Polêmica

Haddad, ‘o mais tucano dos petistas’

Articulistas tenta livrar a cara de Fernando Haddad, mas tudo o que consegue provar é direitização da política petista

Fernando Haddad

O artigo O sacrifício de Fernando Haddad, de Luis Felipe Miguel, publicado no Brasil247 nesta terça-feira (3) mostra os limites dessa esquerda tucana e o porquê da esquerda perder cada vez mais eleitores e não conseguir eleger representantes no estado mais importante do País.

Luis Felipe Miguel inicia seu texto de maneira estranha dizendo que “Fernando Haddad é um daqueles casos de descompasso entre os talentos do indivíduo e a conjuntura em que ele deve atuar”. Que descompasso? Não estamos tratando de futebol, ou de uma vaga de emprego, mas de política. Ou Haddad estava à altura das exigências políticas, ou não estava.

Por falar em emprego, o articulista apresenta assim o curriculum vitae de Haddad: “Era um quadro petista que, nas circunstâncias anteriores a 2013, tinha tudo para chegar longe. Um político preparado, competente como administrador, com probidade inconteste. Com perfil conciliador, educado. Suficientemente liberal para não assustar o capital, mas com a preocupação social necessária para se credenciar como continuidade do lulismo. A esquerda gostaria de alguém mais à esquerda, é verdade, mas não tinha muitas opções”. Em que Haddad poderia ser uma continuação de Lula é que não fica explicado.

Isso de “suficientemente liberal para não assustar o capital” é um defeito, não uma qualidade. A classe trabalhadora não precisa de tecnocratas, mas de políticos que engajados em sua luta.

Deliberadamente, Miguel escreve “‘O mais tucano dos petistas’, dizia-se, de forma mordaz. Mas isso, àquela altura, não era um handicap [desvantagen]. Era algo que o posicionava favoravelmente na política brasileira”. Do jeito que foi escrita a frase, o “dizia-se” esconde que a frase foi dita por ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse tipo de análise explica o fracasso do PT. Em vez de privilegiar os interesses da classe trabalhadora, o partido estava preocupado em “não assustar o capital”, em aparecer “favoravelmente na política brasileira” recheada de delinquentes de todo tipo. Foi com essa mentalidade que a direção petista expulsou os setores mais à esquerda, como a Causa Operária, de seus quadros, pois queria tranquilizar a burguesia.

2013

Segundo o articulista, “os problemas começaram com as manifestações de junho de 2013. Fernando Haddad não soube lidar com as ruas, assim como ocorreu com outros dirigentes petistas. Mas provavelmente o percalço teria sido superado se aquele não tivesse se tornado o momento da grande virada no padrão da disputa política no Brasil”.

É preciso concordar com o dito acima. Haddad não queria baixar o preço da tarifa de ônibus, e chegou a dar entrevistas conjuntas com o tucano Geraldo Alckmin, e alegavam não haver margem para a redução da tarifa, confirmando a pecha de ser o mais tucano dos petistas.

2016/2018

Após o impeachment de Dilma Rousseff, Haddad, que dizia que a palavra “golpe” era forte demais. Com essa postura frouxa, não conseguiu se reeleger, perdeu para João Doria. Tucano por tucano, a população preferiu um original.

Adiante, Luis Felipe Miguel escreve que “com Lula preso injustamente, a fim de impedir o retorno do PT ao poder, coube a Fernando Haddad a candidatura presidencial de 2018. Fez uma campanha digna, sob cerrada oposição da mídia e do aparelho de Estado brasileiro, incluindo a justiça eleitoral. Sofreu sua segunda derrota”.

A prisão de Lula não foi apenas “injusta”, foi inconstitucional, um aprofundamento do golpe, e uma prisão sobretudo política com a participação direta do STF.  O Supremo Tribunal Federal, que negou habeas corpus preventivo de Lula, é hoje visto como defensor da democracia pela maioria da esquerda.

É preciso lembrar que o PT deveria ter dobrado a aposta e não ter lançado candidato e assim abrir uma crise. A candidatura de Haddad, que não tinha chance de vencer, serviu apenas para legitimar a vitória de Jair Bolsonaro. Haddad desejou boa sorte ao recém-eleito.

De ministro a derrotado

A gestão de Fernando Haddad como ministro da economia de Lula é uma tragédia, e será consequentemente utilizada pela oposição para tirar votos do petista, caso tente a reeleição.

Segundo o artigo, Haddad, que deixa o cargo, “é pressionado para encarar uma nova candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, que quase seguramente representará sua quarta derrota eleitoral consecutiva – sobretudo se, como tudo indica, Tarcísio de Freitas for mesmo candidato à reeleição. Mas Lula precisa de um palanque forte no estado que concentra o maior eleitorado da federação e não há, no campo do petismo e de seus aliados, nenhum nome melhor que o de Fernando Haddad”.

Como nome forte no lugar de Haddad, o articulista conjectura, diz que “salvo, talvez, o de Geraldo Alckmin”. E conclui dizendo que imaginar que “Lula não tem nenhum interesse em reabrir a discussão sobre o vice em sua chapa presidencial”.

Eis a “esquerda” cogitando Geraldo Alckmin como nome apoiado pelo PT ao governo do Estado. Para o autor do artigo, da a idade avançada de Lula, “Geraldo Alckmin, que sempre foi um homem de direita, tem o grande mérito de ter se mostrado muito leal, nesses mais de três anos de governo”. E ainda adverte o eleitor dizendo que “se ilude redondamente quem imagina que, caso ele seja substituído, tem chance de entrar no seu lugar alguém com posições políticas mais avançadas”.

Temos aí, sem retoques, um setor que se diz de esquerda, mas que pensa e age como tucanos.

Assim, fica fácil de entender porque a classe trabalhadora tem sido atraída pelo discurso da direita. Além da diferença quase inexistente, os direitistas pelo menos fazem pose de que estão contra o sistema

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