Na edição desta terça-feira (27) do programa Análise da 3ª, veiculado pela Rádio Causa Operária, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, comentou a política do governo Lula, a mobilização da direita, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) em torno do Banco Master e os principais conflitos internacionais, com destaque para Gaza, Irã e Venezuela.
Concessões: ‘não há dúvida nenhuma’ de que é privatização
Questionado sobre setores da esquerda que celebram o volume de concessões realizadas pelo atual governo, Pimenta afirmou que se trata de ruptura com o que foi prometido na campanha eleitoral. “Ele falou que não teria privatização. E, nesse caso aqui… se alguém argumentar que isso não é privatização, é mera tecnicalidade”, disse, classificando as concessões como privatização: “essas concessões são privatização, não há dúvida nenhuma disso”.
Pimenta sustentou que a medida atinge a população trabalhadora ao transferir serviços e estruturas para a exploração privada. “Toda vez que você dá aí estradas, portos, aeroportos, vias fluviais em regime de concessão, alguém vai pagar por isso. E até agora não estava sendo pago e alguém vai pagar”.
O dirigente apontou a dimensão do processo e avaliou que ele expressa uma mudança de orientação do governo. “Ele tinha feito concessões, tanto o Lula como a Dilma fizeram concessões, mas eram poucas. Agora não, agora são 150”.
Eleições de 2026: ‘hiperneoliberalismo’ e ‘hiponeoliberalismo’
Ao tratar do cenário eleitoral, Pimenta avaliou que a disputa tende a se dar entre duas variantes de política econômica de direita. “Nós vamos ter um enfrentamento entre o hiperneoliberalismo, vai ser a plataforma de um Tarcísio, eventualmente de um Flávio Bolsonaro, e um hiponeoliberalismo”.
Direita nas ruas e a crise da política da esquerda
Comentando a manifestação convocada pelo deputado Nikolas Ferreira em Brasília, Pimenta disse que o ato indica “o fracasso da operação de repressão do bolsonarismo pela via judicial”.
Pimenta também observou que a direita vem conseguindo ocupar as ruas, enquanto a esquerda não. Para ele, isso decorre da linha adotada por setores da esquerda que se vinculam ao governo federal sem apresentar um programa de mobilização. “A esquerda não tem programa de mobilização. A esquerda está comprometido com um governo que governa por cima, que tem uma política direitista numa série de questões importantes”, afirmou, enumerando temas como ajuste fiscal, reforma tributária e política externa.
A conversa Lula-Trump e a cooperação policial com os EUA
Um dos principais pontos do programa foi o telefonema entre Lula e Donald Trump, abordado pelos apresentadores com base em trecho que menciona “fortalecimento no combate ao crime organizado”, “lavagem de dinheiro”, “tráfico de armas” e “intercâmbio de dados”. Pimenta reagiu criticando o alinhamento com os Estados Unidos e advertindo para o histórico desse tipo de cooperação.
“Essa ideia, assim, chamada cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, foi uma cooperação dessas que gerou o Sérgio Moro”, afirmou, mencionando o intercâmbio com órgãos norte-americanos e a importação de métodos utilizados na Operação Lava Jato. Em seguida, associou esse tipo de intervenção a experiências regionais: “a gente tem, por exemplo, ocupação militar dos Estados Unidos na Colômbia, que é justamente em nome do combate ao crime organizado”.
Para Pimenta, a política tem caráter reacionário e cumpre objetivos externos. “O grande objetivo dessa política é o que eles chamam de lavagem de dinheiro”, disse, relacionando o tema a acusações e campanhas sobre a Tríplice Fronteira e ao financiamento de organizações de resistência, citando o Hesbolá. “Então quer dizer, uma operação contra-revolucionária explícita”.
Gaza: cessar-fogo e assassinatos durante a trégua
Sobre a situação em Gaza, Pimenta afirmou que a trégua vem sendo utilizada para ataques. “O sionismo encaram a trégua como uma oportunidade para assassinar o outro lado. Então, é uma organização intrinsecamente criminosa”. Ao mesmo tempo, avaliou que a redução do número de mortos e a entrada de ajuda demonstram que o cessar-fogo não foi um erro da Resistência Palestina: “acho que não foi um erro, não, da resistência palestina de aceitar o cessar-fogo”.
Banco Master, Dias Toffoli e a ‘blindagem’ do STF
Na parte dedicada ao Banco Master e aos vínculos envolvendo familiares do ministro Dias Toffoli, Pimenta afirmou que as revelações deveriam gerar impedimentos e punições, mas esbarram numa proteção política. “Complicaria, né? O problema é que é uma blindagem. E é muito escandalosa essa blindagem”.
