Polêmica

Se é para tratar eleitor como gado, não precisa haver esquerda

Jornalista tenta aconselhar Lula para que este vença as eleições no primeiro turno. No entanto, o jogo mal começou, a burguesia virá atacar

Urna Eletrônica

O artigo Duas balas de prata que podem fazer Lula vencer no primeiro turno, de Miguel do Rosário, publicado no Brasil 247 neste sábado (10), mostra que nada movimenta mais a esquerda pequeno-burguesa brasileira do que a proximidade de eleições.

Segundo o artigo, o governo Lula precisaria fazer três correções de rota. Focar na “segurança pública”, na “energia” e na “mobilidade urbana”.

A primeira, para Miguel do Rosário, já está em andamento com a criação de um ministério e a aprovação de uma PEC sobre o tema”.

Ocorre que a tal “segurança pública” é uma demanda da burguesia e da classe média. A direita sabe disso e a resposta é sempre a mesma: aumentar a repressão e matar o maior número possível de pessoas nos bairros pobres e nas favelas.

Quando se aproximam as eleições, as ruas ficam cheias de policiais para que se tenha a ilusão de que a “segurança” aumentou.

A esquerda, que deveria saber que essa questão só se resolve com a diminuição ou fim das desigualdades sociais, entra no jogo, mas tenta se diferenciar dizendo que é preciso mais inteligência, integração das polícias e blá-blá-blá.

A esquerda pequeno-burguesa, especialmente esta influenciada pelo identitarismo, falhou miseravelmente em suas propostas, que podem ser resumidas com a invenção de novos crimes e o aumento de penas. Na questão do “feminicídio”, por exemplo, que é um homicídio com agravante, não apenas não se diminuiu o assassinato de mulheres, como o número aumentou. Qual lição essa gente tira disso? Nenhuma. E ainda quer aumentar penas para 40 anos de prisão e outras que correspondem virtualmente à prisão perpétua.

Tentar concorrer com a direita na questão da “segurança pública” é inútil, pois essa gente está há muito mais tempo nisso e joga melhor o jogo.

Energia e mobilidade

Segundo Rosário, energia e mobilidade são “são determinantes para a eleição deste ano e para o futuro do país”. Por quê? A explicação é insuficiente.

O articulista diz que “o Brasil vem aumentando a participação da energia solar na matriz elétrica nacional. Mas o governo cometeu um erro incompreensível ao instituir um sistema de cotas para a importação de módulos fotovoltaicos”. Talvez não seja apenas coincidência que os Estados Unidos também estão boicotando o quanto podem a implementação de energia solar no país para não favorecer a China

Rosário explica que “a regra é simples: uma quantidade limitada de painéis pode ser importada com imposto zero. O que ultrapassa esse limite, paga 25% de imposto de importação”. E que o anúncio da nova regra, no final de 2024, gerou uma corrida de importadores, que esgotaram a faixa de isenção em dezembro, seis meses antes do previsto. Com isso, todo o primeiro semestre de 2025 ficou sem cota disponível, e mais da metade (57,6%) de todas as importações de 2025 pagou a tarifa cheia.

A energia solar não está ao alcance da classe trabalhadora, como diz o artigo, a instalação de um sistema fotovoltaico, que custa em média R$ 20 mil”. E o preço das placas fotovoltaicas estão disparando. “Uma placa de 550W, que em janeiro de 2025 custava entre R$ 650 e R$ 750, hoje, em janeiro de 2026, já está entre R$ 750 e R$ 860. A previsão é que chegue a R$ 975 até julho, um aumento acumulado de quase 30%”.

Esse sistema está definitivamente fora do alcance da grande maioria dos brasileiros. Então, é preciso perguntar: Po que isso seria determinante para as próximas eleições?

Transportes

Para o articulista, o governo deveria investir em transporte sobre trilhos o que ele chama de “mentalidade rodoviarista”. Segundo sustenta, “uma esquerda que não vê a importância do transporte sobre trilhos para transformar a vida das pessoas está se alienando da realidade. O povo está exausto. Uma pesquisa Datafolha de dezembro de 2025 revelou que 61 milhões de brasileiros sentiram cansaço ou esgotamento mental de forma constante”.

É verdade que o brasileiro anda exausto física e mentalmente, e que parte disso se deve ao tempo que passa em transporte público.

Para quem está pensando em obras para conseguir votos, como a direita costuma fazer, é um pouco tarde. Construir ferrovias, metrôs, tudo isso demanda tempo e não vai aparecer no prazo necessário.

Há outro fator que Miguel do Rosário se esqueceu e é muito importante: a verba. O Congresso vai vetar todo tipo de verba neste ano eleitoral.

Mesmo que o Congresso não fizesse nada, como investir se metade do orçamento público vai parar nas mãos dos banqueiros?

O governo Lula nem mesmo tentou pegar de volta o Banco Central das garras do sistema financeiro e o país amarga juros de 15% ao ano, de modo que a dívida pública só faz aumentar. Os investimentos públicos estão a cada dia mais distantes no horizonte.

Eleições

Miguel do Rosário está pensando em Lula vencendo no primeiro turno, mas a verdade que tem muita água para rolar.

A burguesia já conseguiu tirar Jair Bolsonaro da frente, ficou faltando Lula, que deverá sofrer todo tipo de perseguição, especialmente na grande imprensa.

O plano do grande capital consiste em eleger um presidente que liquide com a economia, uma espécie de Milei, mas candidatos como Lula e Bolsonaro não podem cumprir esse papel, uma vez estão limitados por suas bases sociais.

As duas primeiras propostas do articulista correspondem principalmente à classe média; apenas a última contempla a classe trabalhadora que deveria ser a prioridade. Ao que tudo indica, existe uma mudança na base social do PT que tenta disputar os setores médios da burguesia com o bolsonarismo.

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