No dia 30 de dezembro, Raimundo Bonfim, coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP), publicou o artigo Combater o golpismo, defender a democracia, os direitos e reeleger Lula. O texto é uma peça exemplar da burocracia que tenta transformar a paralisia em “resistência”.
O autor celebra a punição de militares e a prisão de Bolsonaro como se fossem o ápice da justiça social. No entanto, enquanto a militância é convocada para atos “em defesa da democracia” no Palácio do Planalto, a realidade material nos bairros populares — a base da CMP — conta uma história diferente. Bonfim exalta a retomada do Minha Casa Minha Vida, mas silencia sobre um déficit habitacional que já ultrapassa 6 milhões de moradias. A política habitacional atual continua sendo um balcão de negócios para as grandes construtoras, que entregam conjuntos periféricos desprovidos de infraestrutura, mantendo a segregação espacial enquanto garantem lucros ao setor imobiliário. Falar em “justiça social” sem enfrentar a especulação fundiária é, usando os termos do autor, vestir o lobo com pele de cordeiro.
A análise econômica de Bonfim é de um otimismo que beira o desrespeito ao trabalhador. Ele fala em “menor desigualdade e melhor renda”, mas ignora que o governo se recusa a romper com o sequestro do orçamento público pelos bancos. O governo não “enfrenta” a burguesia; ele negocia com ela a preço de ouro, mantendo o povo desmobilizado e satisfeito com uma isenção de IR que mal cobre a inflação dos serviços básicos.
O autor convoca a militância para “organizar a luta”, mas a tática proposta é puramente defensiva: proteger o governo e garantir a reeleição em 2026. É o sequestro da luta popular pelo calendário eleitoral antecipado. Ao transformar o ato do dia 8 de janeiro em uma celebração institucional, Bonfim ajuda a enterrar a independência dos movimentos. A verdadeira resistência não se faz aplaudindo atos no Planalto. A “primavera” de Bonfim é uma construção de gabinete que ignora a asfixia das periferias, onde o desemprego pode ter caído, mas a subutilização e o subtrabalho mantêm milhões de brasileiros na corda bamba da informalidade.