Ele citou o episódio do jatinho como comparação e disse que, diante de novos fatos envolvendo parentes, o ministro deveria ter se afastado. “O Toffoli já deveria ter se… se eximido do processo. Não pode participar. No entanto, ele meio que faz o exato oposto”, afirmou, criticando o segredo de Justiça: “mantém o processo em segredo da Justiça, o que é absurdo”.
Pimenta disse que a crise de credibilidade do STF, mencionada pela própria imprensa burguesa, tende a ter peso eleitoral e pode atingir a candidatura de Lula caso o tema avance no debate público. Ele relatou também ter visto notícia sobre uma reunião reservada do presidente com o banqueiro Daniel Vorcaro. “Começa a aparecer essas notícias. (…) E até você explicar que focinho de porco não é tomada… eu acho que no meio da eleição isso aí vai pesar extraordinariamente”.
Para Pimenta, a contenção diante do escândalo se explica por interesses cruzados. “Se abrirem a caixa preta do Master, vai aparecer tudo isso”, disse, referindo-se ao bloco de sustentação do governo e a setores do próprio regime. Ele também afirmou que a burguesia buscaria administrar o caso sem “botar abaixo o regime político”, porque “o STF vem abaixo” se o conflito se tornar agudo.
STF acima de tudo e o papel do Parlamento
Ao discutir declarações sobre “autorregulação” do STF e a hipótese de controle externo, Pimenta afirmou que a situação revela um Judiciário colocado acima das instituições. “Precisamos manter as aparências para manter esse poder que se coloca acima de todas as instituições do regime político nacional”, disse.
Ele contrapôs o papel do Parlamento ao poder do Judiciário no Brasil: “o poder típico da democracia (…) é o poder legislativo, que é o poder popular”. E concluiu: “o Judiciário nem é eleito pelo povo no Brasil, no caso”.
Moraes e os Correios: ataque ao povo
Em resposta a pergunta sobre decisão de Alexandre de Moraes relacionada aos Correios, Pimenta retomou o tema como exemplo de ataques aos direitos dos trabalhadores e criticou setores que tratam o STF como aliado. “O pessoal apoia o STF, apoia Alexandre Moraes, e o STF tem atacado sistematicamente os direitos dos trabalhadores”, disse, mencionando a derrubada do abono de fim de ano (“vale-peru”) obtido no TST.
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China, ‘Panteras Negras’ e OTAN
No bloco de perguntas, Pimenta comentou notícias sobre demissões de generais na China por suposto repasse de informações aos EUA e usou o caso para reforçar a tese de infiltração imperialista em países sob pressão. Também afirmou não ter informações suficientes sobre um suposto movimento “de retorno dos Panteras Negras”, defendendo cautela diante de iniciativas impulsionadas por setores do Partido Democrata.
Sobre a OTAN, afirmou não acreditar em extinção iminente, mas disse que, se acabasse, “seria um benefício para toda a humanidade”, ponderando que alianças informais poderiam persistir.
2026: eleição acirrada e pressão externa
Ao final, Pimenta afirmou que 2026 será dominado pelas eleições, com disputa “extremamente acirrada”, e que o cenário nacional dependerá também da evolução internacional, marcada por “escalada política e militar” do imperialismo. Ele citou a dívida pública “quase 100% do PIB” e avaliou que temas como STF, Banco Master, o processo contra Jair Bolsonaro e a repressão aos manifestantes do 8 de Janeiro serão explorados na campanha.
Irã e Venezuela: ameaça de guerra e intrigas da CIA
Encerrando o programa, Pimenta disse ver um movimento dos Estados Unidos para tentar reproduzir no Irã uma operação semelhante à aplicada contra a Venezuela, mencionando declarações de Trump sobre envio de frota e exigências como retirada de urânio enriquecido, limites a mísseis de longo alcance e fim do apoio a movimentos de resistência. “Acho muito, mas muito difícil que o Irã aceite essas condições”, afirmou, avaliando como “bem possível” a hipótese de ataque militar “por parte dos Estados Unidos e do sionismo”.
Ele também criticou a orientação da política externa do PT, dizendo que o governo reproduz versões de órgãos da imprensa norte-americana sobre Venezuela, Hamas e Irã, e afirmou que esse alinhamento tem “um custo político muito grande”.
Sobre a Venezuela, Pimenta afirmou que há “intriga” e denunciou a imprensa internacional por difundir versões que levam setores da esquerda a “cair como um patinho”, sustentando que “a CIA nunca saiu da Venezuela”, assim como não teria saído de outros países da América Latina.
Assista ao programa na íntegra:





