O artigo Anti-imperialismo virou pó na Venezuela, de Pablo Ortellado, publicado em O Globo nesta sexta-feira (9), tenta fazer seu leitor crer que uma operação militar criminosa do imperialismo tenha desfeito o ímpeto do governo e do povo venezuelano em se opor às ingerências estrangeiras. Trata-se de uma versão completamente fantasiosa dos fatos.
Logo de início, Ortellado afirma que “um dos aspectos mais surpreendentes da intervenção americana na Venezuela é a maneira resignada com que as elites do país se submeteram ao governo Trump, depois de quase 30 anos de retórica anti-imperialista”. Ocorre que “as elites venezuelanas” são abertamente imperialistas. Seu exemplo mais bem acabado é María Corina Machado, cuja família é fundadora da Sivensa (Siderúrgica Venezolana), que já foi uma das maiores empresas privadas do país.
Poderíamos citar outros nomes, como o de Henrique Capriles Radonski, de uma das famílias mais ricas da Venezuela, ferrenho opositor e abertamente pró-imperialista. Talvez por desconhecimento, ou malícia, Ortellado confunde “as elites” com os governantes.
Ainda no primeiro parágrafo, o articulista diz que “o governo em exercício de Delcy Rodríguez tenta manter as aparências de soberania, e as milícias de Diosdado Cabello seguem aterrorizando os dissidentes, mas, a cada oportunidade, Trump faz questão de deixar claro que mantém controle total. Se o discurso anti-imperialista não se traduz em resistência, qual seria então sua função?”.
É mentira que dissidentes sejam aterrorizados. Na verdade, os chavistas estão sendo muito condescendentes com essas pessoas e grupos que jogam abertamente contra o país. Basta ver o que fez Juan Guaidó, que deveria ter sido preso.
Durante seu artigo, Ortellado não demonstra o porquê de sua afirmação, de que o governo tente manter uma aparência de soberania. Trump diz que tem controle total da Venezuela, até se autoproclamou presidente interino, parece que roubou o cargo de Guaidó. Não é porque Trump diga algo que a coisa se materialize. O imperialismo sequestrou o presidente Nicolás Maduro, mas o governo permanece basicamente o mesmo. Não foi substituída a burocracia estatal, nem foram trocados juízes, de modo que o tal controle não se concretizou.
Apenas retórica?
Adiante, em seu artigo, Ortellado diz que “a História recente da Venezuela está atravessada por esse anti-imperialismo. Os discursos de Chávez e Maduro sempre demonizaram os Estados Unidos e atribuíram os muitos problemas sociais do país ao embargo e às sanções americanas”. Escreve como se os embargos não produzissem efeitos extremamente negativos na economia. Chávez e Maduro não estavam apenas dando uma desculpa, mas responsabilizando quem deve ser responsabilizado.
As sanções econômicas provocam danos e o principal alvo é a população. A desculpa que o imperialismo utiliza para justificar esse crime é a de que a sanção serviria para o povo se revoltar contra o governo e tentar substituí-lo.
Quando se analisa os efeitos de atos como o impedimento da compra de remédios, vê-se a realidade: as sanções são um genocídio disfarçado. No Iraque, por exemplo, o bloqueio econômico provocou a morte de meio milhão de crianças. Uma monstruosidade que Madeleine Allbright disse ter sido um preço justo a ser pago.
O articulista também escreve que “o Exército há anos se organiza para enfrentar as forças americanas. A Lei da Força Armada Nacional Bolivariana (2020) se apresenta como fundada no anti-imperialismo, na tradição de resistência e na união cívico-militar”. Será que apenas “se apresenta como”? O governo formou uma milícia com muitos milhões de cidadãos e o exército os treinou e vem treinando. Não se trata apenas de conversa.
Segundo Ortellado, “apesar de todo esse aparato institucional e ideológico, a mera pressão dos porta-aviões americanos e o sequestro de Nicolás Maduro foram suficientes para dobrar a elite política do país e, na prática, para rapidamente abrir o mercado de exploração de petróleo aos Estados Unidos e indenizar as empresas expropriadas por Chávez”. Ou seja, assim como Trump, o articulista enuncia palavras e espera que elas se realizem.
O governo não se dobrou, e muito menos o mercado de petróleo teria sido aberto para os EUA, que já se dispuseram a comprar o produto pelo preço de mercado. No dia 9, exatamente no dia em que Ortellado publicou seu texto, o CEO da ExxonMobil, Darren Woods, afirmou categoricamente que a Venezuela é “não investível” (uninvestable) sob as condições atuais.
Desinformação
Cumprindo seu papel de desinformar, Ortellado escreve que “olhando retrospectivamente, a retórica anti-imperialista parece ter tido mais o papel de manter a coesão interna e justificar a repressão aos dissidentes do que de efetivamente preparar a defesa nacional”. Se fosse apenas retórica, não haveria milícias populares. E quanto a “repressão aos dissidentes”, meliantes, como Juan Guaidó, agiram quase que livremente, e há inúmeros empresários, meios de comunicação que são inimigos declarados do próprio país e agem em prol do imperialismo.
Ortellado também culpa a vítima. Para ele, “o mesmo parece ter acontecido com a retórica de combate à pobreza e às desigualdades, que também cumpre a função de demonizar os adversários, sem que tenha qualquer substância”, o articulista minimiza, esconde, que a pobreza é, sim, fruto do bloqueio econômico.
Em seguida, lê-se que “embora a Venezuela há muitos anos não produza certas estatísticas, podemos ver naquelas disponíveis que o país tem regredido a níveis anteriores ao chavismo em mortalidade infantil, PIB per capita e desigualdade, enquanto países vizinhos avançam”. O que o autor não diz é que o período anterior ao chavismo era o governo Andrés Pérez, sustentado pelo imperialismo, que mamava as riquezas venezuelanas enquanto o povo mergulhava na pior miséria.
Pablo Ortellado atesta que “a pobreza e a desigualdade crescentes não parecem abalar o discurso socialista”. E que “talvez o mesmo possa ser dito da retórica democrática que segue falando em ampliação e participação popular enquanto políticos de oposição são cassados, jornais e TVs seguem fechados, e dissidentes são rotineiramente presos e torturados”. Seu texto joga o custo da pobreza para o socialismo, não para o bloqueio. E, ainda por cima, acusa o governo de ser uma ditadura.
O que o articulista não vai conseguir explicar, para além de suas mentiras, é como um país que arma sua população seja taxado como ditadura, enquanto aquele que impede a compra de remédios, seringas descartáveis, e executa pessoas sumariamente com bombas e mísseis, seja considerado uma democracia.





