O editorial intitulado Mulheres vivas: Contra a barbárie do feminicídio, ocupar as ruas, publicado no Esquerda Online no último dia 4, usa casos de opressão contra as mulheres para defender o aprofundamento da repressão contra a população. Atribuindo os episódios não à decadência geral da sociedade, mas a um estranho “pacto masculinista”, o órgão esquerdista acusa a burocracia estatal: “fragiliza denúncias, desrespeita protocolos de gênero e solta agressores até mesmo quando flagrados”, acrescentando ainda:
“Quando tribunais reproduzem estereótipos, ignoram evidências ou relativizam a palavra das mulheres, o Estado não apenas falha: ele enfraquece a Lei Maria da Penha e alimenta a sensação de impunidade. Ao mesmo tempo, cresce um mercado de influenciadores misóginos que lucram nas redes sociais disseminando o ódio e ensinando outros homens a violentar, controlar e humilhar mulheres.”
O que os “trotskistas” das correntes do PSOL que assinam o editorial (Insurgência, Resistência e Subverta) não consideraram é que, tanto no método quanto na posição, não fazem absolutamente nada diferente do que a burguesia – a verdadeira responsável pela doença social que aflige homens e mulheres, no Brasil e no mundo -, que tradicionalmente, explora casos violentos para aumentar a intensidade da repressão contra a população. Foi na esteira de um sequestro de um empresário, por exemplo, que em 1990 (governo Collor), a burguesia criou a lei de crimes hediondos, responsável por destruir garantias dadas pela Constituição Federal aprovada dois anos antes, que estabelecia direitos democráticos como o induto presidencial, anistia, fiança e progressão de pena.
Os esquerdistas podem ter se esquecido, mas foi justamente em um caso similar, quando um assassinato cometido por um menor mobilizou um debate sobre a redução da maioridade penal, que ocorreu a famosa agressão do então deputado Jair Bolsonaro contra a deputada petista Maria do Rosário. Se na época a esquerda adotou a posição acertada de não capitular e enfrentar a sanha punitivista da direita, o mesmo não pode ser dito agora.
Tal qual o parlamentar Bolsonaro, continua: “é nesse contexto que o PL 896, hoje em discussão no Senado, passou a ganhar força ao propor a criminalização da misoginia”, diz Esquerda Online, acrescentando ainda que “o desafio real é fazer valer o que já existe [de lei penal] e ir além”. 22 anos atrás, Bolsonaro aplaudiria de pé.
Já o revolucionário russo Leon Trótski, supostamente seguido pelas correntes psolistas, defendia outra política. Para o organizador da IV Internacional, “qualquer restrição à liberdade política, não importa contra quem seja dirigida no início, no final inevitavelmente cai sobre a classe trabalhadora”. Embora se referindo à liberdade de expressão, o mesmo princípio pode (na realidade, deve) ser aplicado ao poder repressor do Estado burguês. Não importa qual seja o espantalho da vez comece, vai acabar se voltando contra os trabalhadores. E suas organizações.
Se há dez anos a esquerda era acusada de defender “bandidos” por se opor à repressão estatal como solução para os problemas sociais, hoje, reproduzindo o mesmo método imbecil, acusa quem se opõe ao fortalecimento do poder repressor por acusações de mais “esquerdistas”: machismo, misógino (sic), etc. Nisso também, os psolistas do Insurgência, Resistência e Subverta não são em nada diferentes da direita que dizem combater. São, na realidade, alunos tão dedicados que passaram a emular os mestres.
Longe de seguir orientações loucas como as apresentadas pelos psolistas de Esquerda Online, a esquerda deve ter a clareza de que se a repressão do Estado burguês fosse a resposta para qualquer problema social, o Brasil seria o país mais seguro do mundo, um feito conquistado por décadas de intensa e brutal repressão, por massacres rotineiros, pelo derramamento de sangue constante realizado pela polícia nos bairros operários. A repressão, no entanto, nunca solucionou problema algum porque sua função não é outra além de aterrorizar os inimigos da classe dominante. Ponto.
“Afirmamos a importância da responsabilização”, conclui Esquerda Online, “mas queremos mais eficácia, não mais encarceramento”, uma colocação que não é nada além de cinismo. A menos que o órgão esquerdista esteja defendendo a pena de morte, o encarceramento é o único resultado possível do aumento do poder repressor do Estado, algo que os “trotskistas” sabem, mas negam por pura demagogia.
Se estivessem mesmo preocupados com o encarceramento, a verdadeira política a ser adotada deveria ser a luta contra a criação de novos crimes, a criação de comitês de autodefesa armada das mulheres e a denúncia da crise social produzida pela ditadura da burguesia. Atribuir ao “pacto masculinista” (isto é, aos homens) a responsabilidade pelos casos de opressão contra as mulheres é exatamente o que a burguesia deseja.
Como bons cães de guarda da burguesia, os “trotskistas” cumprem a tarefa de livrar os inimigos do povo por tornar a vida dos trabalhadores um inferno.





