Na Análise Política da Semana da Causa Operária TV (COTV), transmitido neste sábado (24), às 13 horas, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, deu destaque para a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) e proibiu atos nas imediações do Complexo da Papuda, em Brasília (DF), onde Jair Bolsonaro está preso. Pimenta classificou a medida como “mais um avanço do STF sobre as liberdades democráticas” e afirmou que “a defesa das liberdades democráticas é uma defesa geral”.
Ao comentar a mobilização bolsonarista anunciada como uma marcha de Minas Gerais a Brasília, em defesa da soltura de Bolsonaro, Pimenta disse que “o protesto é um direito” e criticou a tentativa de vedar justamente o local ao qual o protesto se vincula. “Você quer fazer um protesto, você tem o lugar onde esse protesto faz sentido. E esse lugar é a prisão, porque eles estão protestando contra a prisão”, declarou. O dirigente recordou ainda o acampamento montado pelo PT em Curitiba durante a prisão de Lula e afirmou que o PCO organizou atos públicos na capital paranaense na mesma ocasião. “É um direito”, disse, ao sustentar que, “por pior que seja a política” dos bolsonaristas, eles “têm direito de fazer manifestação” em frente ao complexo penitenciário.
Segundo Pimenta, a decisão de Moraes cria um precedente que não ficará restrito à direita. “Quem acredita que isso daí vai ficar nos bolsonaristas está redondamente enganado”, afirmou, sustentando que a restrição tende a ser reproduzida por “governadores de direita”, “juízes direitistas” e por “todo mundo que tiver o poder”, como forma de impor limites ao direito de manifestação.
Banco Master, Toffoli e o sigilo do inquérito
Na sequência, Pimenta dedicou boa parte do programa ao caso do Banco Master e ao papel do ministro Dias Toffoli no inquérito. Ele afirmou que o “envolvimento” do magistrado “é mais do que comprovado” e descreveu como “absurda” a permanência de Toffoli no comando do procedimento. “É uma coisa absurda, porque o envolvimento do Toffoli na questão do Banco Master é mais do que evidente”, disse, acrescentando que o tema está “em todas as páginas dos jornais”.
O presidente do PCO relatou que o presidente do STF, Edson Fachin, teria buscado uma saída para retirar o processo das mãos de Toffoli, cogitando-se inclusive o envio do caso à primeira instância, mas que teria recuado após pressão de Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. “O Fachin acabou pressionado” e “decidiu defender que o Dias Toffoli continue com o processo”, afirmou Pimenta, que ironizou o fato de Fachin propor um “código de ética” para a Corte enquanto mantém, segundo ele, uma situação de conflito de interesses.
Um dos pontos centrais da crítica foi o segredo de justiça. Pimenta disse que Toffoli “mantém as informações do inquérito sobre segredo de justiça, de tal forma que ninguém consegue acessar o que está lá”, classificando o procedimento como “antidemocrático”. Para ele, em um regime que se pretenda democrático, “o povo brasileiro, o cidadão brasileiro, tem todo o direito de saber o que está acontecendo com um banco acusado de enormes falcatruas”. No programa, Pimenta afirmou que o caso representa “o maior rombo financeiro da história do país em termos de bancos” e sustentou que “ninguém tem acesso” às informações essenciais do esquema: “ninguém sabe quem são os envolvidos, quem participou do esquema de pirâmide, quem ganhou dinheiro, quem perdeu dinheiro”.
Pimenta criticou setores da esquerda que, segundo ele, “defendem todo tipo de ação absurda do STF” e chegam a sustentar que Toffoli deve permanecer no inquérito mesmo com ligações do banco com familiares do ministro. Na avaliação do dirigente, se há parentes com vínculo com o caso, o próprio ministro deveria se declarar impedido. “Se o irmão do Toffoli tem qualquer ligação com o Banco Master, ele mesmo deveria falar que ele não vai presidir o inquérito”, disse.
