Hoje, fala-se muito em decolonialismo, decolonialidade e termos afins. À primeira vista, essas palavras evocam a ideia de uma preocupação genuína com a libertação dos povos, com o enfrentamento das múltiplas formas de colonização e, em última instância, com a melhoria das condições de vida em escala global. No entanto, um exame mais atento revela que a decolonialidade tal como se apresenta hoje nada tem a ver com esses objetivos.
Não é intenção deste texto esgotar o tema, o que exigiria um espaço muito maior. Ainda assim, três pontos são suficientes para evidenciar por que o atual movimento decolonial constitui, em grande medida, uma farsa.
O primeiro deles diz respeito a um silêncio criminoso. Praticamente ninguém, no campo da decolonialidade brasileira ou latino-americana, dá visibilidade ao fato de que existe, ao nosso lado, uma colônia francesa nos moldes do século XVIII: a Guiana Francesa. Quantas vozes se levantam para denunciar que há uma colônia em pleno território latino-americano? Quantas apontam que enormes remessas de riqueza são extraídas da Guiana e enviadas à França em pleno século XXI? A resposta é simples: ninguém.
O segundo ponto é a omissão sistemática das experiências históricas concretas que efetivamente conduziram à libertação nacional. O movimento decolonial evita esses exemplos como o diabo foge da cruz. Quantos de seus representantes falam do Haiti, que protagonizou uma luta heroica contra a colonização francesa e, como punição por sua independência, foi devastado por bloqueios impostos pelas potências imperialistas? Quantos mencionam Cuba, cujos revolucionários não apenas realizaram uma revolução socialista em seu próprio território, como também enviaram milhares de soldados à África para combater diretamente o colonialismo? Esses exemplos são ignorados porque reconhecer sua importância implicaria admitir o papel central do socialismo nos processos de libertação nacional — algo incompatível com o caráter pequeno-burguês do atual movimento decolonial, cujas práticas e financiamentos atendem, em última instância, aos interesses da grande burguesia internacional.
Por fim, um terceiro aspecto torna ainda mais evidente o caráter fraudulento desse movimento: a recusa em reconhecer que, historicamente, a libertação da maioria dos países só foi possível por meio da luta armada. Enquanto setores universitários se limitam a debates de gabinete, baseados em autores que jamais enfrentaram a realidade concreta da guerra e da repressão, líderes revolucionários de diferentes países e contextos, como Lênin, Giap ou Fidel, afirmaram sem ambiguidades que não há libertação sem armas. Essa posição encontra talvez sua formulação mais direta na conhecida frase de Mao Tsé-Tung: “o poder nasce da ponta do cano de um fuzil”.
Um verdadeiro movimento decolonial deveria, portanto, denunciar as colônias que ainda existem no mundo, repudiar com firmeza os embargos impostos aos países que conquistaram sua independência e que lhes devastaram, assumir claramente a bandeira do socialismo e reconhecer que a força armada é um elemento decisivo nos processos de libertação nacional. Sem isso, o que resta são manifestações típicas da pequena burguesia, que se apresentam como revolucionárias, mas funcionam, na prática, como uma fraude útil à burguesia internacional para encobrir os crimes passados e presentes do colonialismo real.





