Polêmica

Identitário recorre a Deus para defender repressão

Ricardo Nêggo Tom recorre á figura de Deus para expor seus pensamentos baixos: o desejo da eliminação física de pessoas que se opõem a ele politicamente

Deus

O artigo O final eletrizante da caminhada de Nikolas Ferreira, assinada por Ricardo Nêggo Tom e publicado no Brasil247 nesta segunda-feira (26), mostra o nível degradação a que pode chegar o identitarismo. Ironizar o fato de 70 pessoas precisaram de atendimento e 30 serem hospitalizadas, apenas pelo fato de que pensam de outro modo, é o fundo do poço.

Nêggo Tom inicia seu texto dizendo que “o mês de janeiro parece estar destinado aos acontecimentos mais escatológicos da política do Brasil. Depois do 8 de janeiro de 2023, quando os bolsonaristas tentaram dar um golpe de Estado no país, o dia 25 de janeiro de 2026 entra para a história como o dia em que Deus perdeu a paciência com a legião de demônios e espíritos obsessores que compõem a extrema-direita brasileira, e mandou um raio para acordar o gado de sua distopia política e social.”. Por algum motivo misterioso, o autor se vê na posição de falar em nome de Deus. Arranjou um testa de ferro, pois deve ter ficado com vergonha de falar em próprio nome.

Considerando esse artigo de Ricardo Nêggo Tom, é preciso concordar que o mês de janeiro deve estar destinado a acontecimentos escatológicos.

O articulista já começa errando ao dizer que o 8 de janeiro teria sido uma tentativa de golpe de Estado, pois as pessoas estavam desarmadas.

Curiosamente, Nêggo Tom maltrata Deus em sua prosopopeia, pois figurar um deus impaciente é negar sua infinitude.

Na verdade, Nêggo Tom vai mais longe, se acha superior, pois é capaz de perdoar a fúria divina. Diz que “a reação do divino criador é compreensível e justificável, afinal, ele está vendo o quanto país melhorou sob o governo Lula, depois de ter comido o pão com leite condensado que Bolsonaro amassou, sob o governo do diabo que hoje está repreendido na Papudinha”.

Vale observar que essa “esquerda” tem os mesmos trejeitos dos bolsonaristas que faziam piada da prisão de Lula.

Vingança

Outro defeito de Deus no texto é que se trata de um ser vingativo. Escreve que “observando a caminhada organizada por Nikolas Ferreira para libertar criminosos e prender novamente o Brasil nas grades do fascismo, Deus se lembrou que em 2021, durante o governo do hoje presidiário, o Brasil voltou a figurar no mapa da fome da ONU”. Pior, diz que o Criador “sabia que a maldade do então governante era o que determinava tão drástica situação”. O que leva qualquer uma perguntar: Por que não fez nada?

O Deus petista de Nêggo Tom “também se lembrou que no governo Lula o país saiu novamente do mapa da fome”. Indignado, o Onipotente perguntou a Pedro, “Por que essa gente quer derrubar esse governo, se ele faz coisas boas para o povo?”; e este teria respondido “o senhor deve saber melhor do que eu”. “Lembrando a Deus que Lula ainda planejava acabar com a escala 6×1 para que os trabalhadores tivessem mais qualidade de vida”. E isso prova que são Pedro não entendeu que a campanha pelo fim da escala 6×1 é uma demanda da burguesia, que quer flexibilizar a jornada de trabalho.

O roteiro não é dos melhores, não chega nem perto. Nêggo Tom escreve que “um filme foi passando na cabeça de Deus quando, de repente, ele deu um grito: ‘Acabou, porra!’, e pediu para que São Pedro fizesse chover torrencialmente em Brasília. ‘Pode ser granizo, senhor?’, instigou o porteiro do céu”.

São Pedro, retratado com um sádico, diz para o Senhor: “Eles gostam da sua versão mais radical, senhor”, ao que este teria respondido “aumenta a chuva e inclui uns ventos também. Se eles gostam da minha versão antigo testamento, vou fazer com que eles se sintam num dilúvio”.

O tempo todo é o desfile desse tipo de sentimento e a coisa piora. Em um dado momento, “Deus toma uma drástica decisão: ‘Manda um raio, Pedro’ Ao ouvir a ordem do chefe, São Pedro tentou ponderar: ‘Senhor, inocentes podem ficar feridos ou até morrer’ Deus não se compadeceu do apelo e mandou o santo seguir com a missão. ‘Eu já matei tantos inocentes na Bíblia, não vai ser essa raça de víboras que eu irei poupar’”. – grifo nosso.

É até difícil de acreditar que alguém escreva isso, mas é verdade, escreveu. Tentar utilizar Deus para fazer justiça e o acusar de ser injusto, chega a ser engraçado de tamanho non sense.

Após descrever um ser maligno, Nêggo Tom diz que “raio pronto e alvo na mira, Deus em sua misericórdia ainda pede para que Pedro espere mais um pouquinho para ver se rola algum arrependimento entre os manifestantes”. – grifo nosso.

Escárnio

Finalizando seu texto escatológico, Nêggo Tom escreve que “Deus zapeava o monitor do mundo quando parou na câmera dos EUA e viu mais um cidadão estadunidense ser morto pela polícia de Donald Trump. Revoltado, se dirigiu a Pedro, pediu que preparasse outro raio e sentenciou: ‘Quando acabar aí, o laranjão é o próximo’, e foi para os seus aposentos. Ao ouvir um estrondo, gritou de lá: ‘Eu sabia que você ia errar de novo, Pedro. É como diz o ditado: quer bem feito, faça você mesmo’ E Deus lamentou o fato de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. E nós também”.

É isso, o Deus do articulista lamentou não ter matado o quanto desejava. Eis o resultado do identitarismo. Uma ideologia que só sabe punir, cancelar, inventar crimes, pedir penas cada vez mais longas. Um verdadeiro atraso na esquerda.

Não, nós também não lamentamos, pois não queremos que pessoas se firam por suas convicções políticas. Em tempos de paz, a política deve ser decidida pelo convencimento, pela apresentação de um programa que represente a classe trabalhadora.

Desejar a eliminação física, pura e simples, de adversários políticos é uma atitude baixa que dever ser rechaçada por aqueles que realmente são de esquerda.

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