No artigo Até quando esperar?, publicado no Poder360, o deputado estadual Orlando Silva (PCdoB-SP) se mostra preocupado com a situação da esquerda brasileira por causa de votações recentemente perdidas no Congresso Nacional. Diante disso, afirma:
“Precisamos virar a chave, chacoalhar a roseira e, principalmente, parar de errar. O Congresso que temos é esse, o ambiente político é esse. O barro está aí, é com ele que devemos trabalhar. É inimaginável produzir resultado diferente fazendo tudo do mesmo modo. Caso nosso governo não ajuste sua ação política, temo pelo que pode vir”.
De fato, a situação é muito preocupante. Mas, como veremos futuramente, não pelos motivos apresentados pelo deputado. Debatemos, por ora, o que ele propõe: um “ajuste” na “ação política do governo”.
Que ajuste seria esse? Silva não explica, limitando-se a dizer ser preciso “retomar o fio da meada da frente ampla e dar base programática à reconstrução nacional” e que “isso exige construir pacientemente consensos que devem orientar o rumo do país e partilhar efetivamente o poder e a condução ao futuro que precisamos”. Apesar de não ser nada claro, uma frase é suficiente para esclarecer o que o deputado tem em mente: “o Congresso que temos é esse”.
Não é possível pensar em um única política progressista que possa começar com tal frase. Esse é um chavão típico para o oportunismo. Ele, traduzido corretamente, significa: “o nosso programa não pode ser aplicado”. Ou, melhor ainda: “o único programa que podemos aplicar é o dos picaretas que controlam o Congresso Nacional”. Se aa discussão parte da constatação de que “o Congresso que temos é esse”, qualquer “consenso” imaginável será, no final das contas, um capitulação diante dos interesses da direita.
Se a formulação em si de formar “consensos” partindo da ideia de que o governo deveria se adaptar os interesses da direita já é negativa, tudo fica pior quando levado em consideração quais são os motivos pelos quais Silva está preocupado com o governo Lula.
O deputado apresenta dois problemas. O primeiro é, de fato, um escândalo, que é o fim das “saidinhas”, uma política verdadeiramente fascista, que é criticada por Silva, mas sem muita veemência. O segundo, que, esse sim, recebe uma atenção maior do deputado, seria a propagação de “notícias falsas”.
Ao se mostrar tão preocupado com o fato de que o regime político não conseguiu, até agora, estabelecer uma lei que puna duramente as tais “fake news“, revela que Orlando Silva já capitulou antes mesmo de tentar o “consenso”. De tão poderoso que ele acha que é o seu adversário, ele propõe a própria política de seu adversário. Uma política de fato suicida e que mostra que a própria ideia de “consenso” não é uma política séria para alcançar objetivos políticos definidos, mas sim um abandono total de qualquer luta em torno dos interesses da esquerda.
É preciso destacar que, quando Silva fala em “retomar o fio da meada”, ele está, na prática, criticando o governo. Para ele, o governo Lula estaria falhando justamente por não tentar forjar os tais “consensos”. Estaria ignorando a má composição do Congresso.
Ora, mas essa é justamente a crítica que os inimigos dos trabalhadores fazem do governo. Por mais moderado que o governo Lula seja, evitando um política internacional mais agressiva e evitando uma intervenção mais dura no Rio Grande do Sul, a grande imprensa hoje está unificada em uma só campanha: Lula precisa ceder mais e mais. Precisa “formar consenso” na questão da Petrobrás – e, assim, permitir que os especuladores assaltem ainda mais a empresa. Precisa “formar consenso” na questão da venda de arroz no Rio Grande do Sul – e, assim, permitir que os especuladores se lambuzem com a fome do povo.
Orlando Silva não está fazendo nenhum favor ao governo ou mesmo à esquerda ao propor uma ampliação dos “consensos”. Está, na verdade, prestando um serviço para os capitalistas, que procuram aumentar o seu cerco contra o governo em um momento de grande crise da política internacional. No momento em que o imperialismo se mostra fraco, sendo derrotado militarmente no Oriente Médio e na Ucrânia, ele irá aumentar ainda mais a pressão para que os trabalhadores de países atrasados como o Brasil paguem a conta por suas aventuras repressivas.
A esquerda não deveria estar preocupada em sustentar a contraofensiva do imperialismo contra os povos no mundo. Pelo contrário, deveria, diante do conflito, ter uma posição de guerra aos criminosos que apoiam os crimes do imperialismo na Faixa de Gaza e que querem subjugar o povo brasileiro em um regime econômico tão devastador como o governo de Javier Milei, na Argentina.
Para isso, pouco importa a composição do Congresso. É preciso apelar às ruas, apelar aos trabalhadores, que são os únicos capazes de impedir que a contraofensiva do imperialismo culmine em um retrocesso ainda maior para o conjunto da esquerda.





