José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

Dívida pública mundial e o verdadeiro poder no Brasil

A região canavieira da Paraíba e Pernambuco em período de transição do engenho para a usina encontrou no “ciclo da cana de açúcar” de José Lins do Rego a sua mais alta expressão

Enquanto o governo dos EUA vai, sistematicamente, preparando um grande confronto em nível mundial, no ano fiscal de 2025 (out/2024–set/2025) o país gastou US$ 970 bilhões com juros da dívida pública. Apesar desse gasto monstruoso (quase metade do PIB brasileiro), a dívida cresceu US$ 2,23 trilhões no ano passado, chegando a US$ 38,4 trilhões (um ritmo de crescimento de aproximadamente US$ 6,12 bilhões por dia).

A dívida norte-americana, mesmo com a queda gradativa da hegemonia do dólar na economia mundial, dificilmente se tornará impagável por um problema de insolvência. Afinal, o Tesouro dos EUA emite dívida majoritariamente em dólar, e o governo opera com apoio do sistema monetário em sua própria moeda. O que torna muito baixo o risco de um “default involuntário”, típico do que aconteceu em tantos países endividados em dólar em todo o mundo.

Talvez o maior risco nos EUA seja o do custo macroeconômico que o país terá que arcar caso a dívida continue crescendo em proporção ao PIB. Ou seja: juros reais efetivos maiores que o crescimento por muito tempo e/ou déficits primários persistentes, aumento de impostos, inflação ou alguma combinação destes. O risco não é de insolvência, por causa da posição privilegiada que têm os EUA na economia internacional, mas o rumo é arriscado. Especialmente em uma situação de preparação para uma conflagração em larga escala. A pergunta-chave que os economistas americanos fazem se refere à dinâmica da dívida: a relação dívida/PIB vai estabilizar ou não? Isso depende de crescimento, do nível dos juros, do resultado primário e da demanda por títulos do Tesouro dos EUA.

A dívida pública se tornou um problema sistêmico global, especialmente depois da pandemia de 2020/21. A razão dívida pública global/PIB saiu de cerca de 84% em 2019 para algo em torno de 90% do PIB em 2022–2023, com projeção de se aproximar de 100% do PIB em pouco tempo. Em agosto de 2025, a razão dívida pública global/PIB estava estimada em aproximadamente 95,1%, segundo o FMI. Entre os países imperialistas, a maior relação dívida/PIB é a do Japão, acima de 200%, exigindo forte atuação do Banco do Japão para não sair de controle.

Há vários fatores para o aumento do endividamento dos países, como a mudança na estrutura demográfica, que pressiona previdência e saúde; choques de energia e alimentos, etc. Mas é muito importante ressaltar o ciclo de alta de juros, a partir de 2022, que elevou o serviço da dívida em todo o mundo. Em países onde o perfil da dívida é de curto e médio prazos, a deterioração da relação dívida/PIB ocorreu mais rapidamente. O aumento da economia informal e regimes tributários regressivos (como o do Brasil) dificultam muito o ajuste pelo lado da receita.

Os efeitos do aumento da dívida sobre a economia mundial são muito danosos. As dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal das economias elevam os spreads (diferença de rendimento entre um título de dívida e uma taxa de referência considerada mais segura) soberanos e corporativos, produzindo um contágio regional. A dívida elevada dificulta as políticas públicas de uma forma geral, inclusive a capacidade do governo de realizar ações anticíclicas, o que reduz a capacidade de estabilização econômica e o investimento público.

Ao mesmo tempo em que uma dívida considerada impagável por alguns analistas é um sério problema para os EUA, a concentração de boa parte da dívida no país[1] reforça o seu poder. Os títulos do Tesouro norte-americano são o principal ativo seguro do sistema financeiro e referência da tendência global de juros. Isso provoca uma forte demanda por esses títulos, o que fornece uma garantia para o financiamento da dívida. Simultaneamente, a ainda predominante hegemonia do dólar como instrumento de reservas e transações financeiras internacionais, e o monopólio da emissão dessa moeda, inclusive sem lastro, fornece aos EUA um poder único no mundo.

Por isso, não deixa de ser surpreendente que a economia russa continue crescendo acima da média global, mesmo sendo o país mais sancionado da história (entre cerca de 16 mil e 20 mil medidas, com diferentes tipos de sanções). À distância, é impossível avaliar o que é sofrer amplos controles nas exportações, profundas sanções financeiras (bancos, bolsa, etc.) e ser sancionado em áreas estratégicas como energia, defesa e tecnologia.

A maior parte dos pagamentos internacionais é realizada com o dólar e com base em infraestrutura sediada nos EUA, como, por exemplo, os bancos correspondentes. Obviamente, os negócios realizados com dólar se submetem às leis e regulação financeira norte-americana. Como quase toda grande instituição no mundo necessita do dólar e de bancos americanos, o governo dos EUA impõe sanções que retiram o acesso de indivíduos, empresas e países.

Os EUA, inclusive, impõem sanções secundárias; ou seja, se um banco de outro país negociar com um sancionado, está sujeito a perder o acesso ao dólar, o que leva as instituições a não negociarem com empresas ou países sancionados. Os EUA são o único país do mundo que tem esse poder, o qual usa com muita frequência sem se fazer de rogado: atualmente, possuem algo acima de 16.000 sanções ativas contra pessoas físicas, empresas e países.

Nesse momento, o que os países imperialistas estão operando, sob a liderança dos EUA, é a construção das condições para uma grande conflagração mundial. Negociar com seus inimigos (principalmente China e Rússia) seria dar condições para fortalecê-los. Dadas as condições econômicas atuais, seria um perigo mortal para a existência do próprio imperialismo.

Politicamente, a China é um “péssimo exemplo” para os países oprimidos porque, além de ter colocado em marcha um muito bem-sucedido projeto de desenvolvimento nacional e soberano, o fez com base na concepção de que é possível um país se desenvolver e melhorar a vida de seu povo sem fazer guerra e rejeitando a farsa da “democracia liberal”.

Para o Estado brasileiro, seria fundamental enfrentar o problema da dívida pública, pois os recursos atualmente drenados pelos serviços da dívida são essenciais para enfrentar os desafios internacionais e os grandes problemas nacionais. O Brasil segue preso ao papel de exportador de commodities, sem controle da cadeia de valor industrial, refém da oscilação dos preços internacionais. A ausência de uma perspectiva de desenvolvimento soberano, somada à falta de política industrial, reforça a dominação de empresas multinacionais na economia brasileira.

Os bancos operam para que o Estado gaste cada vez menos com desenvolvimento e com as necessidades da população. O controle da dívida pública por parte das instituições financeiras não é apenas uma fonte caudalosa de dinheiro fácil e garantido; é também um instrumento de controle do Estado pelo capital financeiro. Os mecanismos de controle são vários. Por exemplo: os bancos e rentistas, de forma sistemática, estabelecem “critérios de mercado” que funcionam como vetos indiretos sobre políticas públicas, especialmente as mais importantes.

A conjuntura dos últimos anos mostrou de forma cabal quem manda verdadeiramente no país. Independentemente de quem esteja no governo (golpistas de 2016, extrema-direita ou esquerda), os serviços da dívida continuam sendo regiamente pagos, comprometendo quase metade do orçamento público federal e condenando o país à condição semicolonial.

[1] Em dezembro de 2025, o governo dos Estados Unidos detinha 39,5% da dívida pública mundial total, o que equivale a US$ 38,4 trilhões de um total mundial estimado em US$ 97,1 trilhões.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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