Polêmica

O governo revolucionário do Irã e os ‘comunistas’ — parte 1

Tudeh e PCBR se alinham abertamente ao sionismo e ao imperialismo contra o governo que organizou o Eixo da Resistência, em ofensiva pela dominação do Irã

No último domingo, dia 25 de janeiro, o portal Em defesa do comunismo, ligado ao PCBR, publicou em português um artigo do Tudeh, o partido “comunista” do Irã, anteriormente filiado à Terceira Internacional. O texto traz como título Partido Tudeh: O Irã à beira de transformações potencialmente devastadoras. Em meio à ofensiva em curso do imperialismo contra o regime da Revolução Islâmica, centro do Eixo da Resistência, o Tudeh, e o PCBR, se somam a seus mestres imperialistas e sionistas no ataque aos revolucionários de fato no Irã, o que fica claro já no olho do texto:

Consequências das políticas internas do regime teocrático no poder, combinadas com o impacto das sanções dos EUA sobre os meios de subsistência da população, colocaram o país em uma situação difícil.

Ou seja, antes mesmo do início do texto, no destaque, o PCBR cita o papel das criminosas sanções do imperialismo sobre o Irã, que são ilegais pela lei internacional, e um ataque direto à população do país para buscar a mudança do regime político e a instalação de um regime fantoche, como visto em todo o mundo na suposta reivindicação pelo retorno da ditadura do xá ao poder no país. Mesmo assim, atribuem as condições econômicas que teriam motivado os protestos a “consequências das políticas internas do regime teocrático no poder”.

Aqui temos outra farsa. O regime político iraniano originado da Revolução Islâmica de 1979 colocou para a população do país a decisão de se ele seria islâmico ou laico, em plebiscito, e a população iraniana decidiu por um regime político islâmico. Simultaneamente, as características do regime se atualizaram conforme as demandas populares.

O que o PCBR utiliza, ressaltando o caráter “teocrático” do regime, por exemplo, ao invés de seu caráter revolucionário, nada mais é do que parte da campanha sionista de calúnias contra o Eixo da Resistência, composto principalmente por grupos religiosos. É a campanha imperialista que visa colocar a população islâmica como bárbara, para facilitar seu massacre pelo próprio imperialismo, sem oposição da população civil dos países imperialistas, que precisa ser levada, se não a apoiar enfaticamente as operações imperialistas, pelo menos a não se opor de maneira ativa a tais operações.

O corpo do texto do Tudeh, replicado pelo PCBR, não melhora essa vassalagem ao imperialismo e ao sionismo:

É preciso afirmar claramente, mais uma vez, que o surgimento da atual onda de protestos e sua expansão ao longo dos últimos 15 dias têm raízes diretas na rápida disseminação da pobreza, da desigualdade e da injustiça flagrante, bem como na corrupção e no acúmulo de riqueza por uma pequena minoria como resultado das políticas econômicas do regime ao longo das últimas três décadas – e não na demanda pelo retorno da monarquia ou pela restauração do governo monarquista.

É interessante que frente aos gigantescos protestos nos EUA, na Inglaterra e na França contra a política de guerras e genocídio na Palestina, esses governos enfrentaram os protestos com repressão, e mantiveram o financiamento aberrante ao genocídio. Mas isso não é definido como corrupção. Já os governos que se opõem ao imperialismo, esses são sempre “corruptos”. É o mesmo expediente utilizado pelo imperialismo para difamar os governos de Cuba, da Venezuela e da Rússia. Fica evidente, porém, que haveria muito mais dinheiro a ganhar aliando-se ao imperialismo, posição diametralmente oposta a esses governos. Trata-se de uma acusação fajuta.

Veja-se que o início do texto centraliza a situação econômica, mas sem citar as sanções imperialistas. A reivindicação monarquista, portanto, é totalmente alinhada a tal reivindicação supostamente econômica. Ora, se o país é asfixiado por sanções, caberia um movimento contra as sanções, portanto em apoio ao governo. Mas é o oposto. É um movimento pela mudança do regime que ignora as sanções. O caráter econômico que teria originado os protestos na realidade é um mero pretexto, pois o caráter político real desse movimento é uma manobra imperialista. Isso se evidencia pelos gigantescos contraprotestos, manifestações populares gigantescas de apoio ao governo revolucionário do Irã.

A infiltração de elementos armados nas manifestações contra o governo, visando incitar um conflito e um incremento da repressão estatal contra as manifestações, para detonar uma crise no país, como o ocorrido no Euromaidan, na Ucrânia, são outra prova do caráter das manifestações. E as declarações de autoridades dos EUA e de “Israel” sobre a infiltração de agentes do Mossad nos atos são ainda outra demonstração da tutela sobre o movimento, e da tentativa de insuflar a repressão contra os protestos para gestar uma grande crise no país.

O Tudeh chega a admitir a infiltração imperialista, enquanto ao mesmo tempo apoiando o movimento contra o governo iraniano, ou seja, apoiando a política do imperialismo:

Além disso, para além da luta heróica de centenas de milhares de pessoas contra o despotismo e a opressão de classe, é evidente que certos elementos e grupos organizados, por meio de atos de sabotagem e violência, estão tentando abrir caminho para a intervenção direta dos Estados Unidos e de seus aliados no curso dos atuais protestos.

A “luta heróica” contra o governo que organiza a resistência ao imperialismo em toda a região. Uma farsa. Se a economia deu base concreta aos protestos, o que os insuflou e direcionou contra o governo foi a infiltração, que portanto passou a definir esses protestos. Não à toa, um movimento em defesa do governo se levantou, o que não faria sentido fosse algo fundamentalmente sobre um problema econômico, e não político. Mas o Tudeh, e o PCBR, por extensão, vão mais fundo:

Os meios de comunicação imperialistas, mais uma vez recorrendo a seus vastos recursos e capacidades, lançaram campanhas de propaganda e difundiram narrativas fabricadas com o objetivo de restaurar a monarquia. Eles tentam surfar na onda dos protestos legítimos do povo e desviar o movimento antiditatorial de seu verdadeiro caminho.

Agora, os protestos antes definidos como econômicos pelo Tudeh/PCBR, seriam protestos “antiditatoriais” (!). Assim, a oposição ao governo revolucionário deixa de ser lateral, disfarçada, e se escancara por parte de ambos os partidos, que declaram abertamente o apoio à derrubada do governo “ditatorial”. A seguir, o texto dá uma caracterização das manifestações que inverte os acontecimentos:

Por um lado, esses meios fornecem um pretexto para que os líderes do regime rotulem a revolta popular como um plano dos Estados Unidos e de Israel; por outro, ao exagerar as correntes monarquistas, buscam criar obstáculos ao processo de construção da unidade e da coordenação na ação entre forças progressistas e patrióticas.

Ora, então o imperialismo e o sionismo estariam em oposição ao movimento contra o governo revolucionário! Os EUA e “Israel” estariam ao lado do governo do Irã! É absurda tal interpretação dos fatos. Mais, a oposição ao governo que mais defende a soberania da região contra o imperialismo e o sionismo seria uma oposição patriótica! É escandaloso!

E ainda, tais manifestações, que incendiaram hospitais, enfermarias, mesquitas e escolas, que destruíram infraestrutura, algo típico da ação imperialista, como visto nas guarimbas na Venezuela, um movimento fascista, seriam manifestações progressistas e patrióticas!

O texto prossegue ainda longamente, repetindo alguns pontos e trazendo novos, que destacaremos numa segunda parte desta polêmica com o portal do PCBR, que mais adequadamente se chamaria Em defesa do imperialismo.

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