Oriente Próximo

Khamenei: guerra dos EUA contra Irã desencadearia guerra regional

Declaração ocorre em meio a relatos de planejamento norte-americano de ataques e ao balanço das revoltas pró-imperialistas no país

Em declaração a um grupo de cidadãos, o líder iraniano, aiatolá Ali Khamenei, advertiu que uma guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o Irã não ficaria restrita ao país e se transformaria em um conflito regional. Khamenei afirmou que Teerã “não busca guerra” e “não atacará nenhum país”, mas ressaltou que “o povo iraniano responderá de forma decisiva a qualquer um que o agrida”.

O dirigente também afirmou que ameaças e mobilizações militares contra o Irã “não são novidade”, citando episódios históricos em que o país enfrentou pressões semelhantes. Khamenei resumiu o confronto com os norte-americanos dizendo que “os EUA querem engolir o Irã”, mas que “o povo iraniano, corajoso”, e a República Islâmica “se colocam firmemente no caminho” desse objetivo. Referindo-se às ameaças do presidente dos EUA Donald Trump, que voltou a dizer que “todas as opções estão sobre a mesa”, incluindo o envio de navios de guerra à região, Khamenei declarou que tais medidas não intimidam o país, sustentando que os iranianos “não têm medo dessas ameaças”.

Ameaças e mobilização militar

As declarações de Khamenei ocorrem em meio a relatos de bastidores sobre a escalada militar norte-americana. Em 31 de dezembro, fontes ouvidas pelo sítio Drop Site News afirmaram que oficiais militares de alto escalão dos EUA advertiram a direção de um aliado central do Oriente Médio de que o presidente Donald Trump poderia autorizar uma ação militar contra o Irã no domingo (1º). Ainda conforme os relatos atribuídos a essas fontes, se Washington optasse por avançar, os ataques poderiam começar nos primeiros dias de fevereiro, em um planejamento que iria além de instalações nucleares e do programa de mísseis, incluindo alvos militares e ações voltadas a desorganizar o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) e sua cúpula.

Os mesmos relatos apontam que os estrategistas de guerra norte-americanos trabalham com a hipótese de que o enfraquecimento da liderança iraniana poderia estimular protestos internos em massa e acelerar uma mudança de governo, algo incentivado pela entidade sionista.

No sábado (31), Trump falou com repórteres a bordo do Air Force One e declarou que o Irã estaria “falando conosco, falando seriamente”. Ele não indicou se já tomou decisão sobre um possível ataque. Questionado sobre a possibilidade de recuar e, com isso, “encorajar” Teerã, respondeu que há quem acredite nisso e quem discorde. Ao ser cobrado por detalhes, afirmou que não poderia fornecê-los, mas acrescentou: “temos navios muito grandes e poderosos indo naquela direção”, dizendo esperar que haja um entendimento “aceitável”.

Manifestações golpistas e repressão

No mesmo pronunciamento, Khamenei tratou dos episódios recentes no país como uma ofensiva golpista armada, direcionada contra instituições centrais do Estado. O líder iraniano disse que os grupos envolvidos agiram como em uma operação de quartelada, mirando estruturas-chave do poder público. Entre os alvos citados, estiveram delegacias, prédios do governo, instalações do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), bancos e mesquitas. Khamenei afirmou ainda que os atacantes queimaram exemplares do Alcorão.

O vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, general Ahmad Vahidi, declarou que as movimentações do inimigo estão sob vigilância e controle completos. Ele afirmou que a prontidão militar do país supera os níveis registrados antes do último ataque, em junho de 2025. Vahidi também afirmou que a presença de forças navais estrangeiras na região faz parte de uma campanha de intimidação e pressão psicológica e, por isso, não deve desorganizar a vida do povo, defendendo a manutenção das atividades cotidianas, com atenção ao que é difundido para alimentar o clima de tensão.

O gabinete do presidente Masoud Pezeshkian divulgou um balanço das mortes provocadas pelas ações armadas, informando que o número de vítimas chegou a 3.117. A Presidência afirmou que os dados de 2.986 pessoas já foram tornados públicos e explicou que a diferença se deve a identidades ainda não reconhecidas ou a registros nacionais que não foram compatibilizados, com a divulgação de uma lista complementar. Em nota, o gabinete declarou compromisso com a transparência e disse que a relação de nomes foi organizada em coordenação com a Organização de Medicina Legal e o Registro Civil. O texto atribui a Pezeshkian a afirmação de que cada vítima é “uma comunidade e um mundo de relações” e que nenhuma família enlutada ficará sem amparo. A nota conclui: “todo iraniano representa todo o Irã”, afirmando que o Estado se coloca ao lado das famílias e assume a responsabilidade de enfrentar o sofrimento imposto pelas ações violentas com dignidade e cuidado.

