O artigo Trump está dando um golpe nos EUA, de Reynaldo José Aragon Gonçalves, publicado no Brasil 247 publicado nesta quinta-feria (29), revela que a maioria da esquerda se acomodou em jogar nas costas de Donald Trump todas as mazelas da política dos Estados Unidos. Alguns jornalistas e articulistas tratam a coisa como se fosse uma ruptura com a “democracia”. Mas a democracia norte-americana, se é que existiu um dia, está morta há muito tempo.
Gonçalves traz que “não é crise institucional. Não é polarização. Não é excesso retórico. Os Estados Unidos vivem, em 2026, um golpe de Estado em andamento conduzido sem tanques, mas com mapas eleitorais manipulados, instituições capturadas e uma população submetida a operações psicológicas permanentes”.
Quando George W. Bush venceu Al Gore na mão grande, seguindo o critério acima, teria sido um golpe de Estado. As operações psicológicas em torno do 11 de setembro, que culminaram no Ato Patriota, que jogou no lixo a Quarta Emenda, foi outro golpe de Estado. A avalanche de processos contra Donald Trump e as tentativas de assassinato teriam sido o quê? Golpe de Estado.
O problema com essa esquerda se deve ao fato de estar a reboque do Partido Democrata norte-americano e de apoiar seus candidatos, por piores que sejam. Joe ‘Genocide’ Biden, foi muito pior que Trump, mas isso não pode ser admitido. Então, criou-se uma divisão histórica a.T. / d.T. – antes de Trump e depois de Trump. Mas essa divisão é completamente falsa.
Golpismo internacional
Aragon Gonçalves sustenta que “o golpe contemporâneo não se anuncia porque não precisa. Ele se instala pela administração do cotidiano político. Regras eleitorais são reescritas fora de seus ciclos, instituições são pressionadas até perder autonomia real e a força do Estado passa a ser empregada de maneira assimétrica contra territórios e populações politicamente adversas”.
As regras eleitorais são reescritas a cada eleição no Brasil e, exceto o Partido da Causa Operária – PCO, toda a esquerda aceita essa ingerência que tem apenas facilitado a eleição de parlamentares de direita.
Na Europa “civilizada”, houve golpes eleitorais na Alemanha, na França – onde Emmanuel Macron não reconheceu a vitória da esquerda. As eleições na América Latina precisam sair ao gosto do imperialismo, ou são rejeitadas. Portanto, esse fenômeno está muito bem distribuído pelo mundo.
Adiante, o articulista diz que “a legalidade deixa de operar como limite e passa a funcionar como instrumento. O que define o golpe não é a ruptura formal da Constituição, mas a conversão das instituições em engrenagens de um projeto que já não admite a possibilidade de derrota”. Quem vive no Brasil sabe muito bem o que é isso, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) faz o que bem entende da Constituição. Outra instituição, a Polícia Federal, é claramente uma engrenagem que visa controlar as eleições.
O paragrafo seguinte inicia dizendo que “esse novo limiar histórico se consolida quando um projeto de poder, liderado por Donald Trump, passa a tratar a vitória eleitoral como condição inegociável e a derrota como ameaça existencial. A partir desse ponto, a democracia deixa de ser um meio legítimo de disputa e se transforma em obstáculo a ser contornado”. Não existe “novo limiar histórico”, isso não passa de uma invenção.
Também não existe nada de novo em o Estado reorganizar “suas normas, seus aparatos e sua força para impedir a própria contingência do resultado político”. Dizer que por causa disso “regime já não pode ser descrito como democrático”, e que o Estado “passa a operar, na prática, como um sistema autoritário em consolidação”, é confessar que não percebeu que isso é a democracia burguesa, a democracia liberal agindo em sua essência.
A crise do imperialismo
Gonçalves diz que “o autoritarismo que avança hoje nos Estados Unidos não nasce de impulsos irracionais ou de colapsos súbitos. Ele emerge de um cálculo político preciso”. No entanto, o que está acontecendo é que a crise no imperialismo já perdeu a sutileza, exige posições claras. Quem olha para o Reino Unido, por exemplo, vê que a coisa é assim. Deixaram-se as aparências de “democracia” de lado e vale agora a truculência estatal sem maquiagem.
Segundo o articulista, o gerrymandering, ou a tática política de redesenhar as fronteiras de distritos eleitorais para favorecer um determinado partido, grupo ou candidato; no entanto, o que é o voto pelo correio nos EUA senão uma manipulação descarada? Como Trump reclama desse tipo de voto, a “esquerda” automaticamente diz que exagera, o que é absurdo.
Donald Trump é pressionado por duas forças poderosas: a alta burguesia norte-americana e o grande capital financeiro.
Ao expulsar imigrantes para gerar empregos para os norte-americanos, gera uma crise social. Enquanto tenta acabar com a guerra na Ucrânia para economizar recursos e aplicar na economia local, cede ao grande capital e manda uma grande frota em direção ao Irã.
Aqueles que acreditam que os democratas fariam diferente, se enganam. Obama, Biden, e a política dos democratas já tinham aberto a ferida na sociedade norte-americana. Não fosse assim, e Trump não teria sido eleito.
É fácil dimensionar o tamanho da crise, pois apesar dos inúmeros processos, do bombardeio sistemático na grande imprensa, Donald Trump se elegeu.
Pode ser que Trump fracasse nas eleições de meio de mandato e que não faça seu sucessor. Porém, a frustração de seu eleitorado pode exigir no futuro um presidente ainda mais radical e direitista. E a razão é simples: as contradições internas nos EUA não estão sendo solucionadas, mas se aprofundando.
As exigências do imperialismo pela guerra, o endividamento estatal e o empobrecimento da população estão criando um cenário explosivo.
A maioria da esquerda, por sua adesão ao Partido Democrata tem feito uma análise parcial e enviesada. Com isso, não consegue ter uma política independente e acaba sendo partidária da política do “mal menor”, que de menor não tem nada.
Ao abandonar suas bandeiras tradicionais e militar pelos democratas, a esquerda tem entregado sua base para o bolsonarismo e fortalecido da extrema direita.




