No primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 18 de janeiro, André Ventura, líder do Chega, partido de extrema-direita, conquistou quase 24% dos votos, um notável crescimento em comparação às eleições anteriores. De outro lado, António José Seguro, candidato de frente-ampla do Partido Socialista obteve 31,13% dos votos. Ambos disputarão pela presidência da república no segundo turno.
O Chega, fundado em 2019 por André Ventura, um ex-comentador esportivo e fiscal de impostos, vem em uma trajetória ascendente, representando um crescimento acelerado da extrema-direita em Portugal. De 1,3% nas eleições legislativas de 2019, o partido saltou para mais de 22% nas legislativas de 2025, conquistando 60 cadeiras no Parlamento e se tornando a segunda maior força parlamentar. Nas eleições presidenciais de 2021, André Ventura obteve 11,9% dos votos, tendo dobrado os votos em 2025 para 23,52%.
Ventura, tem uma política anti-imigração e em defesa da repressão policial. Seu discurso é marcado por um ataque às “elites” corruptas, as quais usa para se referir aos políticos. Ele também denuncia o preço dos combustíveis, o custo de vida e a imigração, o que ele afirma que vai combater por meio do aumento da repressão e do liberalismo econômico. Dessa forma, Ventura discute temas econômicos abandonados pela esquerda em prol do identitarismo, mais compatível com a política de frente ampla que ela adotou.
Portugal, com seu regime semipresidencialista, tem o poder político nas mãos do Parlamento e do primeiro-ministro, e vive os efeitos da crise capitalista mundial traduzida em uma crise política: três eleições legislativas desde 2022, governos neoliberais minoritários, sustentados via frente-ampla, numa aliança que submete a esquerda aos interesses da burguesia.
O encolhimento do centro político: os partidos tradicionais em ruínas
Enquanto a extrema-direita avança, o centro político, representado por partidos como o PSD (centro-direita) e a Aliança Democrática (AD), encolheu dramaticamente. Luís Marques Mendes, apoiado pelo PSD, obteve apenas 11,3% dos votos, ficando atrás em centenas de concelhos. João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, chegou a 16%, e Henrique Gouveia e Melo, independente, a 12% números que revelam uma diminuição e dispersão do voto centrista. Essa foi a eleição mais disputada desde 1974, com 11 candidatos e empate técnico entre cinco deles durante a campanha.
Anos de austeridade fiscal, crise econômica e alianças com a direita erodiram a confiança nos partidos tradicionais. A AD ficou sem maioria parlamentar, enquanto o PSD sofreu um colapso eleitoral. Nesse cenário, a esquerda tem buscado abrir mão de suas pautas para assumir uma política de frente ampla ao redor de Seguro, apelando ao “voto útil”.
Submissão da esquerda à burguesia para “derrotar o fascismo”
Seguro convocou uma frente ampla para derrotar Ventura e o Chega. Diante da ameaça de Ventura, a esquerda já declarou apoio ao candidato do Partido Socialista no segundo turno, marcado para 8 de fevereiro. Catarina Martins (Bloco de Esquerda), António Filipe (PCP) e Jorge Pinto (Livre) anunciaram que votarão no candidato do partido socialista, o que caracteriza a política de frente ampla.
Essas alianças unem desde uma direita neoliberal identitária como o Partido Socialista até elementos do centro-direita, excluindo a extrema-direita sob a condição da capitulação geral da esquerda em todas as pautas fundamentais. Em Portugal, essa tática já mostra resultados: apoio a Seguro, um direitista que defendeu compromissos durante a crise do euro em 2011, significaram submeter-se ao imperialismo, mantendo altas taxas de juros, censura e ataques aos direitos democráticos e sociais sem oposição.