O dirigente também comentou um argumento ouvido em programa recente do Brasil 247, de que a defesa da transparência coincidiria com uma posição da Rede Globo. Para Pimenta, tratar a exigência de publicidade como “posição” de um veículo é inverter o problema. “Você pedir transparência nos atos do Judiciário é uma coisa absolutamente óbvia”, afirmou. “O estranho seria se ninguém falasse absolutamente nada”.
Burguesia, STF e controle do regime político
Ainda sobre o caso, Pimenta afirmou que a burguesia não estaria conduzindo uma ofensiva dura contra o STF. Para ele, há denúncias e pressão, mas não uma campanha “demolidora”. “É muito pouco, é muito condescendente”, disse, comparando com a campanha que levou à derrubada de Dilma Rousseff. Na sua avaliação, o grande capital quer “resolver o problema do Banco Master”, mas “não quer rifar no processo o STF”, visto que o Supremo funcionaria como instrumento de controle do regime político, seja qual for o vencedor eleitoral em 2026. “O STF é o meio fundamental de controle do grande capital sobre o regime político”, afirmou, citando cenários em que Lula volte a ser eleito ou em que a direita vença com nomes como Flávio Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas.
Nesse quadro, Pimenta contestou a ideia de que o STF seria “defensor da democracia”. Ele disse que o argumento se sustenta apenas na perseguição ao bolsonarismo, a qual, segundo ele, tem “caráter eleitoral” e visa “tirar o Bolsonaro da eleição”. Ao afirmar que, além desse tema, a Corte acumula decisões “profundamente antidemocráticas”, Pimenta citou ataques a direitos dos trabalhadores e medidas de censura na Internet. Em sua avaliação, apoiar o STF no caso Banco Master “em nome da democracia é uma contradição em termos” quando o inquérito permanece sob suspeita e em sigilo.
Privatizações, concessões e Correios
No bloco dedicado ao governo Lula, Pimenta comentou o anúncio de 150 concessões apresentado como “grande realização” e disse que o dado representa, na prática, uma “onda de privatizações”. Segundo ele, o governo petista está executando “aquilo que o Bolsonaro elaborou, mas não colocou em prática”, chamando o pacote de “plano do Paulo Guedes da desestatização”.
O dirigente citou como exemplo uma notícia sobre protestos de organizações ligadas às populações do Rio Negro contra a concessão de um trecho do curso d’água, que, conforme descreveu, significa “privatização do rio”. Para Pimenta, a tendência é que esses ativos sejam repassados a empresas privadas e, frequentemente, estrangeiras. Ele também retomou o tema dos Correios, afirmando que o governo está levando a empresa “à falência”, colocando-a “sob controle dos bancos” e propondo uma reestruturação com demissão de 15 mil trabalhadores. “Se o governo Lula não se eleger, ele já preparou o terreno para a privatização do Correio”, afirmou, lembrando que a estatal tem “perto de 100 mil trabalhadores”.
Ao falar das concessões em estradas, Pimenta argumentou que a experiência cotidiana do pedágio indica o resultado do modelo: cobrança elevada e impacto direto sobre a população. “As empresas privadas arrancam o couro da população nos pedágios”, disse, ao afirmar que trajetos relativamente curtos podem acumular cobranças de R$20, R$30 ou mais. Para ele, o mesmo ocorre com concessões de portos, aeroportos, vias fluviais e rodovias: “o povo vai ter que pagar”. Pimenta afirmou que a política beneficia “alguns grupos milionários” e empobrece a maioria.
Ainda nesse tema, Pimenta concluiu que o governo Lula demonstra que “a eleição não vai resolver problema absolutamente nenhum”. Segundo ele, a política eleitoral apresentada pelo PT há décadas como solução não impediu que o governo se mostrasse “incapaz de resolver os problemas” e, em certos casos, passasse a “criar novos problemas”.
