Oriente Próximo

Iêmen: se Irã for atacado, retomaremos operações no Mar Vermelho

Ansar Alá divulgou vídeo com a palavra “Soon” (“Em breve”) e ameaçou retomar ataques a navios ligados a “Israel”

O partido revolucionário que governa o Iêmen, o Ansar Alá, advertiu, na segunda-feira (26), que retomará operações com drones e mísseis no Mar Vermelho contra embarcações ligadas a “Israel” e contra navios com destino aos territórios ocupados caso os Estados Unidos e “Israel” avancem com agressões contra o Irã. O aviso foi reforçado por um vídeo divulgado pelo gabinete de comunicação do movimento, que reutiliza imagens de uma embarcação em chamas e traz a legenda “Soon” (“Em breve”), sinalizando uma possível volta das ações.

A ameaça do Iêmen ocorre em meio ao envio de forças navais norte-americanas para a região. O porta-aviões USS Abraham Lincoln e destróieres que o acompanham cruzaram para o teatro de operações. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que os navios estão sendo deslocados “por via das dúvidas”, “caso” ele decida tomar alguma medida contra o Irã.

Ainda na segunda-feira (26), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, respondeu ao aumento das movimentações militares norte-americanas com um alerta público. Em coletiva semanal, Baghaei disse que Teerã responderá “vigorosa e firmemente” a qualquer ato de agressão, sustentando que o país está “mais preparado do que nunca” para enfrentar ameaças. O porta-voz afirmou também que os países da região sabem que qualquer instabilidade não atingiria apenas o Irã, e que essa compreensão tem produzido preocupação compartilhada entre as nações vizinhas.

O Mar Vermelho e Gaza

A ofensiva verbal do Iêmen foi apresentada como continuação do que o partido descreve como uma política de bloqueio marítimo iniciada diante do aprofundamento da guerra genocida em Gaza, em outubro de 2023. A medida buscou impedir a entrega de recursos militares ao Estado sionista e pressionar por uma resposta internacional à crise humanitária em Gaza.

Paralelamente, forças iemenitas realizaram ataques com mísseis e drones contra alvos localizados em territórios ocupados por “Israel”, como demonstração de apoio à resistência palestina na Faixa de Gaza.

Iraque: grupos anunciam prontidão para apoiar Teerã

Na terça-feira (27), grupos políticos no Iraque voltaram a declarar disposição para apoiar o Irã em eventual guerra contra os Estados Unidos, apesar de ameaças dos EUA. Em nota, o Cataebe Hesbolá afirmou estar pronto para uma “guerra abrangente em apoio e solidariedade com a República Islâmica do Irã”. O secretário-geral do grupo, Abu Hussein al-Hamidawi, convocou combatentes “no mundo todo” a se prepararem para esse cenário.

A Organização Badr, força política com apoio amplo na comunidade xiita iraquiana, declarou que está pronta para enfrentar o que chamou de “arrogância norte-americana-israelense” caso o Irã seja atacado. Já o Harakat al-Nujaba indicou que se somaria a qualquer resposta iraniana. Firas al-Yasser, integrante do gabinete político do grupo, afirmou que um ataque ao Irã arrastaria toda a região, incluindo países árabes do Golfo Pérsico e o próprio Iraque, para a guerra. Ele acrescentou que, diferentemente de respostas anteriores, Teerã poderia ampliar ações retaliatórias para alvos ligados aos EUA em toda a região, e não apenas em dois países que hospedam bases norte-americanas.

“Enfraquecer o Irã representa uma fase preparatória para atacar o Iraque no futuro”, disse al-Yasser, indicando que “o papel da resistência no Iraque será decisivo” na defesa da segurança regional.

As declarações vieram poucos dias após a ameaça norte-americana de que os Estados Unidos poderiam restringir o acesso do Iraque a receitas do petróleo mantidas no Federal Reserve Bank of New York caso forças pró-Irã integrem o próximo governo iraquiano. Ao mesmo tempo, os EUA tentam minar laços entre os dois países, inclusive por meio do congelamento de receitas de exportação de gás iraniano em bancos iraquianos e por bloqueios a esforços de ampliar importações de energia do vizinho.

Estreito de Ormuz

Também na terça-feira (27), um dirigente da Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) associou a segurança do Estreito de Ormuz a decisões tomadas em Teerã. Mohammad Akbarzadeh, vice político das forças navais do IRGC, afirmou que o Irã dispõe de capacidades que serão reveladas “no momento apropriado”. Ele disse que Teerã considera os países vizinhos como amigos, mas advertiu que qualquer uso de território, espaço aéreo ou águas desses países contra o Irã os colocaria como partes hostis. Akbarzadeh acrescentou que a segurança do estreito, um dos principais corredores energéticos do planeta, “depende” das decisões iranianas.

Combate ao golpe e ingerência externa

No plano interno, autoridades iranianas divulgaram novas prisões e apreensões relacionadas aos atos pró-imperialistas nas últimas semanas. Na província de Semnan, no nordeste do país, a Direção-Geral de Inteligência anunciou, na terça-feira (27), a prisão de 80 participantes dos tumultos, além da apreensão de mais de 100 armas de fogo, armas brancas e coquetéis molotov.

Na cidade de Rezvanshahr, na província de Gilan, o comando policial informou a prisão de 104 pessoas responsáveis por fomentar os tumultos. As detenções ocorreram após anúncios anteriores de que 249 agitadores armados haviam sido presos nas províncias de Yazd e Gilan dois dias antes. Autoridades em Teerã denunciaram que esses elementos tinham ligação com atores externos, incluindo o Mossad e os Estados Unidos.

