Nesta semana, repercutiu na imprensa internacional a investigação realizada pelo veículo Drop Site News acerca da Canary Mission. A investigação teria obtido mais de 100 gigabytes de dados, revelando uma operação criminosa pró-“Israel” extensa e profissionalizada.
O que é o Drop Site News?
O Drop Site News foi fundado em 2024 como um veículo de notícias sem fins lucrativos por três ex-colegas do The Intercept, Ryan Grim, Jeremy Scahill e Nausicaa Renner. Segundo Grim, a imprensa alternativa seria importante para “desmascarar a desinformação que muitas vezes não é contestada pelo jornalismo corporativo”.
Uma entrevista de Scahill com as autoridades do Hamas, publicada pela Democracy Now! na rede social Instagram, foi censurada sob o pretexto de conter “símbolos, elogios ou apoio, a pessoas e organizações que definimos como perigosas”.
Foi para Drop Site News que o jornalista palestino Hossam Shabat trabalhou como correspondente no norte da Faixa de Gaza, antes de ser assassinado por “Israel” em março de 2025. Entre os jornalistas do site constam Grim, Scahill, Renner, Sharif Abdel Kouddous e Murtaza Hussain.
O que a investigação encontrou?
A equipe do Drop Site News encontrou uma intranet com centenas de sites e sistemas de gerenciamento de conteúdo pró-“Israel” utilizados pela Canary Mission. A operação ampla contava com diversos grupos, um destes era o responsável pelo site BlackNest, hospedado em uma URL de intranet chamado Kaloustropous, que pode ser traduzido do grego como “boas maneiras”.
Essa operação de conteúdo é dividida em quatro frentes: perfis, editorial, reportagens e mídias sociais. O impacto de suas ações era categorizado (“autodeportação”, “ICE” em referência dupla de rap britânica Bob Vylan, entre outros) e dimensionado mediante eventos externos como prisões dos alvos.
Com metas diárias e estrutura profissional, setores como o de mídias sociais tinham metas de postagens diária por campanha. O setor de perfis, por sua vez, tinha a meta de criar 150 novos perfis por semana.
A estratégia do “doxxing”
A divisão de perfis basicamente identificava manifestantes contrários ao sionismo, confeccionando perfis com dados pessoais dos mesmos. Estes eram divulgados, utilizados em campanhas de ódio ou repassados aos financiadores.
Um exemplo foi o caso da estudante Layla Sayed:
“Ao visitar o site da Canary Mission, Sayed descobriu uma foto do protesto de 16 de outubro na Universidade da Pensilvânia, onde setas vermelhas a destacavam entre os manifestantes. A publicação continha seu nome, as duas cidades onde reside, informações sobre seus estudos e links para seus perfis nas redes sociais” Por Al Mayadeen.
Um dos expediente utilizados nessa operação era a criação de contas falsas nas redes sociais para monitorar, capturar telas e arquivar informações sobre ativistas pró-Palestina.
O Drop Site News chegou a identificar “Alex Ben Carson” que consta nos registros da Megamot Shalom por receber US$ 80.000 (aproximadamente R$ 429.768,00) como redator de conteúdo em 2022. Questionado sobre postagem e trabalho, o mesmo não se manifestou.
O que é a Canary Mission?
A Canary Mission é um dos mais importantes e antigos grupos pró-“Israel”. Sua atuação na campanha sionista perseguindo os opositores do regime fascista se intensificou após a Operação Dilúvio de Al-Aqsa em 7 de outubro de 2023. Apontando como uma das principais ferramentas do assédio sionista nos EUA.
O site mantém anonimato, com identidades dos operadores, localizações e fontes de financiamento em segredo. Somente nos EUA o site perseguiu mais de 250 estudantes e acadêmicos por apoiarem “o terrorismo ou disseminarem antissemitismo e ódio contra Israel”.
Além de realizarem uma perseguição profissional aos denunciantes do genocídio na Palestina. Para Canary Mission e seus apoiadores, lista informações acadêmicas e de empregadores dos indivíduos que perfila, insta seus seguidores a garantir que “os radicais de hoje não sejam os funcionários de amanhã”.
Campanhas políticas
Obviamente, a influência desse grupo transpassa o cenário político norte-americano. Eles criaram um slogan específico para as postagens sobre o prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani: “Um voto em Mamdani é um voto pelo caos em Nova York”.
Registradas como conquistas, essas campanhas são amplas, outra afirma: “O senador John Fetterman recebeu nosso relatório da Filadélfia de diversas fontes”.
Essas campanhas políticas também mantinham seu foco em instituições como as universidades, onde a tendência à mobilização dos estudantes era evidente. Há registro de um cronograma de campanha menciona alvos futuros, incluindo o MIT, a Universidade do Novo México e “Harvard (Campanha Principal)”. Aparentemente o chamado “relatório da Filadélfia” corresponde a uma publicação da Canary Mission intitulada “A Rede de Ódio da Filadélfia”, lançada em junho de 2025.
Se o sionismo não consegue rebater a crítica, ataca o crítico
Foi constatado no material haver um planejamento estratégico com valores e definição de objetivos a longo prazo. Seus supostos valores fundamentais seriam: daas torah (conhecimento da Torá), integridade, paixão pela causa, anonimato, ser um “jogador de equipe sem ego” e rosh gadol (visão geral), uma gíria hebraica para “enxergar o panorama”.
O objetivo seria “combater aqueles que odeiam o povo judeu”, enquanto define seu nicho como “desmantelar a rede anti-Israel atacando o mensageiro, não a mensagem” (grifo nosso).
Desta forma, sem se preocupar em rebate as críticas, o grupo seguiu perseguindo os opositores. Conseguindo, entre 2021 e 2024, identificar seus principais opositores nos EUA intitulados como os “7 principais: AMP, SJP, INN, JVP, CAIR, WOL, FJP”, em referência a grupos estudantis e organizações sem fins lucrativos pró-Palestina de destaque.
Empresas e tecnologias parceiras
Também foi constatado no material que o grupo desenvolveu uma extensão no Chrome e outro site, empresa, chamados de Museu do Antissemitismo Online. Segundo o Drop Site News “O projeto foi concebido como uma ferramenta de arquivamento privado, descrita internamente como uma espécie de Wayback Machine para suposto antissemitismo.”
As ferramentas pretendiam facilitar o trabalho realizado, ocultando identidades dos praticantes de doxxing, divulgadores de dados pessoais, e o arquivamento dos perfis. Entretanto, aparentemente o projeto encontra-se parado.
A página “Sobre” da extensão diz: “O Museu do Antissemitismo Online (MOA) é uma plataforma de arquivamento de última geração, rápida e confiável, criada especificamente para o mundo pró-Israel e judaico, visando preservar as evidências do antissemitismo.”
O Drop Site News conseguiu identificar nessas iniciativas a participação da empresa Shefing. Supostamente uma consultoria de software especializada, sediada em um espaço WeWork na Jerusalém ocupada e pertencente ao empresário franco-israelense Philippe Cohen.
Cohen Mantém repositórios em sua conta no GitHub contendo softwares personalizados usados em ambos os projetos.




