— Adhemar S. Mineiro (Economista, membro da Coordenação da ABED – Associação Brasileira de Economistas pela Democracia) e José Álvaro de Lima Cardoso
Quando nos referimos à dívida pública dos EUA, embora gigantesca como porcentagem do PIB e com uma taxa de crescimento rápida, esses aspectos não são apontados como um perigo enorme; menos ainda o governo estadunidense é ameaçado por instituições financeiras internacionais para que reduza o seu endividamento. Longe disso, a dívida pública do principal país imperialista no cenário internacional é expressão de sua força, colocando sua moeda e seus títulos públicos como referência de valor mundial.
Atualmente, a dívida bruta total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$38,4 trilhões. Para se ter uma ideia da velocidade de crescimento, o país atingiu os US$ 38 trilhões em outubro de 2025, o que representa um dos acúmulos de capital mais rápidos fora de períodos de pandemia. No terceiro trimestre de 2025, a dívida representava aproximadamente 121% do PIB norte-americano. Isso significa que o débito do país é significativamente maior do que tudo o que ele produz em um ano.
Para fins de perspectiva, a dívida bruta dos EUA equivale a mais de 16 anos de PIB brasileiro, considerando um produto aproximado de US$ 2,32 trilhões em 2025. O crescimento anual da dívida estadunidense é quase igual ao PIB total anual do Brasil. Esse aumento é alimentado não apenas por novos gastos, mas também pelo pagamento de juros, que se tornou uma das partes do orçamento federal que mais cresce devido às taxas elevadas. O estoque atual da dívida e os gastos diários com juros implicam — como no caso do Brasil — na redução da capacidade do Estado de sustentar outras despesas, como infraestrutura, ciência e saúde.
A financeirização do orçamento afeta diretamente, inclusive, a estratégia imperialista dos EUA, majoritariamente assentada em sua capacidade de agressão militar em todo o mundo. A aproximação ou ultrapassagem dos gastos com a dívida em relação aos gastos com a guerra mostra a magnitude do fenômeno da financeirização. Embora os EUA sejam o país que promove e patrocina conflitos globalmente, nos últimos anos, a aceleração dos juros e os encargos da dívida cresceram mais rapidamente do que o orçamento militar.
Paralelos e Contrastes
O efeito da dívida sobre o governo norte-americano tem similaridades com o que acontece em países subdesenvolvidos, apesar do poderio político e econômico do país. Gastos maiores com juros reduzem a margem para despesas discricionárias, incluindo defesa e investimentos, sem que seja necessário elevar impostos ou aumentar o déficit.
O governo brasileiro sofre duras críticas quando apresenta um déficit orçamentário primário (que desconsidera juros) de 0,50% do PIB, como estimado para 2025. No entanto, o déficit primário dos EUA no ano fiscal de 2025 foi de aproximadamente US$1,1 trilhão (1,8% do PIB) — ou seja, 3,6 vezes o déficit proporcional do Brasil. Podemos imaginar o estardalhaço que a grande imprensa promoveria se o Brasil apresentasse um resultado negativo nessa magnitude.
Nos EUA, como no Brasil, entra governo, sai governo, e independentemente da posição política, ninguém parece ter força para enfrentar o problema da dívida. A diferença é que, por serem os donos da “máquina de imprimir dólares”, ninguém lhes cobra superávits primários.
O Cenário Global e o Poder do Dólar
A dívida pública não é um problema exclusivo dos EUA, mas um desafio sistêmico global. A razão dívida global/PIB saltou de 84% em 2019 para cerca de 90% em 2023, com projeção de atingir 100% em breve. Atualmente, a maior relação dívida/PIB pertence ao Japão, acima de 230% (janeiro de 2026).
Em dezembro de 2025, os EUA detinham 39,5% da dívida pública mundial. Embora o montante seja considerado impagável por alguns, essa concentração reforça o poder americano: os títulos do Tesouro são o principal ativo “seguro” do sistema financeiro. Isso gera uma demanda constante, garantindo o financiamento do próprio débito.
Além disso, o monopólio da emissão do dólar fornece aos EUA um poder inigualável. Por isso, é surpreendente que a economia russa continue crescendo acima da média global, mesmo sendo o país mais sancionado da história (com estimativas entre 16 mil e 20 mil medidas restritivas). Em 2025, a Rússia ascendeu ao 10º lugar entre as maiores economias do mundo, ultrapassando o Brasil.
Geopolítica e Conflito
Parece sintomático que o país com a maior dívida absoluta do mundo esteja tomando ações que podem levar a uma conflagração de grande envergadura para alterar a configuração geopolítica mundial. Os sinais são visíveis: guerra na Ucrânia, provocações à China via Taiwan e tentativas de desestabilização na América Latina.
A China é o “inimigo a ser derrotado”, vista como o único país capaz de substituir a ordem internacional liderada pelos EUA desde 1945. O gigante asiático disputa em igualdade a guerra tecnológica (semicondutores e IA) e possui um “defeito” adicional aos olhos americanos: além de gastos menores com juros, sua dívida representa apenas 78% do PIB e está sob controle.




