O artigo Direito a morte digna não é negação da vida, de Letícia Baccega, publicada em O Globo nesta sexta-feira (16) surge em um momento oportuno, quando os planos de saúde precisam economizar dinheiro. Pode parecer muito cru, mas, no final das contas, é isso mesmo, matar o paciente é mais barato e lucrativo que tentar mantê-lo vivo.
Letícia Baccega inicia seu texto dizendo que “defender o direito a uma morte digna não é negar o valor da vida — é recusar a ideia de que estar vivo, por si só, seja sempre um bem absoluto. A experiência humana não se mede apenas pela persistência orgânica, mas também pela possibilidade de sentido, autonomia e integridade. Quando viver se transforma em simples manutenção, talvez o desrespeito não esteja no fim, e sim na insistência em não o admitir”.
Como resposta inicial, podemos apresentar um trecho de um famoso livro:
“Onde foi que eu li”, pensou Raskólnikov, continuando o seu caminho, “onde foi que eu li o que disse um condenado à morte, uma hora antes de morrer, que se tivesse de viver nalgum lugar muito alto, em cima de uma rocha, e numa superfície tão pequena que mal tivesse espaço para pôr os dois pés — e em torno fossem abismos, o oceano, trevas eternas, eterna solidão e eterna tempestade — e tivesse de ficar assim, num espaço de um côvado, a vida inteira, mil anos, a eternidade, preferiria viver assim a morrer logo? Só viver, viver, viver! Viver como quer que fosse, mas viver!”
(Crime Castigo – Fiódor Dostoiévski)
A autora recusa a ideia de que estar vivo, por si só, seja sempre um bem absoluto, porém para recusar é preciso que ela esteja viva.
Baccega fala em “quando viver se transforma em simples manutenção”, talvez insistir manter uma pessoa viva seja desrespeito. Pelo sim, pelo não, quem deve decidir isso é o indivíduo.
No segundo parágrafo, lê-se que a sociedade “sacraliza a vida como dogma, mesmo quando ela se resume a parâmetros clínicos e diretrizes — ou, fora do hospital, a uma rotina de remédios, fraldas, sondas, cadeiras de rodas e grades improvisadas na cama. A medicina aprendeu a sustentar o corpo, mas resiste a encarar o sofrimento interior. O avanço técnico ganhou contornos de moral: continuar passa a ser lido como cuidado; parar, como abandono. A obstinação terapêutica veste a linguagem do amor, mas frequentemente nasce do medo — do juízo divino, da própria consciência e do julgamento alheio”. A vida não perde dignidade para aqueles que ficam com necessidade de fraldas, cadeiras de roda etc.
É obrigação da medicina sustentar o corpo o quanto puder, o sofrimento interior é subjetivo. Existem pessoas que sofrem mesmo sem estarem doentes. E a obstinação terapêutica é uma virtude, é isso que se espera da medicina.
O quarto parágrafo diz que “nesse cenário, a ortotanásia surge não como solução fácil, mas como tentativa de impedir que o fim seja sequestrado pela lógica do prolongamento a qualquer custo. Trata-se de permitir que a morte chegue em seu tempo; sem acelerá-la, mas também sem travar uma guerra de intervenções inúteis. Não abrevia a vida, tampouco a estende artificialmente. Ainda assim, encontra resistência, como se aceitar a finitude fosse falhar no dever de salvar. Não raro, “salvar” já não é preservar a pessoa, mas apenas empurrar o inevitável adiante”.
A ortotanásia é o conceito segundo o qual se deve permitir que a morte aconteça no seu tempo natural, sem prolongá-la artificialmente, quando não há possibilidade de cura e o tratamento apenas estende o sofrimento. Ocorre que é no processo de tentativa de prolongamento “artificial” que se descobrem novos tratamentos. Se tivermos que decretar que certos casos são incuráveis, estaremos renunciando a fazer ciência.
A vontade
Quando Letícia Baccega fala sobre o testamento vital (Diretivas Antecipadas de Vontade). Um documento que “alguém, ainda lúcido, define até onde aceita ir, recusa tratamentos fúteis, estabelece fronteiras e protege sua vontade para quando já não puder decidir”. Temos aí um caso complicado. Escancara-se uma porta para a corrupção. Planos de saúde podem muito bem dar “estímulos” para médicos que convençam pacientes a assinar o tal documento. Basta enganar o paciente, dizer que seu caso não tem cura e que um tratamento pode ser muito doloroso etc.
Faltando três parágrafos, a articulista se dedica a falar suicídio assistido; que “em muitos países, o tema já deixou de ser tabu e ganhou forma normativa”. Mas o fato é isso também segue a lógica do que foi dito acima, em pouco tempo apareceria uma indústria.
O argumento de que “falar sobre o direito de morrer não é celebrar o fim, mas humanizá-lo, afirmar que ninguém deveria ser obrigado a sofrer para tranquilizar os vivos.”, é uma impossibilidade dentro de um sistema onde a saúde é tratada como mercadoria.
Como toda empresa, os hospitais, os planos de saúde, querem lucrar. Para tal, precisam entregar o mínimo e cobrar o máximo. Quanto menos fizerem pelo paciente, mais lucrarção.
Devemos esperar cada vez mais esse tipo de texto. Eles servem para naturalizar a morte, o que, em última instância, favorece os planos de saúde.
Não existe dignidade, ou indignidade na morte, ela é o fim.




