Paulo Marçaioli

Formado em direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e dono do blog Esperando Paulo

Coluna

‘O Grande Mentecapto’ – Fernando Sabino

Resenha Livro – “O Grande Mentecapto” – Fernando Sabino – Ed. Record

Na história da literatura mundial extraem-se exemplos de personagens e autores tão marcantes e significativos que acabaram por engendrar adjetivos com o condão de descrever sentidos de alcance universal.

Quando se diz que determinada pessoa age de forma panglossiana, remete-se ao romance “Cândido” do filósofo e escritor satírico Voltaire, significando portador de um otimismo desmedido e desproporcional. Quando se diz que alguém enfrenta uma situação kafkaniana, a remissão, aqui, é dos romances do escritor Franz Kafka, em particular o seu “O Processo”, no qual o protagonista se vê envolvido numa conspiração judicial inexplicável à luz da razão, com trâmites e procedimentos burocráticos que aniquilam as liberdades individuais.

Neste “O Grande Mentecapto” do escritor mineiro Fernando Sabino o adjetivo mais adequado para caracterizar o protagonista Geraldo Viramundo é Quixotesco. São muitos os paralelos entre a história do cavaleiro andante do escritor M. Cervantes e o Mentecapto mineiro, a começar pelo nome. “Viramundo” significa justamente virar o mundo, a retirada constante do protagonista. O destino errante de percorrer estradas sem fim. Da cidade natal no Rio Acima, para Mariana, onde Viramundo ingressa no seminário; para Ouro Preto onde confraterniza com os estudantes; para Barbacena onde foi candidato (quase) vitorioso à prefeitura; pra Juiz de Fora, onde ingressou no exército; para São João Del Rei; para Tiradentes; para Belo Horizonte, etc. etc.

Como Quixote que combatia moinhos de vento, o Mentecapto mobiliza em Belo Horizonte multidão de loucos, mendigos e prostitutas contra os poderes constituídos. Nota-se a mesma coragem e excentricidade de D. Quixote nas estripulias de Viramundo. Frequentemente, o protagonista traça para si utópicos e inatingíveis planos, como casar-se com a desejada filha do governado da província de Minas Gerais, Governador Ladislão. Geraldo é patético na medida em que é ao mesmo tempo engraçado e triste, um pouco, neste sentido específico, como o nosso povo. Talvez, Viramundo seja mesmo um parente distante do Policarpo Quaresmo, do escritor carioca Lima Barreto.

Regional e Nacional

Em que pese a trajetória de Geraldo Viramundo estar circunscrita a municípios do Estado de Minas Gerais, seria equivocado pensar este romance como uma obra estritamente regional. Em certa passagem, Geraldo Viramundo refere-se a suas múltiplas andanças “pelo Brasil”, ainda que este Brasil estivesse geograficamente circunscrito ao Estado de Minas Gerais. A hospitalidade com que é recebido por desconhecidos do povo, a cordialidade da personagem, a ausência de qualquer tipo de polidez ritualística como a do povo japonês com sua falta de espontaneidade, a fé ritualística e festiva expressa nas romarias e nas crenças de milagres operados pelos santos, a festividade e jovialidade do povo, a política patrimonialista controlada por pequenos núcleos familiares de poder; tudo isso não são traços específicos de Minas Gerais, mas do Brasil.

Encerrando

Fernando Sabino nasceu em 1923 na cidade de Belo Horizonte. Cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1946. Iniciou em Nova Iorque o romance “O Grande Mentecapto”, que só viria a retomar 33 anos depois, para termina-lo em 18 dias e lança-lo em 1976. O romance ganhou o prêmio Jabuti no ano de 1980, tendo sido apreciado positivamente por Tristão de Athayde, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade. Ao lado de Macunaíma, Geraldo Viramundo é outro legítimo herói brasileiro.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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