No dia 24 de janeiro, o Brasil 247 publicou um artigo intitulado Capitalismo vira tigre de papel, no qual César Fonseca sustenta a tese de que a decadência econômica dos Estados Unidos e da Europa estaria materializando a famosa máxima de Mao Tsé Tung. Segundo o texto, o sistema financeiro estaria em uma “implosão diante da decisão do presidente Vladimir Putin de congelar ativos europeus e americanos”.
Embora o diagnóstico da crise do capital financeiro e do declínio da hegemonia do dólar esteja correto em geral, a conclusão política extraída pelo autor é não apenas equivocada, mas perigosa. Tratar o imperialismo como um “tigre de papel” — uma metáfora que sugere algo aparentemente ameaçador, mas inofensivo na prática — leva ao reformismo e à paralisia.
O imperialismo não é um tigre de papel; é um tigre ferido. E um tigre ferido, acuado em sua própria crise, torna-se muito mais agressivo que um tigre em pleno vigor.
O texto afirma que “a pregação de Mao Tsé Tung… pode estar se materializando”, sugerindo que a vitória do “Sul Global” e a queda do “Ocidente” seriam processos quase naturais decorrentes do “colapso monetário”.
Essa visão alimenta uma perigosa ilusão de que o imperialismo “cairá sozinho”. Se o inimigo é apenas “papel”, por que organizar a luta dos povos? Para o autor, bastaria esperar a transição “multipolar”.
Enquanto o autor celebra que o “ocidente fica com ativos monetários fiduciários russos… enquanto a Rússia passa a administrar ativos reais”, ele ignora que o imperialismo, ciente dessa perda de terreno, está dobrando a aposta na violência política e no golpismo para garantir o controle sobre o que considera suas colônias.
Se o capitalismo fosse um tigre de papel, não estaríamos assistindo a:
- A ascensão de Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador, que servem como pontas de lança para a entrega total de recursos naturais ao capital estrangeiro e para um regime de força
- O golpe de Estado no Peru e na Bolívia
- O cerco aos governos do Brasil e da Colômbia
O imperialismo está reagindo à sua crise econômica com uma ofensiva neoliberal agressiva. O próprio artigo admite, de forma contraditória, que “Donald Trump radicaliza discurso imperialista para invadir territórios soberanos – Venezuela, Groenlândia, Canadá – em busca de petróleo”. Se o inimigo está disposto a invadir nações soberanas para garantir petróleo e terras raras, como ele pode ser chamado de “papel”?
Fato é que o imperialismo em declínio é mais perigoso. O assassinato de lideranças do Eixo da Resistência no Oriente Médio, a promoção de revoluções coloridas e protestos violentos no Irã e o bloqueio contra a Venezuela são provas disso.





