No final do ano passado, a dita Organização Comunista Internacionalista (OCI) publicou um texto com suas apreciações sobre a atualidade no Oriente Médio, mais precisamente, sobre a atuação do imperialismo e a caracterização de alguns regimes políticos da região.
Neste texto, não entraremos em todos os pontos abordados pela matéria intitulada: “Oriente Médio: o lugar do imperialismo, a guerra Israel e Irã e a política de dois Estados”, pois são muitos, alguns pontos acertados e outros que beiram a loucura. Nos centraremos na caracterização feita pela OCI do regime político do Irã.
A maior parte do que é dito pelo Irã se encontra na seção “Irã, uma revolução confiscada e um regime teocrático reacionário”. Nela, encontramos a ideia de que após a Revolução Islâmica, que acabou com a ditadura do Xá Reza Pahlevi, apoiada pelo imperialismo, o processo político no país teria retrocedido, estabelecendo uma ditadura tão opressora quanto a anterior:
“A derrubada do odiado Xá, em 1979, foi uma revolução popular extraordinária que, em cerca de quatro dias, enfrentou e dissolveu as forças armadas do regime, incluído o exército, considerado um dos mais poderosos do mundo, na época. Nos meses anteriores à derrubada do regime greves e manifestações se multiplicaram e em todo o Irã e começaram a se constituir as Shuras, espécie de Conselhos de Trabalhadores, embriões de Sovietes.
Mas não havia organização nacional independente dos trabalhadores. O Partido Comunista Tudeh, que tinha grande influência popular e era controlado por Moscou, apoiou os islâmicos e apoiou o regime teocrático de Khomeini, sustentado por Moscou.”
O problema da análise da OCI é que ela enxerga o mundo de maneira completamente sectária e infantil. Para a organização, o que importa é a ideologia de determinados grupos políticos, não o que eles fazem na prática. Portanto, o problema todo seria que, durante a revolução, o Tudeh, partido filiado à Terceira Internacional, teria apoiado o governo dos aiatolás.
No entanto, o grande problema do Tudeh foi justamente o oposto. Diante da guerra Irã-Iraque, na qual o Iraque de Saddan Hussein se aliou ao imperialismo para atacar o Irã, pensando que com a revolução o país estaria enfraquecido e isso permitiria que os iraquianos tivessem um maior controle do Golfo Pérsico, o Tudeh pegou em armas contra o regime iraniano.
Ou seja, diante de um ataque do imperialismo contra a revolução, o Tudeh se aliou ao imperialismo. Seria o mesmo que um partido político se aproveitar da Guerra dos 12 Dias para atacar o governo iraniano, se aproveitando dos bombardeios israelenses ao país persa.
A guerra Irã-Iraque durou cerca de oito anos, deixando um saldo de grande destruição para ambos os países e um número de quase 1,5 milhão de mortos. No entanto, a matéria da OCI esconde o evento histórico, que inclusive faz parte da própria história da revolução no Irã:
“A partir de 1981 os bandos armados, de tipo fascista, organizados e dirigidos pelos Aiatolás, começam a atacar diretamente todas as organizações que não fossem xiitas e os que não são mortos imediatamente são enviados para o conhecido juiz islâmico xiita Laievardi, conhecido como o “juiz enforcador”. Em suas mãos, em 1988, morreram fuzilados cerca de 8 mil militantes do partido comunista Tudeh.”
A omissão da guerra dá a entender que o Irã passou a atacar a esquerda gratuitamente, não porque essas organizações haviam se aliado ao governo estrangeiro contra o governo revolucionário.
Logo na sequência, um parágrafo um tanto quanto obscuro:
“A outra única organização realmente nacional com influência era a dos Aiatolás dirigidos por Khomeini e, como tinha o apoio do Tudeh, assumiu o controle, matando e assassinando, confiscando uma grande revolução e implantando um regime de terror, onde o capitalismo foi mantido, evidentemente. Para alegria dos iluminados Aiatolás e seus amigos da classe dominante para quem, de fato, trabalham os enviados de Alá.”
