O artigo Lula e STF: dividir para conquistar, de Eduardo Guimarães, publicado no Brasil247 nesta terça-feira (27), mostra que parte da esquerda perdeu o juízo. A defesa de instituições do Estado burguês, altamente reacionárias, como a Polícia Federal (PF) e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Guimarães tenta iniciar seu artigo de maneira dramática. Pegunta: “o que têm em comum, entre outros, o imperador romano Júlio César, Filipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão? ”. Para então responder que é “o uso do conceito político ‘divide et impera’, que remonta a milênios e jamais deixou de ser empregado para dividir adversários e enfraquecê-los”.
Em seguida, o articulista pede que se deixe a história milenar de lado e que se concentre no presente. Diz que “em uma nação continental que encantou o mundo com o seu progressismo e com um Sistema de Justiça que foi capaz de colocar dentro de seus sapatos até os irascíveis militares golpistas que tanto mal já causaram a este povo”.
Naturalmente, Eduardo Guimarães está fazendo uma alusão ao Brasil, apesar de que ele próprio já foi vítima da justiça.
Não faz muito tempo, na noite de 3 de abril de 2018, os militares colocaram dentro de suas botas o STF. O Jornal Nacional, da Rede Globo, leu em rede nacional uma mensagem do comandante das Forças Armadas, Villas Bôas, dando ordens para Luiz Inácio Lula da Silva tivesse negado seu habeas corpus preventivo. No dia seguinte, obedientemente, a ministra Rosa Weber – que havia sido indicada por Dilma Rousseff – votou pela prisão de Lula. Portanto, a versão dos fatos de Eduardo Guimarães são, para dizer o mínimo, fantasiosas.
É verdade que os militares já fizeram mal ao Brasil, mas o STF sempre colaborou, nunca foi um empecilho e não seria agora.
Mais drama
Mantendo seu tom dramático, Guimarães escreve que “A Polícia Federal, em comunhão com a Suprema Corte de Justiça – aquela à qual cabe ‘errar por último’ em mais de uma centena de democracias – chegou a Daniel Vorcaro, uma das raposas mais endinheiradas entre a fauna verde-amarela”. – grifo nosso.
Parece que temos um novo ditado: “Quem erra por último, erra melhor”. E se a PF chegou a Vorcaro não foi por acaso, mas porque existem interesses muito poderosos em ação.
Guimarães questiona que “talvez o STF tenha ido muito longe ao mexer com uma turma que andou despejando seus favores no bolso fascista do ‘bolsonarista moderado’ que desgoverna a autoproclamada Província dos Bandeirantes”. Será que o problema é Tarcísio de Freitas? Talvez, ministros do STF tenham se envolvido demais. Eis uma grave suspeita. E ninguém vai acreditar que PF seja uma instituição neutra.
O jornalista tenta jogar a bola para bolsonaristas, mas o envolvimento de ministros do STF com o Banco Master os coloca em uma posição muito difícil.
A tática de Guimarães é um pouco manjada. Em outro artigo, reclamou da grande imprensa e sugeriu que falassem menos do STF, e passassem a falar de outros, supostamente mais corruptos e, portanto, de maior interesse para o noticiário.
Sabujice
Em um dos trechos mais constrangedores de seu artigo, Guimarães diz que “a PF, essa imparável, impostergável, imorrível e imbrochável corporação policial da Federação estava indo além das tamancas. Chegando muito próxima do impensável”. A imitação de Bolsonaro não pegou nada bem.
Essa sabujice escancarada do jornalista salta aos olhos porque em 2017 foi vítima de condução coercitiva pela PF, além de busca e apreensão em sua residência. À época, Guimarães era crítico do golpista Michel Temer, que indicou Alexandre Guimarães para ministro do STF.
Eduardo Guimarães, que era do Blog da Cidadania, disse “Eles chegaram 6h da manhã na minha casa. Me entregaram o mandado de busca e apreensão pra equipamentos eletrônicos: celular, notebook, um pendrive e o celular da minha esposa. Agora, sou um blogueiro sem equipamento nenhum. A apreensão viola a atividade jornalística”.
Essa polícia que o jornalista exalta, é a mesma que ele acusou de ter apavorado sua filha doente e humilhado sua esposa.
É a polícia que investigou Dilma Rousseff enquanto era presidenta, e que foi fundamental para operações ilegais contra petistas e para o golpe de 2016.
A Ilha da Fantasia
Quem poderia supor que o STF “pegou a mania de cobrar crimes dos “muy ricos”, pondo fim ao eterno calote penal que aplicam à Terra Brasilis desde que a primeira caravela aqui aportou?” Não existe aí nenhum contato com a realidade.
O jornalista sugre em seu artigo que o problema é Lula, que teria desafiado os bilionários por gastar fortunas com os pobres, e que sua união com o Supremo os fortalece demais. Portanto, “Há que dividi-los. Façam o amante dos pobres acreditar que não precisa dos supremos para se defender de uma nova intentona golpista parlamentar, pois é a única que funcionou – golpe convencional deu no que deu”.
Um presidente de um partido de trabalhadores que dependa de uma instituição burguesa para se defender, seguramente não está em boa posição.
Alerta e bronca disfarçada
No final de seu texto, o jornalista escreve que “após semanas de bombardeio de saturação contra Supremo, a sagaz Andréia Sadi manda um aviso antes que seja tarde demais: – Ala do Supremo reage ao Planalto e vê Lula ‘lavando as mãos’ no caso Toffoli. Avaliação de ministros do STF que defendem Dias Toffoli é de que o presidente recorre à Corte como aliada quando precisa — mas deixa o tribunal sozinho na linha de tiro quando há desgastes”.
Lula, que é gato escaldado, está tirando o corpo fora, pois está vendo o tamanho da encrenca.
“Ala do Supremo” quer a intervenção de Lula no caso para defender Toffoli, o ministro que o impediu de ir ao enterro do próprio irmão.
Guimarães vê aí o perigo da divisão que, supostamente, fragilizaria tanto Lula quanto o Supremo.
Lula, ao que parece, não quer afundar com esse barco. Ele é o presidente, enquanto Eduardo Guimarães é apenas um jornalista que foi longe demais na defesa do STF, e sua única saída é seguir adiante





