
Ucrânia
Trump anuncia reunião com Zelenski para pôr fim à guerra
Chamado de "ditador" por Trump, Zelensqui é aguardado em Washington nos próximos dias para oficializar acordo humilhante

- Presidentes Vladimir Zelensqui (à esquerda) e Donald Trump (à direita). Guinada de Trump aprofunda crise imperialista
- |
- Reprodução
O presidente ucraniano, Vladimir Zelensqui, está a um passo de selar a derrota final da Ucrânia no conflito com a Rússia que completou três anos nesta semana. Pressionado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Zelensqui deve viajar a Washington nos próximos dias para assinar um acordo humilhante que entrega 500 bilhões de dólares em minérios críticos como pagamento pela ajuda militar fornecida pelos EUA.
A imposição escancara a condição de capacho do imperialismo norte-americano, enquanto o líder ucraniano, acuado, sinaliza estar disposto a abandonar o cargo. A visita, confirmada por Trump na última segunda-feira (24), ocorre em meio a uma crise de popularidade de Zelensqui e a reviravoltas diplomáticas, como o alinhamento dos EUA com a Rússia em votações na ONU.
Segundo a vice-primeira-ministra da Ucrânia Olha Stefanishyna, negociação dos minérios, está em seus “estágios finais” e reflete o preço cobrado por Trump pelo apoio dado durante o governo de Joe Biden, que inclui 67 bilhões de dólares em armas e 31,5 bilhões de dólares em suporte financeiro direto. “Estamos muito próximos de um acordo final”, declarou o presidente norte-americano em reunião no Salão Oval, ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron, que o visitava na ocasião.
O Secretário do Tesouro Scott Bessent reforçou a posição de Trump: “estamos a uma linha de jarda”. Se concretizado, o pacto dará aos Estados Unidos acesso privilegiado às reservas minerais ucranianas. Inicialmente, Zelensqui resistiu ao acordo em fevereiro, mas cedeu à pressão após Trump ameaçar cortar o suporte militar.
Em entrevista coletiva em Quieve no domingo (23), o presidente ucraniano admitiu sua fragilidade: “se for pela paz na Ucrânia, estou pronto para deixar o cargo imediatamente”. Ele, no entanto, condicionou a saída à entrada do país na OTAN, mas não esclareceu como negociaria isso com Moscou, que exige a entrega dos territórios ocupados e que a Ucrânia fique longe da aliança militar imperialista – uma condição rejeitada pelo governo ucraniano. Inédita desde o início da guerra em 2022, a fala coincide com críticas de Trump, que pediu novas eleições na Ucrânia e acusou Zelensqui de perder apoio popular.
A crise se aprofunda com a pressão da Casa Branca (sede do governo norte-americano) contra os ucranianos. Na Assembleia Geral da ONU, os EUA votaram ao lado de Moscou contra uma resolução europeia que exigia a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia. A proposta alterada, aprovada com 93 votos a favor e 8 contra, incluiu menções à agressão do Crêmlin, mas foi rejeitada por Trump, que apresentou uma versão alternativa no Conselho de Segurança. Aprovada com apoio russo e 10 votos a favor, a resolução norte-americana ignora a invasão e foca em um “fim duradouro” da guerra, evidenciando a exclusão de Quieve das decisões.
A submissão de Zelensqui a Trump expõe a fragilidade da Ucrânia, um país completamente exaurido após três anos de guerra. As negociações dos minérios começaram como uma tentativa de garantir a continuidade do apoio militar norte-americano, mas evoluíram para uma pilhagem econômica.
A vice-primeira-ministra Olha Stefanishyna tentou amenizar o cenário em uma publicação no X: “quase todos os detalhes-chave foram finalizados. Espero que os líderes assinem o acordo em Washington o mais rápido possível”. Contudo, a cessão de 500 bilhões de dólares em recursos naturais – como terras raras essenciais para a indústria tecnológica – é vista como um espólio de guerra que beneficia exclusivamente os EUA, enquanto a Ucrânia segue devastada militar e economicamente.
Internamente, Zelensqui enfrenta uma crise que ameaça por fim a seu governo. Atento a isso, Trump afirmou que o ucraniano “não tem mais apoio” e o chamou de “ditador” em redes sociais.
Em resposta, Zelensqui acusou o norte-americano de viver em um “espaço de desinformação” criado pela Rússia, mas evitou romper laços. “Quero Trump como parceiro, não apenas mediador”, declarou na coletiva de domingo, sugerindo até a presença de tropas americanas na Ucrânia – uma proposta rejeitada por EUA.
A oferta de Zelensqui de trocar a presidência pela entrada na OTAN revela sua desesperada busca por uma saída. “Não planejo estar no poder por décadas”, afirmou, tentando projetar desapego, mas apresentando uma proposta sabidamente inviável: a Rússia, que já controla cerca de 20% do território ucraniano (e não apenas isso, mas a região mais industrializada e rica do país), opõe-se ferozmente à expansão da aliança militar imperialista, e os EUA, sob Trump, mostram mais interesse em encerrar o conflito do que em escalá-lo.
A Europa, por sua vez, reage com indignação à exclusão das negociações entre EUA e Rússia sobre Ucrânia. Líderes europeus se reuniram para discutir uma resposta, enquanto a votação na ONU escancarou a divisão: a resolução norte-americana, apoiada por Moscou, foi vista como uma traição por Quieve. A vice-ministra dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia Mariana Betsa apelou à comunidade internacional: “pedimos que tomem o partido da paz justa e duradoura”. Já a enviada dos EUA Dorothy Shea defendeu a posição de seu país: “precisamos de uma resolução que realmente ponha fim à guerra”.
O alinhamento de Trump com a Rússia na questão ucraniana está sendo um duro golpe para o imperialismo. Trump, que já fala em “grandes transações econômicas” com a Rússia, sinaliza uma reconfiguração política que deixa a Ucrânia como mera moeda de troca e enfraquece a ditadura dos monopólios. “Eles têm terras raras enormes, e nós temos o que eles precisam”, disse o presidente norte-americano.
Para a Ucrânia, resta a humilhação. Zelensqui, que em 2022 prometeu resistir, agora caminha para Washington com o chapéu na mão, carregando uma dívida impagável e um país em ruínas. A assinatura do acordo será mais que um ato formal: será o atestado de uma derrota imposta pelo imperialismo, enquanto a guerra, longe de acabar, segue ditando os rumos de uma nação à beira do abismo.