Polêmica

‘Ditadura teocrática’ é o Estado de ‘Israel’

Colunista do Brasil 247 repete propaganda imperialista contra o Irã em meio a ataques contra o país e infiltração por parte do imperialismo e de "Israel"

Na última segunda-feira (12), o colunista do Brasil 247 Oliveiros Marques escreveu uma matéria intitulada Precisamos falar sobre o Irã, na qual repete parte da propaganda imperialista contra o país.

O texto trata o país persa como se o que estivesse acontecendo ali não exigisse medidas excepcionais diante da agressão imperialista, apesar de reconhecer que os protestos são influenciados pelo imperialismo, procurando julgar as ações iranianas de forma moral:

Falar sobre o Irã hoje não é um exercício acadêmico distante; é uma exigência política e moral. Qualificar o regime iraniano é condição básica para compreender a profundidade da insatisfação popular que se manifesta nas ruas, apesar da repressão, e para condenar com clareza as violações sistemáticas de direitos humanos que se intensificam diante de qualquer contestação interna.

É interessante que o parágrafo acima e o restante do texto não mencionam em momento algum o apoio que a República Islâmica do Irã recebe nas ruas, muito maior, inclusive, do que os protestos de insatisfação. O texto também não cita em momento algum quais seriam as origens dos protestos, que muitos dizem ter começado por questões econômicas, contando com pessoas que, inclusive, apoiam o regime.

A “qualificação” do regime político também não poderia estar mais longe da realidade:

A República Islâmica nasceu de um movimento popular em 1979, é verdade, mas consolidou-se como um regime teocrático rígido, onde o voto existe sob tutela religiosa, a dissidência é criminalizada e a vida privada é objeto de vigilância estatal. Mulheres, jovens, minorias étnicas e opositores políticos pagam o preço mais alto de um sistema que confunde fé com coerção e soberania com silenciamento. Não se trata de relativizar culturas, mas de reconhecer que há um Estado que responde à crítica com violência, prisões arbitrárias e mortes.

É interessante notar que este Diário encontrou quatro matérias de Oliveiros Marques sobre o genocídio na Palestina. Em nenhuma delas “Israel” foi tachado de “regime teocrático rígido”, apesar de se tratar de um regime teocrático. No entanto, enquanto no Irã, sob as leis islâmicas xiitas, as demais religiões são aceitas e até protegidas, com o país contando, inclusive, com destacamentos militares de outras religiões que não as islâmicas, como são os casos de destacamentos militares judeus iranianos, em “Israel” o que existe de fato é o supremacismo judeu, impedindo que islâmicos, cristãos e membros de outras religiões se manifestem.

Fora isso, também não é verdade que no começo da revolução o país era menos rígido e que evoluiu para a coerção conforme o tempo. O que acontece é, inclusive, o contrário em relação aos costumes. O antigo regime do Xá, um regime fascista apoiado pelo imperialismo, era associado às práticas culturais liberais dos países europeus, o que passou a ser visto com maus olhos pela população. É preciso lembrar que, como o próprio autor disse, o país passou por uma revolução em 1979, que derrubou o antigo regime.

Em uma revolução, as massas tomam conta do país e passam a dirigir seu destino. Ora, se a maioria esmagadora do país preferiu um regime fundamentado em leis religiosas, em um momento de grande efervescência política e de participação das massas no controle do país, é evidente que não se trata de mera opressão contra a população, mas de uma escolha.

Uma das principais propagandas contra os países islâmicos por parte do imperialismo é o uso do véu por parte das mulheres, por exemplo. O que é tomado como imposição, na realidade, não passa de parte da cultura desses povos e de um exagero por parte da propaganda.

Hoje, quem visita o Irã diz que é comum encontrar mulheres caminhando sem o véu por Teerã. Da mesma forma, vídeos com jovens sem o véu são facilmente encontrados na Internet, o que demonstra que não existe esse tipo de perseguição e que o sentimento que ligava a cultura ocidental pura e simples ao imperialismo diminuiu com o tempo, com a população percebendo que o problema não era cultural simplesmente.

O autor também cita que minorias étnicas seriam perseguidas no país e que o Estado comete assassinatos arbitrários, o que não passa de mentiras.

Houve realmente execuções, mas, não se trata de repressão à população iraniana, mas sim, à infiltração imperialista ao país. São inúmeros os vídeos publicados pelo Irã mostrando como o Estado estava capturando e descobrindo células do Mossad, o órgão de inteligência de “Israel”, atuando em território iraniano e participando das manifestações.