Fica um pouco confuso pois texto não se decide se o Tudeh apoiava ou não o governo de Khomeini e, tanto em uma quanto na outra hipótese, trata o governo como simplesmente sanguinário sem motivo.
É preciso esclarecer que o que a OCI propõe é praticamente impossível. A grande força reacionária da humanidade é o imperialismo e qualquer organização ou grupo que se coloque contra essa força, tende à esquerda, se apoiando nos elementos revolucionários da sociedade, como os operários, por exemplo. O contrário, no entanto, também é verdadeiro. Não importa a ideologia de qualquer grupo ou pessoa, ao se aliar ao imperialismo, tende à direita.
É assim que o Tudeh, por mais que se apresentasse como revolucionário, ao apoiar a agressão imperialista ao próprio país, se transformou em uma força reacionária. Já o governo da Revolução Islâmica, por mais que tivesse uma ideologia religiosa, teve de se apoiar nas forças revolucionárias do país para combater o imperialismo, indo, portanto, à esquerda.
Pior do que apenas omitir a história para atacar o Irã, toda essa campanha de desinformação e de omissão da história da Revolução Islâmica tem como objetivo buscar a neutralidade no conflito entre Irã e o imperialismo nos dias de hoje:
“O ataque de Israel contra o Irã, na chamada Guerra dos 12 dias, fez parte de um jogo complexo, do imperialismo EUA e sua cabeça de ponte sionista, onde a questão dominante é lançar o Oriente Médio no caos para aprofundar a dominação imperialista na região. Neste sentido é preciso estar inteiramente solidário com o povo do Irã, suas organizações sindicais, operárias e democráticas, femininas e de juventude, todos reprimidos pelo regime dos Aiatolás, e que sabem que Israel e os EUA não são nenhum futuro para o seu povo, mas a continuidade do horror.
Entretanto, nome do combate ao sionismo e ao imperialismo, alinhar-se com o regime de Ali Khamenei e seu governo de facínoras seria um erro enorme e teria um custo vergonhoso para os que o fazem. Combater os ataques de Israel e dos EUA é um dever para todo comunista preservando sua total independência.”
Ou seja, segundo os “revolucionários” da OCI, não devemos defender nem o imperialismo contra o Irã, nem o Irã contra o imperialismo. No entanto, a posição do grupo é a mesma do Tudeh diante da agressão imperialista que visa derrubar o governo do país: derrubar o governo.
Citar as organizações sindicais, operárias e democráticas só serve para dar a aparência de que a população iraniana está contra o próprio governo e que uma revolução que derrubaria o regime está na iminência de acontecer. Porém, a verdade é que, como vimos na mais recente onda contra o regime iraniano, organizada pelo Mossad e pelos serviços de inteligência do imperialismo segundo o próprio governo israelense, teríamos como resultado não uma revolução socialista, mas sim, o estabelecimento de uma ditadura a favor do imperialismo.
Ao mesmo tempo, o texto cita organizações “femininas” para fazer coro com as acusações identitárias pró-imperialistas de que o regime iraniano persegue as mulheres, o que não passa de mentira.
Tanto em relação aos operários quanto às mulheres que supostamente estariam contra o regime do Irã, basta o acesso à internet para ver que se trata de uma falácia. Manifestações muito maiores do que as contrárias ao governo islâmico, mas a favor do regime, tomaram as ruas das principais cidades iranianas nos últimos dias. Também é muito fácil encontrar vídeos de mulheres que não usam o famigerado véu islâmico andando tranquilamente pelas ruas do país, sem nenhum tipo de repressão.
O sectarismo do grupo se dá principalmente em relação à religião. Segundo eles, o Irã seria um Estado teocrático que persegue outras religiões, o que não é verdade. Apesar de realmente e basear na lei islâmica, é fato que não há perseguição religiosa dentro do país. Recentemente, por exemplo, foi inaugurada uma linha de metrô em Teerã dedicada a Maria, mãe de Jesus.
