Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

O dia do resgate da democracia e os maus modos de Trump

Depois de vetar entrada da Venezuela no BRICS, Brasil emite notas frouxas sobre o sequestro do presidente Maduro

Não é de estranhar que a Rede Globo e o conjunto da imprensa burguesa aplaudam, velada ou descaradamente, o sequestro do presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, pelos Estados Unidos, sob o governo Donald Trump. Surpreende, porém, que o governo brasileiro, nas duas notas emitidas, adote a mesma postura, a começar da escolha do termo “captura” para descrever a ação e da omissão sui generis do agente invasor e sequestrador. O maior país da América Latina, sob uma importante liderança de esquerda, demonstra excesso de cautela ou, simplesmente, medo.

A primeira nota, publicada pelo presidente Lula na rede social X, trata o assunto nestes termos: “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional“.

“Captura” é o termo usado pelo próprio Trump e adotado por toda a imprensa brasileira, inclusive por sites e canais ditos de esquerda. Não se trata de escolha trivial. Como temos visto há anos, essa mesma imprensa burguesa adotou o termo “ditador” para se referir ao presidente Maduro. Agora, temos um “ditador capturado”. Traduzida dessa maneira, a ação ganha ares de legitimidade, ressalvado o aspecto estouvado, típico das maneiras de Donald Trump. A omissão dos Estados Unidos no texto é vergonhosa. De onde vieram os bombardeios e a “captura”? De algum disco voador? E, seja lá quem for o redator dessas notas, vale a dica: não é a linha que é inaceitável, mas a ação em si, porque, se Trump tiver ultrapassado uma “linha inaceitável”, o erro estará na definição da linha – e, se a linha (isto é, o limite) é inaceitável, então Trump pode fazer o que quiser.

A segunda nota, assinada em conjunto com países da América Latina e, curiosamente, com a Espanha, é bem mais longa e, mesmo dividida em quatro tópicos, não citou Trump nem os Estados Unidos sequer uma vez, tendo chamado o sequestro de Maduro e de sua esposa de “ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela”. Nessa ação, vale lembrar, houve 80 mortes, nenhuma das quais de norte-americanos.

A coisa fica pior quando esses países conclamam a resolver a “situação da Venezuela” “por meios pacíficos, por meio do diálogo, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano”. O próprio Trump já deixou claro qual é a “situação”, ou seja, seu interesse nas reservas de petróleo do país e em outras riquezas. Qual seria o meio pacífico depois de tantos anos de embargo econômico?

Segundo a nota, assinada pelo Brasil, “apenas um processo político inclusivo, liderado pelas venezuelanas e pelos venezuelanos, pode conduzir a uma solução democrática, sustentável e respeitosa da dignidade humana”. Apelaram para o identitarês, que deixou a coisa mais feia ainda, dando a entender que o Tio Sam foi libertar os venezuelanos e as venezuelanas em nome da inclusão e da sustentabilidade, palavrinhas ótimas para não dizer nada. De resto, os países conclamam a falida ONU para “fazer uso de seus bons ofícios para contribuir para a desescalada das tensões”.

E, para não dizer que não falaram de flores, manifestaram “preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos”. O fato é que Trump pouco se preocupa em dar esse tipo de satisfação. A história do narcotráfico vai servir para justificar o processo-farsa nos Estados Unidos, que, segundo a torcida da Rede Globo, pode determinar prisão perpétua de Nicolás Maduro e sua esposa.

A imprensa burguesa, tão empolgada quanto os bolsonaristas nas redes sociais, nem teme o ridículo. A Folha de S. Paulo, por exemplo, intitulou matéria dizendo que os venezuelanos “celebram a queda” de Maduro. Ao lermos o texto, descobrimos que o jornalista conversou com oito venezuelanos na fronteira brasileira, em Paracaimo. “Com sorriso no rosto e comemorando a queda de Maduro ou apreensivos, todos levantam os ombros ao serem questionados sobre o que vem pela frente para a Venezuela”, escreve o repórter. As manifestações pela libertação de Maduro não só na Venezuela, mas em Cuba, na Argentina, no México, no Chile, na França, na Alemanha, na Grécia e na Espanha, por exemplo, não foram sequer mencionadas.

O governo Lula, por sua vez, está mais interessado, ao que parece, em celebrar, ao lado do STF, o 8 de janeiro como “dia da democracia”. Foram convocadas manifestações para o dia de hoje a fim de comemorar as ações heroicas de Alexandre de Moraes, que teria debelado um golpe fascista no Brasil. Diante do cenário, é quase impossível não pensar que, se os Estados Unidos quisessem dar um golpe no Brasil, a exemplo do que acabaram de fazer na Venezuela, não usariam um bando de manifestantes para quebrar janelas, defecar em cadeira de ministro ou rabiscar estátua com batom.

A democracia que foi salva por Xandão e sua turma é o regime que, mesmo veladamente, dá seu apoio à ação dos Estados Unidos na Venezuela, lamentando apenas, se tanto, os maus modos de Trump. Bolsonaro, por sua vez, só conseguiria dar um golpe se estivesse a serviço dos Estados Unidos, como ocorreu em 1964, com tanques de guerra na rua, e também em 2016, quando a ação se revestiu de suposta legitimidade jurídica, graças aos bons serviços do mesmo STF. O Tio Sam vive de golpes: o que varia é o método. Se  os Estados Unidos quiserem invadir o Brasil, ao Xandão só restará estender-lhes o tapete vermelho. Nosso ministro defensor de banco quebrado só é poderoso mesmo para enfrentar manifestação popular.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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