O artigo Quatro mulheres foram mortas por dia em 2025 e feminicídio bate recorde no governo Lula, assinado Rodrigo Franco e publicado no sítio Esquerda Diário nesta terça-feira (27), não chega nem perto de debater a questão sobre a violência contra a mulher.
Segundo o autor, “esse recorde só aprofunda mais ainda uma das faces mais cruéis do sistema capitalista, que ao se combinar com o patriarcado, enxerga as mulheres como propriedade dos homens e as trata como mercadoria barata”. Até onde se sabe, a mulher era vista como propriedade desde o fim do matriarcado. Vale a leitura do livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels, que trata do tema em profundidade.
Segundo Franco, “o número de 1470 casos supera os 1464 casos de 2024, sendo o maior número em 10 anos. O aumento expressivo de casos de feminicídio nos últimos 10 anos é resultado do fortalecimento do conservadorismo da nojenta extrema-direita que em nome da ‘família tradicional e dos bons costumes’ defende a visão de que a mulher deve ser submissa aos homens”.
A questão que se coloca é a seguinte: por que o número de assassinato de mulheres não aumenta nos demais países onde avança a extrema direita? Para corroborar sua posição, o articulista acrescenta que “Bolsonaro durante seu governo foi um dos símbolos disso. Fortaleceu as igrejas no sentido de plantar uma ofensiva contra as mulheres, negando o direito ao aborto.”.
Apesar das medidas negativas de Bolsonaro e o avanço da extrema direita, essas explicações são insuficientes. O aumento da criminalidade precisa ser vista principalmente do ponto de vista econômico. Conforme se acentuam se aprofundam os abismos sociais e a falta de perspectiva, a violência também aumenta. E isso certamente afetará os setores mais oprimidos da sociedade.
A questão do aborto
Para Franco, “o governo Lula é responsável por esse cenário. Em 2024, no calor dos debates sobre a PL 1904 que equiparava aborto com homicídio, na prática permitindo que crianças se tornassem mães e ainda normalizava casos de estupro, o governo Lula-Alckmin liberou sua base para votar a favor dessa PL nojenta. Além disso, no ano passado, as lideranças do PT concordaram em eleger a bolsonarista Damares Alves na comissão de direitos humanos da câmara de deputados e parlamentares do PT chegaram a elogiar Silas Malafaia pelo seu combate ao aborto”.
A verdade é que a esquerda de modo geral, que é pequeno-burguesa, evita tratar com seriedade a questão do aborto. Especialmente quando se aproximam as eleições. O mesmo serve quando se trata de debater a legalização das drogas. Com medo de perder votos, esses temas vão sendo jogados para debaixo do tapete. Quanto ao fato de parlamentares elogiarem Malafaia, isso não surpreende, visto que no senado esse partido tem um sionista de carteirinha. Uma das fundadoras do PSOL, Heloísa Helena, era militante anti-aborto.
“Violência de gênero”
Adiante, Franco diz que “concretamente, esse dado recorde de feminicídios também mostra que em quase 4 anos de mandato, o governo Lula e o PT não são uma alternativa ao combate a violência de gênero, utilizando os direitos das mulheres como moeda de troca para seguir governando, ao mesmo tempo que fortalecem a extrema-direita”.
Apesar de condenar Lula, a maioria da esquerda tem feito o quê? Tem exigido mais punição, aumento de penas, e isso também fortalece a extrema direita, pois se trata da mesma política. Qual direitista não quer penas maiores? Quanto mais repressor for o Estado, pior para a classe trabalhadora.
No mesmo parágrafo, Franco critica a política fiscal do governo, diz que “o governo Lula que paga religiosamente a dívida pública por meio do arcabouço fiscal para agradar o mercado financeiro nacional e internacional em troca de cortar cada vez mais verba da saúde e educação pública, a mesma lógica dos nossos inimigos que ano passado aprovaram um corte em 68% da verba de combate a violência de gênero”.
É verdade que a política econômica do governo é ruim. O Arcabouço Fiscal foi uma solução tímida para enfrentar o Teto de Gastos imposto por Michel Temer após o golpe de 2016. Por outro lado, essa questão da “verba de combate a violência de gênero” é uma inutilidade. Não se combate a violência com “programas” simplesmente. É preciso acabar com as diferenças sociais, ou nada vai mudar.
Essa esquerda que cobra verbas não admite que sua política de combate à “violência de gênero” é um fiasco, e que fracassou miseravelmente. Colocar mais gente na cadeia, aumentar as penas, o que em muitos casos pode se equiparar à prisão perpétua, de nada adiantou. Além do fato de que isso nunca foi política de esquerda. A sociedade esmaga as pessoas, portanto, pressionar para que se esmague ainda mais é uma política reacionária e completamente direitista.
A luta
No último parágrafo, o autor diz que “ara enfrentar essa violência estrutural do capitalismo, devemos confiar na força da mobilização das mulheres”. Chama pela “unidade entre mulheres, trabalhadores, LGBTs, negros contra a extrema direita”. Passa pelo arcabouço fiscal, pela surrada “taxação das grandes fortunas”. Concluindo com “por isso, nenhuma confiança nas instituições do Estado capitalista que estão a serviço de sustentar o patriarcado nos dias de hoje”.
Curioso, pois, a pretexto de combater a extrema direita, a esquerda pequeno-burguesa tem apoiado o Supremo Tribunal Federal, uma das instituições do Estado burguês. E este não está preocupado em “sustentar o patriarcado”, mas de aumentar a lucratividade.




