O problema maior do identitarismo é esconder a verdadeira causa da opressão das pessoas. Em um passe de mágica, o problema do negro é o branco, e o da mulher é o homem, em uma manobra que enterra qualquer debate real, sob a perspectiva da luta de classes. E este, na realidade, é o único objetivo do identitarismo.
Como ele, o identitarismo, cumpre essa função fundamental para a manutenção do sistema. O próprio capitalismo banca seus ideólogos e redatores identitários (conservadores), tal qual a senhora Milly Lacombe, da não menos direitista Folha de S. Paulo/UOL, famosa por mentir, em rede nacional, sobre o ex-jogador Rogério Ceni.
Em sua página de Instagram, Lacombe se propõe, com uma prepotência inacreditável, a apresentar um programa voltado aos homens, para que os homens deixem de ser homens, e assim acabar com a violência do mundo. Alguém poderia dizer que ela “não tem lugar de fala”, mas essa não é a questão.
Ela afirma que homens são privilegiados, e o processo de “construção” de um homem é cheio de violências.
Afirmar que “homens são privilegiados” só cumpre o papel de jogar as mulheres contra os homens. E vice-versa. E essa política não fazer as condições de vida das mulheres melhorarem — pelo contrário, pois privilegiados são os que detém dinheiro, não os “homens”, genericamente falando. Os moradores de rua, pobres e famintos, sendo homens, são privilegiados, pela concepção de Lacombe. Aconselhamos que ela vá lá falar para eles isso.
A violência não é um problema do “homem”, mas da sociedade capitalista. Basta ver a quantidade de guerras que os Estados Unidos fizeram no mundo desde sua criação. Estados Unidos é um país, não é um homem. O capitalismo causa fome, o que causa violência. A fome é a fome, não é o “homem“. A desigualdade social também causa violência, e não o “homem”.
Lacombe sequer menciona essa questão, que é uma análise tradicional da esquerda, o que revela que ela não está prestando serviços nem para homens e menos ainda para as mulheres, mas para o sistema capitalista.
Ela diz que o custo de ser homem é alto, pois é ensinado a reprimir sentimentos, se mostrar frágil e pedir ajuda. Em uma sociedade como esta, de selvageria capitalista, qual seria exatamente a vantagem do homem demonstrar fraqueza, medo e vulnerabilidade? E o mais importante, isso acabaria com a violência? Claro que não.
Na realidade, se o objetivo é lutar contra as forças que massacram o povo oprimido no mundo inteiro, a raiva, a coragem e o exercício da violência é algo fundamental, para homens e mulheres.
Lacombe estica a corda e diz que o preço de ser homem é se preocupar com o tamanho do pênis, com um jeito rígido de se vestir e com a obrigação da agressividade. A impressão que surge é que Lacombe não conheceu um homem de verdade, o que é bem possível. Além de desconhecer o próprio gosto feminino, afinal, quem avalia se o tamanho de um pênis é razoável ou não é uma mulher.
E ela não conheceu um homem mesmo. Ela nos conta que há um “dever de ficar com muitas mulheres”, o que, implicitamente, significaria que o culto sagrado patriarcal dos homens da Milly Lacombe são ensinados a trata as mulheres como se elas fossem um mero objeto, como se não valessem nada. Mas ela talvez não saiba que todo homem tem irmã e mãe e que muitos têm filhas — seu argumento, portanto, não tem pé na realidade. Tanto o que ela diz não faz sentido que o tratamento dado a estuprador em penitenciária é horrível.
A conclusão ensandecida de Lacombe é que, em razão dessas coisas, os homens matam mais e adoecem mais. Ou seja, o fato de se preocupar com o tamanho do pênis torna o homem em um homicida e doente mental. Novamente, o capitalismo, segundo Lacombe, nada tem a ver com isso.
“Por causa dessas construções”, diz a redatora do UOL, o homem causa 95% das violências do mundo inteiro. Quem diria que usar terno resultaria em um genocídio em escala global.
E a saída para isso seria? “Letramento”, “disciplina” e “coragem”. Ninguém sabe dizer o que ela quis dizer, nem mesmo ela, a autora. São palavras ao vento, sem significado prático nenhum.
Diz que o “feminismo” pode libertar os homens também. Mas ninguém sabe o que é feminismo. Lacombe não diz o que é, e nem pode dizer porque não é um programa político sólido. “Não entre nessa luta por nós mulheres, mas por você”, diz Lacombe. Qual luta? E por qual motivo ela fala em nome das mulheres? Milly Lacombe não representa mais que a si própria.
O problema do homem e também da mulher não é cultural, é social, decorrente das relações sociais estabelecidas pelo capitalismo, resultado da luta de classes, entre os despossuídos e os donos do mundo.
Esse “feminismo” da CIA deixa de defender o óbvio: que as mulheres tenham armas de fogo, aprendam a atirar, e possam se defender; que exista uma creche pública, gratuita, em cada quarteirão; que ela tenha o direito de abortar uma gestação; que tenha emprego, casa, saúde, enfim, os direitos mais elementares. Esse é o problema. Não tem nada a ver com terno e gravata e tamanho de pênis.
É essa análise, de classe, que Lacombe evita, pois lutar contra o capitalismo e acabar suas mazelas e com os ricos é acabar com o ganha-pão de Lacombe. De forma que toda essa tolice identitária só serve para ocultar o problema real, o de classe, que transforma as mulheres seres inferiores na sociedade, sem peso social, tal qual o negro ou o trabalhador, e faz da maioria das relações sociais um exercício comum de selvageria.




