No dia 29 de dezembro de 2025, o Partido Tudeh do Irã, que reivindica ser o sucessor do partido comunista iraniano da primeira metade do século XX, publicou uma nota em apoio às manifestações que estão ocorrendo no país persa desde o final do mês passado.
No texto, o partido, opositor do governo revolucionário de Ali Khamenei, afirma que os atos “representam um novo começo para desafiar a tirania religioso-capitalista e libertar a pátria da privação da pobreza, da corrupção e do governo antipopular da República Islâmica”. Além disso, defendem uma frente ampla contra o governo:
“Continuamos a acreditar que todas as forças progressistas e amantes da liberdade no país, desde a esquerda e as forças nacionalistas até as nacional-religiosas, e as personalidades e forças que transcenderam a política de preservação do ‘sistema’ e do governo atual, devem trabalhar juntas para desempenhar um papel importante e eficaz na organização dos protestos em massa que ocorrem hoje no Irã.”
Leia o texto na íntegra:
Comunicado do Partido Tudeh do Irã: Os protestos populares generalizados representam um novo começo para desafiar a tirania religioso-capitalista e libertar a pátria da privação, da pobreza, da corrupção e do governo antipopular da República Islâmica!
O sistema político que governa nosso país, a monarquia absoluta de Ali Khamenei, é irreparável. Este governo, apoiando-se em extensas estruturas e ferramentas militares e de segurança, violou aberta e violentamente os direitos e poderes do povo de determinar seu próprio destino. Sem superar este regime de tirania religiosa e o domínio dos grandes capitalistas, não há esperança de melhorar a situação atual, aliviar as pressões econômicas, reduzir a pobreza e a privação, resolver a crise de escassez de eletricidade e água e pôr fim à onda violenta e sangrenta de repressão às liberdades e direitos democráticos. Este governo ditatorial não só levou o país e a sociedade iraniana à beira do colapso e da destruição, como também enfrentou o grave e repetido perigo de intervenção estrangeira e da substituição da tirania atual por outra forma corrupta de tirania e pelo domínio de servos do imperialismo americano e do governo genocida de Israel.
A experiência dos protestos populares na última década, especialmente os de janeiro de 2017 e novembro de 2019 e o grande levante popular “Mulheres, Vida, Liberdade” no outono de 1401, demonstra que, sem um esforço para organizar uma greve geral e universal e interromper o ciclo de atividades diárias do governo da República Islâmica, não é possível estabelecer bases objetivas e eficazes para a sua destituição. A solidariedade de diferentes segmentos da população, de trabalhadores, operários e aposentados a mulheres, estudantes, jovens e comerciantes, contra a política agressiva deste regime, e o esforço para organizar um movimento de protesto coordenado e em âmbito nacional podem abrir caminho para um desafio sério ao regime e para a realização de mudanças democráticas fundamentais. Nesse sentido, as massas nas fileiras do povo manifestante usarão toda a sua força e experiência para expandir e dar continuidade aos movimentos de protesto, transformando-os em um movimento amplo e popular.
Continuamos a acreditar que todas as forças progressistas e amantes da liberdade no país, desde a esquerda e as forças nacionalistas até as nacional-religiosas, e as personalidades e forças que transcenderam a política de preservação do “sistema” e do governo atual, devem trabalhar juntas para desempenhar um papel importante e eficaz na organização dos protestos em massa que ocorrem hoje no Irã.
Partido Tudeh do Irã
29 de dezembro de 2025
Com o desenvolvimento da situação no país, o mesmo partido publicou nova nota em 8 de janeiro. No texto, a organização mantém sua tese de que as manifestações no Irã são fruto da situação econômica do país e alegam que os atos não são financiados e organizados por potências imperialistas. Tratando-se, portanto, de um movimento completamente popular:
“Essa insurreição popular, ao contrário das alegações do ditador no poder, não é um movimento fabricado pelo imperialismo dos Estados Unidos e pelo regime genocida de Israel, mas sim o resultado direto das políticas econômicas catastróficas do capitalismo monopolista dominante e da corrupção, insegurança e opressão generalizada impostas ao povo pelos líderes do regime e seus aliados.”
Ao final, o partido define sua política em relação aos atos por meio das seguintes palavras de ordem:
“Vivas e amplas sejam as lutas populares contra o governo da República Islâmica, contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a repressão!
Forças militares e policiais, vocês fazem parte do povo deste país: juntem-se à luta do povo contra o governo despótico!
Ponham fim à repressão sangrenta e violenta contra o povo manifestante!
Atacar centros de saúde e hospitais é um crime contra a humanidade; interrompam esses ataques!
Todos os detidos do movimento, bem como todos os prisioneiros políticos, ideológicos e civis, devem ser libertados imediata e incondicionalmente!
Avante rumo à preparação e organização da greve geral nacional!”
Em primeiro lugar, é preciso dizer que a posição do Tudeh é completamente descolada da realidade. É fato que as manifestações foram iniciadas, em dezembro, por comerciantes indignados com a situação econômica do país, resultado do bloqueio imposto pelo imperialismo contra o Irã. No entanto, o imperialismo e os serviços de inteligência de países como Estados Unidos e “Israel” estão utilizando estes atos para desestabilizar o regime, transformando as manifestações em manifestações “anti-Khamenei”.
O próprio governo reconhece isso e já afirmou, por meio de várias figuras de alto escalão, inclusive por meio do próprio Ali Khamenei, que considera as manifestações dos comerciantes legítimas. Reprimindo somente aqueles que estão sendo direcionados pelo imperialismo para destruir o país.
Outra demonstração disso é como os manifestantes “anti-Khamenei” agem. Até o momento, já assassinaram dezenas de policiais, demonstração de que estão sendo preparados para entrar em confronto com guardas armados. E o mesmo, diga-se de passagem, que aconteceu na Ucrânia durante o Euromaidan, o principal exemplo de como o imperialismo organiza uma revolução colorida.
Partindo dessa avaliação, fica claro que os “comunistas” iranianos utilizam sua política delirante para justificar o apoio à desestabilização de seu próprio país em meio a uma ofensiva que pode, inclusive, resultar em intervenção militar estrangeira. Uma atuação completamente lesa-pátria e pró-imperialista que diverge completamente do que pensam os trabalhadores. Não é à toa que dezenas de milhares de iranianos atenderam ao chamado do governo e foram às ruas declarar apoio à República Islâmica e rechaço aos atos imperialistas.
A resposta do governo a esse tipo de coisa precisar ser duríssima, truculenta. Se trata de uma violação dos direitos democráticos da população? Sim, mas fato é que o Irã está em guerra, uma guerra com uma entidade muito mais poderosa do que o país, que é o imperialismo. O Brasil, por outro lado, não. Portanto, não há motivo para autorizar a censura, a supressão do direito de organização etc.
O Irã vive um regime de exceção, está sendo atacado por uma força estrangeira. Nessa situação, é inadmissível que exista um partido que apoie a agressão imperialista contra o próprio país, um partido que defende o estrangeiro, mesmo que sob o pretexto de defender a mobilização do povo — o que, como foi visto, é uma farsa.
Tomar esse tipo de decisão é fortalecer a luta contra o imperialismo. Diante de uma agressão como a qual o Irã sofre, problemas como esse não dizem respeito às ideias normais sobre liberdade de organização, manifestação, expressão etc. Mas sim sobre a sobrevivência do país e da própria população diante de uma força que quer massacrar o povo iraniano e tudo aquilo que ele conquistou desde a gloriosa Revolução Iraniana de 1979.





