O artigo O neoliberalismo fracassou na América Latina, de Emir Sader, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (1º), trata de uma questão que está na ordem do dia como se fosse algo do passado. O texto inicia dizendo que “a última década do século passado foi amplamente neoliberal. Praticamente todos os países, à exceção de Cuba, aderiram ao neoliberalismo, que aparecia como algo inevitável. Dizia-se que todo governo sério tem, antes de tudo, que colocar as finanças do Estado em dia.”. No entanto, o ataque neoliberal não cessou, o que tem empurrado o imperialismo para mais perto do precipício.
Sader, falou de Cuba, mas não mencionou a Venezuela, país que tem sofrido um terrível assédio dos Estados Unidos e do imperialismo. O país passou por uma revolução após sofrer uma enorme crise, resultado da política neoliberal implementada principalmente no segundo mandato de Carlos Andrés Pérez, que assinou um acordo com o FMI em 1989.
O acordo previa aumento do preço de gasolina e transportes; desvalorização da moeda; congelamento de salários e privatização com abertura comercial.
Mergulhada na miséria, a população reagiu ao aumento dos combustíveis e foi para as ruas. A repressão do Estado foi brutal. O governo reconheceu 277 pessoas mortas, mas uma Comissão de Verdade, instaurada em 1988, afirma que o número supera os 2 mil mortos. Como é o costume, houve uma grande operação de ocultação de cadáveres.
Hoje, a pobreza na Venezuela é fruto dos embargos e bloqueios econômicos criminosos perpetrados pelo imperialismo, não diretamente por uma política neoliberal. O cerco imperialista visa justamente implementar essa política econômica no país vizinho.
Coisa do passado?
Segundo Emir Sader, por exigência do neoliberalismo, “estaríamos assim condenados a priorizar o ajuste fiscal. Colocar as finanças do Estado em dia. Isto é, cortar recursos que passavam a ser considerados supérfluos e negativos”. Destacamos o verbo no passado, “estaríamos”, pois, na verdade, estamos neste momento priorizando ajustes fiscais.
No Brasil, mais da metade do orçamento público vai parar na garganta insaciável do mercado financeiro, dos bancos.
Emir Sader completa dizendo que “nessa lista estavam, claro, os gastos com educação, com saúde, com transporte público, com infraestrutura, com estradas, com obras públicas em geral. Houve governantes que suspenderam todas as obras públicas, não importando quais fossem e onde estivessem e os danos que causassem, incluído o desemprego dos trabalhadores”. Para ficarmos em um exemplo: um decreto do presidente Lula acaba de cortar R$ 400 milhões para as universidades federais.
O autor escreve que “o prioritário passaria a ser o que o mercado dissesse que era prioritário, isto é, o que a bolsa de valores dissesse que era prioritário. Como se o mercado substituísse o Estado. Este era quem imprimia dinheiro, portanto fonte da inflação. Estado mínimo se tornava um objetivo fundamental”.
Em seguida, afirma que “terminar com os investimentos estatais, com sua capacidade de regulamentação da economia era combater os gastos supérfluos, era combater a inflação, tornado objetivo prioritário de qualquer política econômica responsável”.
Analisando o que ocorre no Brasil, o governo Bolsonaro passou o Banco Central para as mãos dos banqueiros, iniciando uma fase de aumento extremamente abusivo da taxa de juros. O governo, que nada fez para trazer novamente o Banco para Estado, herdou 2 anos de gestão de Campos Netto. Ainda assim, a indicação de seu substituto, Gabriel Galípolo, ao contrário do que se propagandeava, não apenas continuou a política delinquente de Campos Netto, como ainda a aprofundou.
Galípolo é um funcionário dos banqueiros. É o mercado quem dita o que é prioritário. Quanto à questão do “Estado mínimo”, Sader deveria ter denunciado que se trata de uma fraude, pois o Estado sempre vai socorrer o capital. Exatamente como o que vimos na crise de 2008, quando trilhões de dólares de dinheiro público foram destinados para o salvamento do capital financeiro.
Aprofundamento, não reação
Emir Sader sustenta que “a América Latina mergulhou em um profundo processo recessivo, de aprofundamento maior das desigualdades e da exclusão social, que sempre a caracterizaram ao longo do tempo. E que “o continente reagiu neste século, tornando-se nas duas primeiras décadas o epicentro da luta contra o neoliberalismo. Contra a mercantilização da vida das pessoas, contra a concepção segundo a qual tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra”.
O neoliberalismo provocou uma reação muito tênue, chamada de “onda rosa”, quando partidos de esquerda subiram ao poder, mas este pouco fizeram para reverter o estrago provocado. Essa onda, no entanto, já passou. A América Latina está passando por golpes de Estado e eleitorais, o que tem provocado a subida da direita ao poder.
A mercantilização da vida das pessoas vai bem, obrigado. No Brasil, milhares de pessoas morrem porque não conseguem determinados remédios. A “Justiça” barra a compra desses medicamentos porque, supostamente, seriam muito caros e desequilibrariam as finanças do sistema de Saúde. No entanto, o que se faz é economizar dinheiro para os bancos, que mordem R$ 7 bilhões diários como cobrança apenas dos juros da dívida pública.
O articulista escreve que “não há um país da América Latina que tenha dado certo adotando políticas neoliberais. Dos três mais importantes países do continente, dois vão bem, com políticas antineoliberais: Brasil e México. E um vai muito mal com políticas neoliberais: Argentina”. Não se pode dizer que o Brasil vá bem.
Sader para fazer um contraponto com a Argentina, pergunta: “quais destes países promovem o crescimento econômico e têm as taxas de desemprego mais baixas de suas histórias? Qual país produz recessão e desemprego em massa? Quais desses países têm governantes com prestígio e qual tem presidente desmoralizado?”.
No último parágrafo, Sader conclui que “o fracasso do governo argentino é o fracasso do neoliberalismo na América Latina. O sucesso dos governos do Brasil e do México é o sucesso dos governos antineoliberais”.
Esse elogio só pode ter como objetivo fazer propaganda eleitoral. No mundo real não existe sucesso. A política econômica está destruindo nossa economia. A prova disso é que 54,3 milhões de pessoas dependem do Bolsa Família.
Uma coisa tem que ficar muito clara, não adianta ficar fazendo muita propaganda, pois a realidade cobra e a população não come índices.





