Política

A história dos heróis e traidores da América Latina

Quando líderes defendem os interesses da maioria explorada contra o imperialismo, entram na eternidade como heróis

Desde as guerras de independência até o presente, a história da América Latina se reduz, em certa medida, à luta pela soberania nacional. Enquanto alguns líderes dedicaram suas vidas à defesa intransigente dos interesses populares contra o imperialismo, pagando com morte, prisão ou exílio, outros escolheram a acomodação ao poder estrangeiro, vendendo a dignidade nacional em troca de estabilidade, investimentos ou simples sobrevivência política. Essa dicotomia não é mero acaso histórico: expressa a luta de classes que atravessa o continente, entre aqueles que servem ao povo e aqueles que servem aos senhores do capital.

Heróis

Miguel Hidalgo y Costilla, o padre mexicano que em 1810 iniciou a luta pela independência com o Grito de Dolores, não apenas proclamou a liberdade; aboliu a escravidão, eliminou impostos opressivos e devolveu terras às comunidades indígenas. Foi executado em 1811, mas sua morte não foi esquecida: transformou-se em símbolo de resistência contra a exploração. No mesmo país, José María Morelos continuou essa tradição revolucionária. Após a morte de Hidalgo, assumiu o comando das forças rebeldes e apresentou os “Sentimentos da Nação”: um programa audacioso que incluía abolição da escravidão, eliminação da discriminação racial, soberania popular e garantias de direitos civis fundamentais. Sua derrota e execução em 1815 não interromperam a marcha da história, mas consolidaram sua figura como mártir da causa popular.

Simón Bolívar, o Libertador, sonhou com uma América do Sul unida, livre da dominação e verdadeiramente independente. Promoveu a abolição da escravidão e a redistribuição de terras aos soldados que lutaram pela independência. Bolívia, que leva seu nome, é testemunho vivo de sua obra, assim como os chavistas e o exército bolivariano da Venezuela. José de San Martín, reverenciado na Argentina, Chile e Peru, também dedicou sua vida à libertação continental.

No século XX, quando a pressão imperial deslocou-se para os Estados Unidos, novos heróis surgiram. Pancho Villa enfrentou a intervenção militar norte-americana no México, resistindo à expedição punitiva de 1916-1917. Augusto Sandino liderou a luta armada contra a ocupação imperialista da Nicarágua entre 1927 e 1933, forçando a retirada das tropas ianques. Sua morte, ordenada sob Anastasio Somoza, transformou-o em mártir que inspirou o movimento sandinista que, décadas depois, derrubaria a ditadura. Também segue vivo, além da história, no governo sandinista de Daniel Ortega.

Salvador Allende, eleito democraticamente no Chile em 1970 apesar da oposição ativa da CIA, tentou construir o socialismo respeitando as instituições burguesas, uma contradição nata e que, infelizmente, custou sua vida e o controle político do país. Nacionalizou o cobre, promoveu reforma agrária, aumentou salários e expandiu o acesso à saúde. Quando o golpe militar de Pinochet, financiado por Washington, atacou o palácio presidencial em 1973, Allende recusou-se a fugir ou negociar com os golpistas. Morreu em pé, defendendo a soberania de seu país.

Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara encarnaram a revolução cubana de 1959, que não apenas derrubou o títere Fulgencio Batista, mas construiu um estado capaz de desafiar o imperialismo americano a apenas 90 quilômetros de suas costas. A tomada do forte de la Moncada é apenas um dos muitos momentos em que seu heroísmo pôde ser enxergado. Che, capturado e executado na Bolívia pela CIA em 1967, tornou-se símbolo eterno do internacionalismo proletário e da luta anti-imperialista.

Hugo Chávez, eleito presidente da Venezuela em 1999, radicalizou essa tradição. A Revolução Bolivariana nacionalizou o petróleo e o gás, expandiu programas sociais e confrontou abertamente as ordens dos norte-americanos. Chávez criou iniciativas de integração latino-americana como ALBA, Petrocaribe e TeleSUR, buscando romper a dependência histórica da região. Seu “Chavismo” representou a possibilidade concreta de um desenvolvimento alternativo ao imperialismo, sofrendo mais de 900 sanções, centenas de tentativas de homicídio e dentre outras arbitrariedades e agressões.