O ministro da Inteligência, Esmaeil Khatib, declarou que o Irã enfrentou diversas conspirações voltadas a minar a unidade nacional e enfraquecer o país, mas que elas “fracassaram”. “Nenhuma ameaça pode abalar a unidade do povo iraniano”, disse. Em outra fala, Khatib afirmou que a unidade nacional é o fundamento da resistência a “toda ameaça”, e sustentou que a integridade territorial não será comprometida: “enquanto a nação permanecer unida”, nenhuma ameaça, “por mais constante que seja o brandir de sabres” ou “por mais forjados que sejam os incidentes”, imporá derrota ao país.

Khatib vinculou o aumento da retórica agressiva de Trump às manifestações que começaram no fim de dezembro. Após o início dos protestos, convocados com base em reivindicações econômicas legítimas, grupos violentos infiltraram os atos e buscaram desviá-los para tumultos, com apoio de inteligência, armamento e suporte logístico dos EUA e de “Israel”. Teerã afirma ter agido de forma rápida para prender organizadores e confiscar armas, inclusive armamentos que tinham como destino a capital.

Trump fala em ‘armada’ e cita ‘mudança de regime’

Em entrevista ao site Axios publicada em 27 de janeiro, Trump confirmou um grande deslocamento militar para perto do Irã e afirmou que Teerã “quer um acordo”. “Temos uma grande armada ao lado do Irã. Maior do que a da Venezuela”, disse, sem detalhar quais opções militares estariam em análise. De acordo com o Axios, a Casa Branca mantém ameaças de ação militar e discute abertamente a possibilidade de mudança de regime no Irã.

O envio é descrito junto de informações sobre a chegada do grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln, acompanhado por caças F-15 e F-35, aviões-tanque de reabastecimento e sistemas de defesa antiaérea, intensificando a pressão sobre Teerã.

Teerã denuncia campanha de desinformação

Baghaei também afirmou que veículos de imprensa sionistas estão divulgando histórias fabricadas sobre supostas mortes durante os tumultos no Irã. Em publicação na rede X, ele citou um vídeo em que uma mulher que fala hebraico, identificada como Noya (Noa) Zion, exibe sua própria fotografia na tela e diz estar viva, em casa, e que nunca esteve no Irã, após o Canal 12 ter veiculado sua imagem como se fosse vítima de violência no país persa.

O porta-voz descreveu o episódio como parte de um “regime da mentira” e de uma campanha “à moda de Hitler” de große Lüge (a grande mentira). A expressão alemã é usada para designar uma técnica de propaganda baseada em distorções deliberadas em larga escala.

Autoridades iranianas têm denunciado reiteradamente veículos imperialistas por divulgar números falsos sobre mortes nos tumultos. Algumas reportagens da grande imprensa chegaram a falar em até 80.000 mortos após o que foi descrito como “protestos pacíficos” reprimidos pelas forças de segurança. Já registros oficiais iranianos, segundo relatório, indicam 3.117 mortos, dos quais 2.427 eram civis e integrantes das forças de segurança mortos por grupos armados.

Teerã atribui a violência a grupos descritos como terroristas, incluindo a Organização Mojahedin Khalq (MKO), monarquistas e grupos separatistas armados. Em 8 e 9 de janeiro, esses grupos realizaram uma onda de ataques armados visando criar mortes em massa e desestabilizar centros urbanos em várias cidades.

Pezeshkian fala com Bin Salman

Também na terça-feira (27), o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou em telefonema ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, que os movimentos militares e a retórica dos EUA na Ásia Ocidental fazem parte de uma tentativa calculada de desestabilização regional. “As ameaças e operações psicológicas dos norte-americanos buscam perturbar a segurança da região e não produzirão nada além de instabilidade”, disse Pezeshkian.

O presidente iraniano mencionou o que chamou de aumento de hostilidade dos EUA e do regime sionista desde o início de seu governo, citando pressão econômica, a guerra de 12 dias contra o Irã e envolvimento direto em incitar os tumultos. “Eles imaginaram que poderiam transformar o Irã em outra Síria ou Líbia”, afirmou. “Não reconheceram a verdade, a natureza e a grandeza da nação iraniana. A presença consciente e ampla do nosso povo derrotou suas conspirações”, declarou, referindo-se a mobilizações revolucionárias que Teerã apresentou como resposta aos tumultos.

Ao comentar cobranças de países imperialistas por retomada de negociações, Pezeshkian disse desconfiar da sinceridade do imperialismo. “Estávamos em conversas com os norte-americanos quando lançaram um ataque militar diante de todo o mundo”, afirmou, citando a agressão EUA-“Israel” na véspera da sexta rodada de negociações sobre o tema nuclear. “Chegamos a um acordo com países europeus, mas foram os norte-americanos que o sabotaram. Para eles, ‘negociação’ significa que devemos apenas executar o que eles ditam. Isso não é diálogo”, disse.

Mesmo assim, Pezeshkian afirmou que o Irã permanece aberto a qualquer processo, dentro do direito internacional, que leve à paz e à prevenção de conflitos, desde que os direitos do povo iraniano sejam respeitados. Ele agradeceu o apoio de países muçulmanos e defendeu que a unidade entre nações islâmicas é a garantia para estabilidade duradoura na região. “Acredito de coração que a Ummah islâmica é irmãos”, afirmou, defendendo ampliação de relações amistosas com países muçulmanos.

Bin Salman, por sua vez, disse que a Arábia Saudita considera “inaceitáveis” agressões, ameaças ou criação de tensões contra o Irã, e afirmou disposição de cooperar com Teerã e outros parceiros regionais para estabelecer paz e segurança sustentáveis.

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