Entramos em 2026 com o tradicional festival de ilusões da esquerda pequeno-burguesa. Em recente artigo intitulado Lula ficou mais perto da vitória em primeiro turno – e Kassab ajudou, Aquiles Lins, colunista do Brasil 247, apresenta a tese de que as articulações políticas de Gilberto Kassab (PSD) estariam, ainda que despropositadamente, pavimentando o caminho para a reeleição de Lula.
Trata-se de uma análise puramente eleitoreira e abstrata. O autor ignora o motor da história: a luta de classes. Ao focar no “faro político” de indivíduos e em porcentagens de pesquisas de opinião, camufla-se a ofensiva do imperialismo e a real disposição da burguesia brasileira
Diz o colunista:
“O cenário mais favorável para Lula teve uma ajudinha de Gilberto Kassab […] O veterano cacique da política brasileira sabe ler como ninguém os caminhos que levam ao poder.”
Aqui reside o primeiro erro fatal. Kassab não opera no vácuo, nem por “faro” individual. Ele é um político de confiança da burguesia. A ideia de que ele estaria “ajudando” Lula ao fragmentar a direita é de uma ingenuidade atroz. O que o autor não compreende — ou finge não ver — é que a burguesia não quer Lula.
O grande capital aceitou Lula em 2022 como um mal necessário para conter a instabilidade do bolsonarismo, mas o plano nunca foi manter o Partido dos Trabalhadores (PT). Kassab e o PSD cumprem um papel na operação de viabilizar uma “terceira via”. Se a fragmentação da direita ocorre neste momento, é para testar qual peça melhor serve ao programa neoliberal. Se os capitalistas perceberem que esse arranjo favorece Lula de forma indesejada, eles rearranjam o cenário em 24 horas.
Lins prossegue em sua hagiografia:
“E Lula não só não errou, como tem acertado na mosca, como atestam os indicadores sociais e econômicos.”
Para o setor que quer desmobilizar o povo, qualquer crescimento pífio do PIB ou manutenção do teto de gastos “maquiado” é vitória. Mas, sob a ótica do imperialismo, Lula — por mais moderado que seja — nunca conseguirá ser o neoliberal puro que o capital financeiro exige. O imperialismo precisa de um Javier Milei na Argentina e de um carrasco direto no Brasil. Lula, por sua ligação histórica com o movimento operário, é um entrave. A “análise” de Lins ignora que o mundo caminha para uma grande guerra entre o imperialismo e os povos oprimidos — situação na qual não se pode contar com um governo moderado como o de Lula.
O que essa análise eleitoreira camufla é a indisposição da esquerda pequeno-burguesa em travar a luta real. Ao acreditar que Kassab é um aliado tático e que a vitória virá por “WO” parlamentar, o autor desmobiliza o povo. A análise de classe mostra que a única defesa real é a mobilização das massas e a luta por um programa independente dos trabalhadores.





