Polêmica

Defender a Venezuela contra os agressores é obrigação

A teoria marxista é muito clara, a democracia imperialista é mais reacionária que um pretenso fascismo de país atrasado

Lenin e Trotski

O artigo Venezuela e o legado defensista de Trotsky, de Valerio Arcary, publicado no sítio Esquerda Online em 14 de janeiro, faz uma citação de Trotski para tirar as conclusões erradas.

A citação faz parte de uma entrevista do líder revolucionário a Mateo Fossa em 23 de setembro de 1938.

Abaixo, a citação:

“Existe atualmente no Brasil um regime semi fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto, que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrática”. Por quê? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês.”.

No parágrafo 1, Arcary escreve que Trótski “defendeu a URSS, nos anos trinta, diante da iminência de uma invasão pela Alemanha nazista, apesar de sua posição crítica diante do governo de Stalin”. No parágrafo 2, afirma que “a formulação de Trotsky diante do nazismo na Segunda Guerra Mundial era herdeira da formulação de Lenin diante do golpe de Kornilov. Defensismo em unidade militar com Kerensky contra o golpe militar da extrema-direita”, mas acrescenta um sem depositar apoio político. – grifo nosso.

Em A Revolução Traída (1936), Trótski argumenta que a URSS ainda era um Estado operário porque a propriedade privada dos meios de produção havia sido abolida e a economia era planificada. Porém, o Estado estava “degenerado”, pois uma casta burocrática (liderada por Stalin) havia usurpado o poder político dos trabalhadores.

Segundo Trótski, era necessário defender as bases sociais (a economia estatizada) contra o imperialismo, mesmo sendo um inimigo implacável da burocracia que as dirigia.

Ainda no parágrafo 2, lê-se que “o defensismo de Trotsky contra o fascismo, contra o imperialismo e contra a restauração capitalista repousa em um cálculo. Na luta política a esquerda socialista está, muito frequentemente, diante de dilemas difíceis impostos pela relação de forças. Um dilema é quando se impõe uma escolha entre o ruim e o muito ruim. A neutralidade não é opção. Numa luta entre desiguais a neutralidade é cumplicidade com o mais forte.”. E que “entre a democracia burguesa e o fascismo a esquerda deve se alinhar com dissidências burguesas contra o fascismo”.

A doutrina marxista, que tem como base a luta de classes, não deixa dúvida sobre qual deveria ser a posição da esquerda e como se posicionar entre a Venezuela e os Estados Unidos. Mas a confusão da esquerda não resume a esse caso, como veremos.

A esquerda foi tendo posições cada vez mais capituladoras conforme a crise do imperialismo vai se acentuando. Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, a esquerda ficou ao lado da ditadura Videla contra o Império Britânico.

Na invasão ao Iraque, a esquerda também não pensou duas vezes para ficar contra o imperialismo, apesar de o país estar sob a ditadura de Sadam Hussein. De fato, a queda do governo, como Trótski já havia dito, foi muito pior para o povo iraquiano. O país, onde tinha um alto índice de mulheres nas universidades, sofreu um grande retrocesso após a guerra.

Com o avanço do identitarismo, a esquerda retrocedeu. Nos 20 anos de invasão ao Afeganistão, a maioria da esquerda passou a se opor ao Talibã sob a desculpa de que no país se maltrata as mulheres. Quando o imperialismo foi derrotado, a esquerda pequeno-burguesa lamentou. Ocorre que a condição de vida das mulheres deteiorou exponencialmente com a presença da OTAN. Antes da invasão, 33% da população encontrava-se abaixo da linha de pobreza. Depois, esse índice pulou para 77%. Além disso, 92% da população tem algum grau de desnutrição.

O mesmo acontece com relação ao Irã. A maioria da esquerda não apoia o governo que luta contra o imperialismo em nome das mulheres, mas se cala miseravelmente sobre a Arábia Saudita, país aliado do imperialismo.

“Fora todos!”

Indo do terceiro para o quarto parágrafo 4, Arcary faz considerações, diz que “o legado de Lenin não foi ‘Nem Kerensky, nem Kornilov’. O legado de Trotsky não foi ‘Nem Hitler, nem Stalin’. Tampouco foi ‘Nem Vargas, Nem Londres’. ‘Abaixo o governo de turno’”, o que o leva a mencionar que “o desenlace no Brasil foi o ‘Fora Todos’, quando do golpe institucional contra Dilma Rousseff em 2016. No contexto da conjuntura, ‘Nem Trump, nem Delcy Rodrigues’, estabelecendo uma nivelação entre o imperialismo e o governo chavista, é uma formulação antidefensista que despreza que, nas condições atuais, o perigo real e imediato de uma derrubada do governo de Delcy Rodrigues, ou do governo de Diaz-Canel em Cuba, seria uma recolonização direta por Washington”.

No 5° parágrafo, Arcary introduz um elemento que gera confusão. Diz que “tudo é sempre relativo na vida e na política (…). A tática depende de qual força social e política está na ofensiva, e quem está na defensiva. Os bolcheviques se uniram em um campo comum com o governo provisório de Kerensky contra Kornilov, não contra a mobilização dos soviets. O defensismo exigia, de novo hipoteticamente, defender o Brasil no caso de uma agressão da Inglaterra, mas não defender Vargas contra as massas populares.. – grifo nosso.

Isso não está em questão na Venezuela, não se trata do povo contra o governo. Essa é a desculpa que a maioria da esquerda tem utilizado: a de que defendem o povo não o governo. Por outro lado, nem toda luta que envolve pessoas é popular, como demonstram as revoluções coloridas, bem como as pessoas pagas no Irã. Uma “revolta popular” que enfraqueça o governo em luta contra o imperialismo deve ser aceita, ou combatida?

A posição que a esquerda pequeno-burguesa tem seguido é a de combatar o governo do Irã, da Venezuela. Uma posição completamente reacionária que deve ser combatida por toda a esquerda.

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