Polêmica

O ‘antitrumpismo’ que o imperialismo gosta

Colunista do Brasil 247 aponta que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela destoa da prática tradicional do país, e ocorreria apenas em função de Donald Trump, uma farsa total

No último sábado, dia 10 de janeiro, o Brasil 247 publicou uma coluna assinada pela advogada Elisabeth Lopes, com o título O imperialismo em declínio e a tirania de um autocrata violador de soberanias. No início do texto, ela diz:

A ofensiva recente dos Estados Unidos contra a Venezuela expõe, sem disfarces, a permanência de uma lógica imperial que insiste em se impor sobre a soberania dos povos latino-americanos. Sob o comando de Donald Trump e amparada por velhas doutrinas recicladas à moda trumpista, essa política externa volta a tratar a América Latina como zona de tutela, onde a força, a ameaça e a exploração de recursos se apresentam como instrumentos legítimos de poder.

É fundamental, na situação de profunda crise em que nos encontramos, desfazer esse tipo de confusão. A autora aponta como se tivesse havido, em algum momento, um fim da política de dominação imperialista dos EUA sobre a América Latina, o que é uma farsa completa, que alguém apenas no nível mais profundo de ignorância política poderia proferir. O golpe de 2016 é demonstrativo disso, a prisão de Lula em 2018 e a fraude naquela eleição também. Aquele golpe, iniciado no Brasil com os processos farsa do Mensalão e depois da Lava Jato, foi todo organizado pela ala tradicional do imperialismo, quando o governo dos EUA estava sob o controle de Barack Obama.

Não apenas isso, mas aquela ofensiva golpista que se repetiu em vários países, foi iniciada em 2009 em Honduras, passando por Equador, Bolívia, Venezuela (onde fracassou), Argentina, etc. Assim sendo, não há “velhas doutrinas”, nem “volta a tratar a AL como zona de tutela”. A América Latina nunca deixou de ser tratada como zona de tutela pelos EUA, sendo a afirmação em contrário uma tentativa farsesca de atribuir um excepcionalismo a Trump com tal significado.

Indo além na capitulação ao imperialismo, Elisabeth afirma:

O episódio venezuelano, longe de ser um fato isolado, sinaliza um precedente grave e perigoso para toda a região. Essa mesma mentalidade expansionista e autoritária, contudo, não se restringe ao Sul Global. A ameaça de anexação da Groenlândia “por bem ou por mal”, anunciada por Trump, provoca alarme na Europa e coloca em risco a aliança que garante a proteção do continente desde a Segunda Guerra Mundial, revelando que o unilateralismo norte-americano está disposto a tensionar até mesmo parceiros históricos.

Novamente ela repete que a política imperialista seria fruto de “mentalidade” de Trump, o que é uma farsa, mas a autora vai além: ela passa a defender a OTAN, uma aliança militar imperialista contra os povos do mundo, como a que “garante a proteção da Europa”. Ora, proteção de quem? Da Rússia?

A Rússia viu tentativas de golpe por parte do imperialismo nos países que rodeiam quase toda a sua fronteira, o que inclui e teve sucesso na Ucrânia. A ameaça de colocar mísseis nucleares apontados para Moscou no país, e a detecção de uma série de laboratórios para o desenvolvimento de armas biológicas próximos à fronteira russa após a deflagração da Operação Militar Especial; o genocídio da população russófona no Donbas desde o golpe de 2014; e outras medidas de agressão, demonstram que a OTAN nada mais fez que plantar uma guerra. Não houve jamais uma única manobra defensiva levada adiante pela aliança, trata-se de um agrupamento para a tutela da política global pelo imperialismo. O que há é um sintoma da profunda crise em que o imperialismo se encontra, sendo forçado a se canibalizar.

Nesse sentido, Trump estende suas garras imperialistas de forma ilícita, recorrendo à repetição contumaz de argumentos ilegítimos que jamais justificaram as investidas do poderio bélico norte-americano contra países que pretende submeter a seus interesses geopolíticos estratégicos.

Aqui dois sentidos podem ser depreendidos, de todo modo, escolhemos pela explicação. Justificativas esdrúxulas sempre fizeram parte do arsenal de propaganda imperialista. Sejam as supostas armas de destruição em massa para invadir o Iraque, o ataque às torres gêmeas para invadir o Afeganistão, entre uma série gigantesca de outros pontos, como ataques de bandeira falsa e etc., não há nada de novo, exceto pela franqueza da coisa, o que é um sinal em primeiro lugar da contradição presente na relação de Donald Trump com a política imperialista, cujas ações levam a uma crise extraordinária.

É interessante pois a autora ao mesmo tempo em que denuncia a ingerência do imperialismo sobre os países atrasados, busca jogar tudo nas costas de Trump, ou seja, busca acobertar os crimes do próprio imperialismo:

Trump em sua prepotência impulsionada por um imperialismo decadente ameaça os países, que sem o poderio bélico americano correm risco de serem vilipendiados em suas soberanias. Qualquer país “do hemisfério de Trump” que ousar não estar alinhado aos interesses de domínio estratégico dos EUA poderá sentir suas garras afiadas.

E a derrubada de Dilma Rousseff?!

E as sucessivas tentativas de golpe na Venezuela? E as sanções internacionais? Tudo é obra de Trump? Chega a ser ridículo.

A colunista se propõe também a comentar sobre a trajetória política e o papel de Marco Rubio. Sobre seu papel no governo Trump, afirma a colunista:

Rubio serve a esse projeto sem constrangimento, como se a submissão fosse o preço a pagar por um lugar provisório na elite imperial.

E segue:

Movido por um ressentimento profundo em relação a Cuba, Rubio foi responsável por reverter a decisão do governo Joe Biden que havia retirado Cuba de uma lista elaborada pelos Estados Unidos de países que, segundo Washington, não contribuem no combate ao terrorismo. A inclusão nessa lista funciona, na prática, como um álibi político para a imposição e manutenção de sanções contra o país caribenho.

As conclusões da autora são um verdadeiro lixo político. Marco Rubio é o secretário de Estado dos EUA, um homem forte do imperialismo. Ele está lá justamente para controlar os presidentes, que de uma forma ou de outra passam pelo crivo eleitoral. O papel que Rubio ocupa talvez seja o segundo mais importante nos EUA, e supor que ele o tenha ganho por motivos psicológicos, descartando a política, é absurdo. Rubio está no governo Trump para alinhá-lo com a política imperialista. É nesse sentido quase um infiltrado no governo, tendo em vista que Trump se elegeu contra a política de intervenções no estrangeiro, especialmente de guerras.

No caso Biden a coisa é semelhante. Biden, apesar de um homem de fato do imperialismo, já era um senhor com demência que mal se orientava nos principais eventos diplomáticos internacionais. É óbvio que não seria deixado sem controle. A questão na realidade demonstra a força do chamado establishment, do aparato de Estado, do imperialismo, no governo, independente de quem vença a eleição. E é essa dominação quase absoluta do imperialismo que é encoberta pela argumentação da colunista.

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