Traidores

Do outro lado da história estão aqueles que escolheram a capitulação, o imperialismo e a desonra. Anastasio Somoza García é exemplar: chegou ao poder via golpe apoiado pelos EUA em 1936 e estabeleceu uma ditadura de terror. A frase atribuída ao presidente Roosevelt, “é um filho da puta, mas é nosso filho da puta”, resume perfeitamente a relação entre imperialismo e seus lacaios locais. Somoza priorizou sistematicamente os interesses das corporações estrangeiras sobre o desenvolvimento nacional, acumulando fortunas pessoais enquanto empobrecia seu povo. Seus filhos continuaram o mesmo padrão até serem derrubados pelos Sandinistas em 1979.

Fulgencio Batista, ditador de Cuba antes de Castro, suspendeu garantias constitucionais, proibiu greves, reinstituiu a pena de morte e reprimiu brutalmente a oposição. Permitiu que empresas norte-americanas e máfias controlassem até 70% da economia cubana, incluindo açúcar, mineração, serviços públicos, turismo e cassinos. Seu governo foi a negação absoluta da soberania nacional: Cuba era colônia de fato dos interesses capitalistas americanos, não passando de um cabaré a céu aberto em pleno Caribe.

François “Papa Doc” Duvalier, que governou o Haiti de 1957 com apoio dos EUA, criou o aparato de terror das Tontons Macoutes e cultivou um culto à personalidade enquanto explorava a miséria popular. Seu filho Jean-Claude “Baby Doc” continuou a dinastia autoritária até 1986, deixando um legado de corrupção, terror e pobreza que, como qualquer um consegue observar, dura até hoje. O Haiti é a prova viva do que acontece com um país que segue o imperialismo: é destruído.

Na América Central, os ditadores das “repúblicas das bananas” venderam seus países para a United Fruit Company. Manuel Bonilla, presidente de Honduras (1903-1907 e 1912-1913), concedeu à corporação concessões massivas de mineração e infraestrutura em troca de apoio financeiro. Manuel Estrada Cabrera, que governou a Guatemala de 1898 a 1920, entregou os recursos nacionais à United Fruit enquanto reprimia brutalmente as populações indígenas. Foi a sua traição inspirou o romance “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias.

Jorge Ubico, ditador da Guatemala de 1931 a 1944, doou vastas terras à United Fruit gratuitamente e endossou práticas trabalhistas desumanas. Quando Jacobo Árbenz tentou nacionalizar as terras expropriadas em 1944, a CIA orquestrou um golpe em 1954 que instalou Carlos Castillo Armas, devolvendo os latifúndios à corporação. A história da Guatemala é história de soberania perdida.

Fernando Belaúnde Terry, presidente do Peru (1963-1968 e 1980-1985), foi acusado de conluio com a International Petroleum Company (IPC) sobre o contrato das refinarias de Talara. Apesar da transferência formal dos campos petrolíferos ao estado, a IPC reteve ativos-chave e uma página do contrato especificando o preço do petróleo desapareceu misteriosamente. A suspeita de concessões deliberadas a interesses estrangeiros provocou o golpe militar de 1968.

Alberto Fujimori, presidente do Peru de 1990 a 2000, implementou reformas neoliberais radicais privatizando empresas estatais estratégicas e o sistema ferroviário. Com apoio dos EUA, executou um autogolpe em 1992, dissolvendo o Congresso. Seu regime foi o responsável por graves violações de direitos humanos, incluindo esquadrões da morte e um programa de esterilização forçada que afetou até 300 mil mulheres pobres e indígenas apoiado pela USAID americana. Fujimori transformou o Peru em laboratório do imperialismo e seu maior expoente neoliberal.

Há inúmeros outros nomes para serem listados, como a cretina María Corina Machado, mas o padrão é cristalino: líderes que resistiram ao imperialismo são recordados como heróis nacionais, absorvidos na memória popular como símbolos de dignidade e luta inacabada. Líderes que capitularam são esquecidos ou lembrados com desdém, frequentemente substituídos quando deixaram de ser úteis aos seus mestres imperialistas. Somoza foi derrubado pelos Sandinistas; Batista pela revolução cubana; os Duvaliers pela revolta haitiana; os ditadores centro-americanos pela recusa popular em aceitar a servidão.

A história revela que a soberania nacional não é dádiva do imperialismo, mas conquistas da luta de classes. Quando as classes dominantes locais vendem o país para corporações estrangeiras e para Washington, o povo responde com revolução. Quando líderes defendem genuinamente os interesses da maioria explorada contra o imperialismo, entram na eternidade como heróis.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.