Um outro exemplo notório é o fato de que os judeus do país são protegidos e podem formar suas próprias milícias, com várias entrevistas na internet mostrando que, em caso de guerra entre Irã e Israel, os judeus iranianos ficariam ao lado do Irã.
Hoje, ao contrário do que prega a OCI, o Irã é o Estado mais revolucionário do planeta. Isso, porque apoia várias revoluções pelo Oriente Médio, armando as milícias iraquianas, o Hesbolá, os huthis no Iêmen e, principalmente, a resistência palestina.
No entanto, para a OCI, tudo não passa de um teatro montado em acordo com o imperialismo. O texto chega a dizer que o Hamas foi criado por “Israel” e chega a dizer que a Guerra dos 12 Dias não passou de uma farsa, pelo fato de que o Irã avisou os Estados Unidos de que iria bombardear a base americana de Al-Udeid.
Essas declarações demonstram que o grupo não entende exatamente o que é o imperialismo. Para eles, para que a ação do Irã fosse verdadeira, o ataque a Al-Udeid deveria ter acontecido com o máximo de baixas possíveis. No entanto, isso teria ocasionado uma grande resposta do imperialismo, a força mais destrutiva da humanidade.
É óbvio que qualquer governo do mundo usa da cautela quando se trata de enfrentar os países imperialistas, pois a disparidade tecnológica é muito grande e qualquer passo incerto pode gerar um número de baixas altíssimo.
Outra suposta prova da farsa é que os EUA teriam obrigado “Israel” a não bombardear o Irã. No entanto, a OCI não se pergunta o porquê de os EUA terem feito esse pedido. A realidade é que, no momento, o imperialismo viu que não seria fácil atacar o Irã àquela altura com uma guerra aberta, mas que, caso não pedisse para “Israel” parar, o Irã teria plena capacidade de acabar com o regime israelense, vide o estrago feito pelos iranianos em Tel Aviv.
Em outro ponto, o grupo sugere que as ações do Hamas durante o Dilúvio de Al-Aqsa teriam sido favoráveis a Netaniahu e teriam salvado o Irã de uma revolução:
“Quando desatou o massacre de palestinos em Gaza, enquanto aumentava as colônias fascistas sionistas na Cisjordânia e os ataques e mortes nesta região, Netanyahu estava enfrentando as maiores manifestações de massa da história de Israel contra seu governo. Então, providencialmente, ou ao menos para sorte do terrorista Netanyahu, o Hamas atacou em 7 de outubro. E, mesmo agora, estava numa situação cada vez mais difícil. Havia escapado por muito pouco de uma moção de desconfiança no Knesset (Parlamento), o que derrubaria seu governo e obrigaria a realização de eleições em Israel. Depois, o sanguinário terrorista Netanyahu conheceria a cadeia… então, atacou o Irã de maneira providencial para todos eles.
Neste momento, o Irã, um regime odiado em casa apesar de ainda manter uma certa base de apoio através da religião e do terror, estava vendo se iniciar uma greve geral de todo o Irã, impulsionada pelos trabalhadores de transporte, caminhoneiros e muitos outros setores de trabalhadores: “Desde 1º de Khordad de 1404 (22 de maio de 2025), o Irã tem testemunhado uma significativa erupção da luta de classes, com caminhoneiros e transportistas iniciando uma greve nacional. Trata-se de um protesto determinado contra condições de trabalho intoleráveis e uma crescente crise do custo de vida, evidenciando a crise cada vez mais profunda do capitalismo iraniano.”
A OCI, portanto, não vê uma revolução quando ela começa, não percebeu que o que aconteceu naquele dia sete de outubro foi o começo do fim de “Israel” e que, independente da ideologia do Hamas, o povo palestino começava a se levantar, e que o Irã é a grande força por trás de todas as revoluções na região.