Nos últimos dois anos, vimos o que “Israel” é capaz de fazer contra mulheres, crianças e idosos e toda ação do Irã contra esse tipo de infiltração deve ser apoiada. Do contrário, estaríamos apoiando manifestações de assassinos de mulheres e crianças sob o pretexto de defender os direitos das mulheres, o que não faz sentido algum.

Nos parágrafos a seguir, o colunista admite a influência dos EUA no Irã:

Ao mesmo tempo, é intelectualmente desonesto analisar a crise iraniana como se ela fosse inteiramente endógena. Não é possível descartar a influência norte-americana – direta ou indireta – no ambiente que cerca os protestos atuais. Os Estados Unidos perderam no Irã, em 1979, um de seus principais aliados no Oriente Médio, peça-chave para seus interesses energéticos, militares e de contenção regional. Essa derrota moldou décadas de hostilidade e estratégias de pressão contínua.

Nesse contexto, chama atenção o fato de que Reza Pahlavi, filho do xá deposto pela Revolução Islâmica de 79 e então um grande aliado norte-americano, reapareça como uma das principais figuras da oposição no exílio, com trânsito em capitais ocidentais e visibilidade midiática. Isso não significa que os protestos sejam “fabricados” unicamente do exterior – eles nascem, majoritariamente, de dores reais e internas. Mas também não permite ignorar a possibilidade de estímulos externos a antigos aliados do período pré-1979, como parte de uma lógica de revanche histórica e reposicionamento estratégico.”

Apesar de focar apenas nos EUA, o problema se estende a todo o imperialismo de conjunto e a “Israel”, que nada mais é do que a colonização da Palestina pelo imperialismo.

No entanto, o autor analisa esse problema como sendo parte da crise iraniana, quando na realidade é a única coisa que realmente importa, já que, apesar de se tratar de um país atrasado, a economia iraniana só está realmente ruim por conta das sanções econômicas que o país enfrenta. Dito isso, dizer que a agressão imperialista é parte do problema e não o problema em si, é o mesmo que vem fazendo a imprensa brasileira há décadas com Cuba e há menos tempo com a Venezuela, como quando dizem que ambos os regimes usam os embargos como desculpa.

O colunista também não entende a importância do Irã nos dias de hoje em relação à luta contra o imperialismo, além de não perceber como todo o imperialismo é prejudicial para os povos da região do Oriente Médio:

O Irã segue sendo central para os interesses norte-americanos na região: controla o Estreito de Ormuz – por onde passa 20% da produção mundial de petróleo -, influencia conflitos no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen, e ocupa lugar-chave no tabuleiro energético global. Seria ingenuidade imaginar que os EUA tratariam um país com esse peso apenas como espectador. A disputa geopolítica existe e atravessa a crise interna iraniana, ainda que não a explique por completo.

Segundo Oliveiros Marques, o Irã “influencia conflitos” em países como Iraque, Síria, Líbano e Iêmen, quando, na realidade, o que o Irã faz é ajudar a organizar todos os movimentos revolucionários da região contra o imperialismo, principalmente contra os EUA e contra “Israel”.

Sendo assim, por organizar todo o Eixo da Resistência, as únicas forças que combateram contra “Israel” durante o genocídio na Palestina, o Irã se transforma no país com a principal força revolucionária e progressista do mundo, mas é retratado como reacionário por grande parte da esquerda que não consegue sequer organizar uma pequena manifestação.

O texto ainda possui parágrafos interessantes:

Diante disso, o mundo precisa assumir uma posição clara e coerente: condenar com firmeza a violência praticada pelo regime iraniano contra sua própria população, sem cinismo seletivo. A defesa dos direitos humanos não pode ser instrumentalizada nem silenciada conforme conveniências estratégicas. O mesmo rigor exigido em relação ao Irã deve valer para violações cometidas em outros países do mundo – inclusive, e de forma dramática, em diversas nações do continente africano, frequentemente esquecidas pelo debate global.

O cinismo, na realidade, está em pedir a normalidade a um país que está em conflito com o imperialismo, o único além do Iêmen a lutar contra “Israel” de armas na mão e que enfrenta sanções econômicas que impedem seu desenvolvimento.

E, por fim:

Precisamos falar sobre o Irã porque o silêncio favorece a repressão, a simplificação favorece a propaganda e a hipocrisia enfraquece a própria ideia de direitos humanos universais. Falar é o primeiro passo para não sermos cúmplices – nem da violência interna, nem dos jogos externos que se aproveitam dela.

Esse texto vem exatamente quando uma possível guerra do imperialismo contra o Irã pode acontecer. É um texto cumplice da agressão imperialista, que cede à propaganda contra um país oprimido que organiza a resistência da região tanto contra o imperialismo, quanto contra “Israel”.

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