O artigo A Venezuela após 3 de janeiro, publicado no EsquerdaOnline publicada nesta quinta-feira (15) chama a atenção pelo tom quase superficial com que trata o tema. Vai passando por diversos ocorridos sem se aprofundar. Fala da escalada militar, barcos sendo explodidos, Maduro sequestrado, o anúncio de Trump de querer governar a Venezuela etc.
No segundo parágrafo há o trecho que diz “a operação militar dos EUA que removeu Maduro do poder pode muito bem ficar na história tanto por sua superficialidade e fanfarronice quanto por seu aparente sucesso. É evidente que não houve nenhuma mudança real de regime, nem no alto escalão do poder, nem na base da sociedade venezuelana.”. Não existe um aprofundamento, ou quais as consequências do ocorrido.
A operação de imperialismo, se buscava uma mudança de regime e fracassou, isso significa que a ideia de se apossar do petróleo venezuelano não pode se concretizar. A aquisição do produto, como já foi anunciado, deverá se concretizar pagando-se o preço de mercado.
Qual o objetivo de se dizer que “o governo encenou sua própria transição ordenada ao poder, quando a vice-presidente Delcy Rodríguez foi confirmada como presidenta interina pela Suprema Corte da Venezuela e empossada perante a Assembleia Nacional. Não ocorreram expurgos, recriminações ou divisões perceptíveis dentro do governo até agora. A vida normal parece estar gradualmente retornando a Caracas e às principais cidades da Venezuela”?
“Encenação”, “vida voltando ao normal”, tudo isso pinta um quadro de que ação criminosa do imperialismo não teve assim tanta gravidade. Dito isso, qual deve ser a atitude da esquerda, deixar as coisas para lá?
O trecho alega que “uma confluência de fatores tornou possível o sequestro de Maduro. Sua fragilidade, tanto militar quanto como chefe de Estado, com apoio popular reduzido entre a população venezuelana”. Não esclarece e até falsifica o que realmente aconteceu. A falha na segurança de Maduro é evidente, mas o imperialismo tem feito operações assim, como no Oriente Médio, quando assassinou a cúpula do Hesbolá.
Não se pode esquecer que o imperialismo tem muitos recursos, seja em dinheiro, tecnologia, pessoal. Como Trump mesmo explicou, soldados britânicos estavam integrados na operação no Mar do Caribe.
Por outro lado, não é verdade que Maduro tenha um apoio reduzido, é exatamente o oposto. Na verdade, o apoio a Maduro e ao atual governo é ainda maior.
Investimentos
O texto tenta mostrar que a exploração do petróleo parece excessivamente dificultada pela necessidade de investimentos massivos em modernização. Mas existe um problema muito maior, as grandes petroleiras não sentem segurança em investir, pois não sentem segurança. Isso é resultado direto da ação do governo de armar a população e daquilo que foi dito acima: não houve mudanças no governo. A única maneira de se controlar o petróleo seria desembarcando tropas na Venezuela, mas isso teria um custo altíssimo em armas e vidas.
As acusações a Delcy Rodrigues na esquerda são de todos os tipos. Quando não é acusada de entreguista, de vender Maduro, de “submeter os venezuelanos a ajustes econômicos significantes”, aparece isso, de que conseguiu retomar um certo crescimento ao apoiar a classe capitalista doméstica. Crescimento que teria sido ao custo do aprofundamento das desigualdades sociais.
Críticas ao chavismo
Essa esquerda, por mais que se diga radical, repete aquilo que manda a imprensa burguesa, como se pode verificar no trecho que diz que “a natureza da ação dos EUA, bem como do regime autoritário que Maduro conduzia, faz com que a análise do que aconteceu na Venezuela tome a forma de uma intriga palaciana”.
Não é difícil analisar o que aconteceu na Venezuela, é a esquerda pequeno-burguesa que sente dificuldade em apoiar o chavismo, uma vez que está atrelada à ideologia burguesa. Essa esquerda só consegue pensar em termos de democracia burguesa.
Apesar da enorme adesão popular, de milhões de venezuelanos estarem armados e alistados nas milícias, o artigo diz que “nenhum dos atores atualmente em debate apresenta qualquer traço de legitimidade popular.”. Como um governo ilegítimo poderia armar seus cidadãos? Seria suicídio.
Esse texto do Esquerda Online, é mais um dos tantos exemplares da esquerda nem-nem: nem Trump, nem Maduro como se pode verificar no trecho que diz que “a esquerda internacional deve manter uma linha de solidariedade consistente com os venezuelanos, uma rejeição da intervenção dos EUA e uma oposição pública e crítica da repressão que os venezuelanos enfrentaram em seu país. Embora difícil, esta posição não é impossível: como a esquerda latino-americana demonstrou na última década, nos países onde a maioria dos venezuelanos que fugiram do colapso econômico catastrófico de seu país”.
O que seria “uma linha de solidariedade consistente”? Esse linguajar torto revela que não há solidariedade, pois ela deveria ser incondicional, dado que a Venezuela está sob ataque do imperialismo.
Achar difícil ser solidário com quem enfrenta o imperialismo não passa de capitulação e, finalmente, apoio a quem agride nossos irmãos no país vizinho.