Prisões, células armadas e contrabando de armas

Na província de Qazvin, a Diretoria Geral de Inteligência informou a prisão de 158 pessoas envolvidas nas ações armadas, incluindo integrantes de grupos proibidos, como os grupos bahá’í e Shahanshah. Segundo as autoridades, a operação desmontou sete células “terroristas” no noroeste do país e resultou na apreensão de três armas de fogo, 219 munições, além de facas, coquetéis molotov e granadas de mão.

Em ação relacionada, a inteligência do CGRI interceptou uma rede de contrabando de armas na fronteira oeste. De acordo com a agência Tasnim, a operação apreendeu um carregamento de 30 pistolas antes da entrada no país. As forças de segurança do Irã seguem atuando contra grupos armados ligados a serviços de inteligência estrangeiros. Autoridades afirmam que os responsáveis pela ofensiva golpista exploraram reivindicações econômicas e operaram conectados ao Mossad e a operações de inteligência norte-americanas.

Como a crise se desenvolveu

O governo iraniano afirma que protestos legítimos iniciados por agricultores no início de dezembro foram rapidamente transformados, por ação do imperialismo, em uma ofensiva armada para desestabilizar a República Islâmica, com setores chegando a falar abertamente em mudança de governo. Teerã acusa reiteradamente os Estados Unidos e “Israel” de interferência direta e afirma que serviços como o Mossad buscaram converter manifestações pacíficas em ações armadas por meio da infiltração de colaboradores e provocadores para estimular violência e caos.

Autoridades judiciais classificaram os episódios como “atos terroristas conduzidos por Estados ocidentais” e afirmaram que entre os presos há pessoas ligadas a serviços de inteligência estrangeiros. Ao mesmo tempo, o Judiciário declarou que separa manifestantes genuínos de sabotadores ligados ao exterior. Teerã também caracteriza a ofensiva como parte de um esforço para explorar dificuldades internas e o descontentamento econômico, agravado pelas sanções do imperialismo, com o objetivo de atacar a soberania nacional.

Chanceler fala em acordo ‘justo’

Em entrevista à CNN no domingo (1º), o chanceler Abbas Araghchi declarou que os Estados Unidos precisam aproveitar a oportunidade para chegar a um acordo “justo e equilibrado” com Teerã e advertiu que uma agressão militar gera “um desastre para todo mundo” na região. Ele disse estar “confiante” de que um entendimento é alcançado sobre o programa nuclear iraniano, mas afirmou: “infelizmente, perdemos nossa confiança nos EUA como parceiro de negociação”. Araghchi acrescentou que conversas avançam com a mediação de países amigos da região e enfatizou que o conteúdo das tratativas é mais importante que a forma, sem se comprometer com negociações diretas.

O chanceler afirmou que a pauta deve se limitar ao programa nuclear do Irã, rejeitando a inclusão do arsenal de mísseis e de alianças regionais: “não vamos falar de coisas impossíveis”, disse. Ele declarou que os EUA suspendem as sanções que pesam sobre a economia iraniana há mais de uma década e garantem o direito do país ao enriquecimento nuclear pacífico.

Araghchi também afirmou que o Irã mantém preparo militar caso as negociações fracassem e declarou que um conflito se expande para além das fronteiras iranianas. Ele disse que, em caso de guerra, as forças iranianas atingem bases norte-americanas em toda a região, após testes e aprimoramentos das capacidades de mísseis durante e após a guerra de 12 dias com “Israel”, em junho. Ainda citou as ações golpistas armadas de janeiro e disse que “elementos terroristas” receberam ordens do exterior. Sobre o pico de violência, afirmou: “consideramos esses três dias como continuação daqueles 12 dias de guerra, uma operação conduzida pelo Mossad a partir de fora e, claro, esmagamos essa operação”.

Araghchi negou que houvesse plano de execução ou enforcamento de detidos e rejeitou a alegação de Trump de ter recebido garantias do Irã sobre suspensão de execuções. “Posso afirmar que os direitos de cada pessoa presa e detida serão observados e garantidos”, declarou.

Diplomacia regional

Nos últimos dias, aumentaram os contatos diplomáticos na região para conter a escalada. No sábado (31), o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, viajou a Teerã. Na segunda-feira (2), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, informou que Al Thani se reuniu com Araghchi e com Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, em conversas voltadas a preservar a paz e a estabilidade e tratar dos desdobramentos regionais. Uma nota do governo do Catar afirmou que foram revisados esforços em andamento para reduzir tensões.

Também no sábado (31), em telefonema com o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, Pezeshkian reiterou que o Irã prioriza a via diplomática, mas afirmou que a República Islâmica não aceita negociações impostas por ameaças e coerção e que a guerra não beneficia nenhum dos lados.

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