até 2018 em alguns relatos.
Um dos agenciadores mais importantes da rede foi Jean-Luc Brunel, dono de agências de modelos como Karin Models e MC2 Model Management. Ele atuava como fornecedor direto de jovens para Epstein, recrutando meninas e adolescentes com a promessa de carreiras na moda internacional. Brunel era acusado de abusar pessoalmente das vítimas e de transportá-las para as propriedades de Epstein. Ele visitou o Brasil várias vezes, inclusive em 2019, pouco antes da prisão final de Epstein, participando de castings em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Na ocasião, ele realizou seleções em agências locais com o objetivo de levar garotas a Nova Iorque e até planejava abrir uma agência no país. O Brasil era um alvo preferencial por causa da disponibilidade de meninas altas e em situação vulnerável, facilitando o recrutamento sob falsas promessas de sucesso. Brunel foi preso na França em 2020 por estupro de menores e tráfico sexual, e morreu na prisão em 2022.
Enquanto o recrutamento explorava vulnerabilidades socioeconômicas, Epstein cultivava contatos com figuras poderosas do mundo político, empresarial e cultural. Ele oferecia acesso a festas luxuosas, voos em jatinho privado e estadias em suas propriedades. Documentos públicos mostram que nomes como presidentes dos Estados Unidos (Bill Clinton e Donald Trump), o príncipe Andrew (da família real britânica), empresários como Bill Gates e Les Wexner, além de cientistas e advogados, apareceram em registros de voos, agendas ou menções em processos.
A proximidade com figuras poderosas em situações altamente comprometedoras de estupros, por vezes contra crianças e adolescentes, sugere que o esquema poderia servir como ferramenta de pressão sobre os convidados a participar das festas de Epstein. Alegações apontam que câmeras escondidas gravavam encontros comprometedores, gerando material para chantagem. Isso gerava material de barganha com algumas das pessoas mais poderosas do mundo, garantindo favores, silêncio ou decisões alinhadas a interesses específicos. Embora não se saiba detalhes, observadores e analistas suspeitam do uso de um mecanismo de extorsão em larga escala, vítimas e ex-sócios de Epstein descreveram um ambiente onde o poder derivava do conhecimento de segredos alheios.
A ligação com o Mossad
Uma das questões mais importantes do caso diz respeito às supostas conexões de Epstein com a agência de inteligência israelense, o Mossad. O pai de Ghislaine Maxwell, o magnata Robert Maxwell (morto em 1991 em circunstâncias misteriosas), era amplamente considerado um agente ou ativo do Mossad. Ex-oficiais israelenses, como Ari Ben-Menashe, afirmaram em entrevistas e livros que Epstein e Ghislaine operavam uma armadilha de “mel” para o Mossad: atrair figuras influentes para situações comprometedoras e usar o material para obter vantagens ou informações.
Outros relatos mencionam que Epstein teria fugido brevemente para “Israel” após problemas judiciais em 2008 e que possuía múltiplos passaportes, características comuns em operações de inteligência. Vítimas como Maria Farmer descreveram o círculo de Epstein como ligado a grupos “pró-Israel” ricos e influentes.
As conexões de Epstein concentravam-se majoritariamente em círculos do bloco imperialista, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e Europa Ocidental, além de aliados próximos. Políticos, bilionários e celebridades do eixo EUA-União Europeia dominam as listas de voos, contatos e menções em arquivos judiciais liberados ao longo dos anos (incluindo lotes em 2024 e 2025).




