Judiciário

Esquerda dá carta-branca para Moraes fazer o que quiser

Artigo expressa a política de uma esquerda que desistiu de lutar pela classe trabalhadora para se tornar a advogada do diabo do Judiciário

 No artigo Há um só motivo para respeitar Alexandre de Moraes, publicado em 27 de dezembro no Brasil 247, Eduardo Guimarães não se limita a defender o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), mas tenta acabar com o direito elementar da sociedade de questionar seus governantes. Para Guimarães, o fato de a imprensa e a opinião pública levantarem suspeitas sobre o envolvimento de Moraes com o Banco Master é um “insulto” e um “ataque à democracia”.

O argumento central de Guimarães é de uma picaretagem intelectual sem precedentes. Ele tenta usar a “presunção de inocência”, um direito fundamental do cidadão comum contra o braço armado do Estado, como um biombo para blindar uma autoridade pública. Guimarães inverte o fundamento do Estado Democrático: ele quer que o cidadão prove a culpa do ministro antes de ter o direito de desconfiar dele. Ora, a “presunção de inocência” no processo penal não anula o “dever de explicação” na vida pública. Como um magistrado vitalício, que detém o poder de prender e decidir o destino da nação, pode se recusar a esclarecer relações obscuras sob o pretexto de que “não há provas criminais”? A suspeita política é o gatilho da fiscalização, e pedir “vênia” para questionar o poder é o primeiro passo para a servidão.

A desonestidade do texto atinge o ápice quando Guimarães lista outros ministros do STF – Gilmar Mendes, Toffoli, Fux, Fachin – que também possuem parentes operando no “balcão de negócios” da advocacia brasiliense. Em vez de usar essa lista para denunciar a promiscuidade geral da Corte, o autor a utiliza para normalizar o escândalo. O raciocínio é: “se todo o pântano fede, por que reclamar do mau cheiro de Moraes?”. Ao fazer isso, Guimarães capitula totalmente. Para essa esquerda, se o carrasco da vez está perseguindo os seus inimigos políticos, ele tem o direito de ter o escritório da família orbitando os cofres de bancos liquidados.

Além disso, o autor apela para o sentimentalismo barato ao citar as supostas ameaças e os supostos planos de assassinato contra Moraes como um “salvo-conduto” moral. É a tese do “herói intocável”: porque o ministro “enfrentou” a extrema direita por interesses políticos e eleitorais momentâneos, ele teria ganhado o direito de fazer o que quiser. Enquanto isso, fato é que Moraes fez o que fez não para “combater o autoritarismo”, por “amor à liberdade”, ou algo do tipo, mas para consolidar uma ditadura de toga que agora Eduardo Guimarães tenta proteger a qualquer custo.

Em última instância, o artigo de Guimarães expressa a política de uma esquerda que desistiu de lutar pela classe trabalhadora para se tornar a advogada do diabo do Judiciário. Eles estão tão apegados ao porrete de Moraes que passaram a amar o carcereiro. O texto exige “respeito” a uma figura que quer que o povo exploda.

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