O artigo Lula forte incomoda muita gente, de Emir Sader, publicada no Brasil247 neste sábado (17), é muito mais a projeção dos desejos do articulista do que uma apreciação da realidade.
Sader começa seu artigo dizendo que “a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi outra circunstância que obrigou o reconhecimento do papel de Lula na concretização desse acordo”.
Naturalmente, em ano eleitoral, é preciso elogiar qualquer coisa que o governo Lula faça. Mesmo assim, é preciso dizer que esse acordo não é nenhuma maravilha, antes o contrário.
Exportações de produtos primários não chega a ser um fator verdadeiro de desenvolvimento. A indústria na é Europa é mais produtiva, além de altamente subsidiada. Ao zerar as tarifas, os produtos europeus vão dificultar a sobrevivência da indústria local.
O que o Brasil ganha se tornando uma “fazenda do mundo”? Vendas de soja e minérios têm baixo valor agregado, ao passo que os produtos tecnológicos têm alto valor agregado.
Outro fator criticado é a permissão de empresas europeias participarem de licitações de governo no Mercosul em igualdade com as nacionais, o que retira um importante instrumento de estímulo à indústria local.
Ingenuamente, Sader reclama da postura do jornal Valor Econômico, que teria afirmado que Lula ficaria de fora da assinatura. Diz que o jornal deveria “viver de sua credibilidade”… Quem pode esperar isso de um jornal burguês?
No parágrafo seguinte, Emir Sader escreve que “o significativo nesse tipo de observação (…) revela a atitude da grande mídia – ou de uma parte importante dela –, incomodada pelo favoritismo de Lula para ser reeleito para um quarto mandato como presidente do Brasil”.
Sader descobriu a roda. É óbvio que a grande imprensa se manifestaria contra Lula, pois não deseja sua reeleição. Como vimos no último período, houve um grande esforço da burguesia para tirar da corrida eleitoral um candidato com base social e com chances de vencer: Jair Bolsonaro. Agora, só falta tirar o outro: Lula. Então, Sader pode esperar o recrudescimento, a perseguição a Lula vai aumentar.
Base governamental
Por algum motivo desconhecido, o articulista pensa que “a oposição parece conformada com a reeleição de Lula. Concentra-se na possibilidade de manter o controle sobre o Senado e a Câmara, para poder dificultar um eventual novo governo de Lula”. Se isso fosse verdade, não teriam tirado Bolsonaro com vistas a eleger Tarcísio. Para essa eleição contavam com a cooperação do ex-presidente, que trocaria apoio por um acordo para ser solto. Mas a coisa parece não ser tão simples, pois Flávio Bolsonaro se apresenta como candidato.
Outra conclusão estranha é que, segundo Sader, “para quem teve que governar, no mandato atual, sem maioria, Lula fez um muito bom governo. Manteve e intensificou as políticas sociais, consciente de que essa é a única forma de lutar contra as desigualdades que ainda caracterizam a sociedade brasileira. O país chegou à situação atual, considerada de pleno emprego, por ter atingido o nível mais baixo de desemprego de sua história”.
Como pode haver pleno emprego se 50,4 milhões de pessoas dependem do Bolsa Família. Quais programas Lula intensificou? Mais da metade do orçamento público vai parar nas mãos dos bancos.
O governo retirou inúmeras pessoas do Bolsa Família e do BCP (Benefício de Prestação Continuada). É preciso lembrar que o maior aumento do Bolsa Família foi feito no governo Bolsonaro.
Incômodo
Sader faz a pergunta “a quem incomoda Lula forte?” à qual ele próprio responde: “aos que defendem as políticas neoliberais”. É verdade, a preferência da burguesia é por um candidato neoliberal, um Milei brasileiro, que poderia muito bem ser encarnado por um Tarcísio de Freitas.
O articulista lista uma série de possíveis incomodados com o atual presidente. Por exemplo, “os que se dão conta de que Lula fortalecerá ainda mais seu peso como articulador internacional e, com ele, os Brics, como forma contemporânea de organização do Sul global”. Como Lula pode fortalecer o BRICS se impediu a entrada da Venezuela no bloco? Considerando que o país tem a maior reserva mundial de petróleo reconhecida.
Hoje, os países do BRICS controlam 44% das reservas mundiais de petróleo. Se a Venezuela tivesse sido admitida, o controle ultrapassaria 60% do petróleo do planeta.
Existem muitas forças querendo Lula fora do poder e sua reeleição não está garantida, como muitos tendem a crer.
Pelo menos no mundo de Emir Sader, “o Brasil de Lula vai bem, a economia vai bem, o país se projeta ainda mais no mundo como grande protagonista, e sua liderança na América Latina, junto ao México, se fortalece. Quem se incomoda, que se incomode”.
Realmente, o protagonismo de Lula contra a invasão da Venezuela pelos EUA se fez notar. Ficou bem na moita e declarou neutralidade.
Lula foi incapaz de exigir a libertação de Nicolás Maduro. Antes, ainda, foi muito negativa a capitulação ao governo Biden, a exigência das atas da eleição, e o não reconhecimento da eleição de Maduro.
Voltando à questão do BRICS, o veto de Lula à admissão da Venezuela ao bloco abriu uma avenida para o imperialismo fazer o que fez.