ONU, Trump e o ‘Conselho de Paz’
Na política internacional, Pimenta comentou a proposta do presidente norte-americano Donald Trump de criar um “conselho de paz internacional”, e disse que a reação de governos, incluindo o brasileiro, de “defender a ONU” não enfrenta o problema real. Para ele, “a ONU não é uma coisa boa” e funciona como “cobertura” sem capacidade efetiva.
Ao fazer um balanço recente, Pimenta citou o genocídio em Gaza e afirmou que a ONU foi incapaz de impor medidas mínimas: “não conseguiu estabelecer em momento nenhum cessar-fogo”, “não conseguiu impedir a violência” e “não conseguiu fazer com que a população que estava morrendo de fome recebesse auxílio médico e alimento”. Em seguida, resumiu: “para que serve a ONU? Nada”. Pimenta descreveu a organização como “um parlamento sem poder” e ironizou a rotina de discursos, citando episódios em que delegações deixam o plenário quando Netaniahu fala, “e fica tudo por isso mesmo, porque não acontece absolutamente nada”.
Para o dirigente, a iniciativa de Trump explicitou a falência do arranjo: o eventual conselho seria “totalmente dependente do imperialismo norte-americano”, mas ao menos encerraria a aparência de neutralidade e de “máscara” que atribuiu ao funcionamento da ONU. Pimenta sustentou que a organização, além de não servir aos povos, também passou a ser vista com reservas pelo próprio imperialismo, o que indicaria uma crise profunda da instituição.
Irã, ameaça militar e a guerra em preparação
Na parte final, Pimenta concentrou-se no Irã. Ele citou uma notícia veiculada pela emissora russa RT sobre o envio de uma frota norte-americana de porta-aviões e outros navios na direção do país, classificando a movimentação como “ameaça direta”. Na sua avaliação, o imperialismo “não está disposto a tolerar a existência de um Irã independente” por causa do papel do país no Eixo da Resistência e de sua aliança com movimentos que enfrentam a entidade sionista e o imperialismo em várias frentes.
Pimenta mencionou o apoio do Irã à resistência palestina, ao Iêmen, ao Líbano, ao Iraque e citou também relações com a Venezuela. Ele retomou o 7 de outubro como marco de crise do imperialismo, mencionando, além da derrota no Afeganistão e a guerra na Ucrânia, descrevendo a Operação Dilúvio de Al-Aqsa como um golpe na posição do sionismo na região, com apoio de forças no Líbano, no Iêmen, na Síria e no Iraque.
Ao avaliar a reação imperialista, Pimenta afirmou que, apesar de ataques e bombardeios, não houve “resultado decisivo” contra a resistência palestina, e que, após ofensivas e assassinatos dirigidos contra a direção do Hesbolá, o Irã se tornou o “ponto chave” para a tentativa de restabelecer a relação de forças internacional favorável ao imperialismo.
Nesse quadro, Pimenta criticou setores da esquerda brasileira que, segundo ele, saíram “abertamente em defesa das supostas mobilizações populares” no Irã, ignorando a ofensiva imperialista em curso. Ele afirmou que o governo iraniano apresentou elementos de que se trataria de uma ação armada, com contrabando de armas e atuação de grupos organizados. No programa, Pimenta disse que, de acordo com o balanço do governo iraniano, morreram três mil pessoas, das quais 700 foram classificadas como “terroristas”, além de ter havido apreensão de 60 mil armas que estavam sendo contrabandeadas para o movimento imperialista.
Para Pimenta, a situação pode evoluir “muito facilmente” para uma guerra direta entre o imperialismo e o Irã. “Eu acho que o imperialismo não vai arredar pé, a não ser que ele seja forçado a arredar pé. Se ele não forçado, vai ter guerra”, declarou, acrescentando que seria “bastante destrutiva”. Ele concluiu afirmando que a ofensiva contra o Irã já integra uma política de escalada mundial do imperialismo, ainda que tente se encobrir com a apresentação dos acontecimentos como mero levante interno. “Qualquer pessoa com espírito crítico vai ver que a situação é delicada”, disse.





