Luta do negro

‘Racismo territorial’, a estupidez universitária não tem limites

O “racismo ambiental” foi elevado pela esquerda pequeno-burguesa a um novo patamar, enquanto isso o negro é oprimido pela burguesia que financia essas teses absurdas

A esquerda pequeno-burguesa em sua eterna necessidade de inovar as teses absurdas que abandonará poucos meses depois, agora se aventura nas “diversas formas de racismo”. O “racismo ambiental” foi comentado até por membros do governo federal. O portal Esquerda Diário por sua vez, publicou um texto intitulado “Racismo territorial no Brasil e o devir-negro do mundo”. A salada conceitual “geoantropofilosófica” é apenas uma cobertura para mais uma versão do velho identitarismo, ou seja, a política do Partido Democrata dos EUA.

O artigo começa com a sua tese de que o racismo é territorial, pois: “quase dois terços população brasileira de 203 milhões de habitantes (62,68%), possui apenas 1 banheiro em casa e 1,2 milhão de pessoas sequer possuem banheiro em suas residências, tais números, segundo o próprio IBGE, atingem em cheio populações jovens, composta por pretos, pardos e indígenas”. Ou seja, no Brasil existe a pobreza e a maioria das pessoas pobres não são brancas. Não é nenhuma grande novidade, sempre foi assim desde 1500 e nunca se precisou levantar a ideia de um “racismo territorial”.

Então o artigo define o racismo: “é uma forma concreta de exercício de poder, ao mesmo tempo que é uma ideologia eivada de subjetividades, crenças e preceitos que alega um modo de superioridade de determinados grupos sociais sobre outros por identificação de diferenças raciais”. Da premissa inicial se desenvolvem todos os erros. O racismo não é uma forma concreta de exercício de poder. O racismo é a ideologia que surge do fato de que o negro está colocado em uma posição de inferioridade na sociedade. Essa é a tradicional tese do marxismo, totalmente desconhecida pelo Esquerda Diário.

O texto segue: “é possível destacar três grandes evidências do racismo territorial brasileiro, a saber: (1) o encarceramento em massa, (2) a luta pelo direito à terra de populações remanescentes de quilombos e (3) a urbanização excludente e fragmentada nos grandes centros urbanos”. Aqui a tese já tenta ficar um pouco mais concreta. O território seriam os presídios, a terra e os bairros operários. É uma tese bem extravagante. Quase uma descrição apresentada como algo revolucionário. O problema é que ela não serve de nada. Esses três fatores citados são locais ocupados tradicionalmente pelos oprimidos, se o negro é oprimido na sociedade então obviamente ele ocupará desproporcionalmente esses locais.

Lendo o artigo fica difícil entender qual o objetivo do autor. Até que ele chega ao ponto mais ligado à realidade. O racismo territorial leva ao “acesso diferencial aos equipamentos e à infraestrutura e como essas populações são atingidas em cheio pelos eventos climáticos extremos”. Ou seja, é mais uma nova aparição do antigo “racismo ambiental”. O interessante é que os eventos do Rio Grande do Sul desmentem isso. O meio ambiente não foi racista dessa vez, escolheu um dos estados com menos negros no Brasil.

A realidade é que a vulnerabilidade não existe com base na raça e sim na questão de classe. No campo, os oprimidos pelos latifundiários são os mais afetados. Nas cidades é a classe operária. Engels descreve em seu livro sobre a classe operária inglesa como os bairros operários ingleses sofrem com enchentes. Sofrer com as enchentes é um fenômeno da classe operária, não é algo dos negros ou dos irlandeses. Falar em racismo ambiental apenas desvia o foco de quem é o culpado. Não são os brancos, mas sim os banqueiros que impedem a construção de obras para previnir os desastres ambientais.

Então a tese fica ainda mais… especial: “vivemos, ainda hoje, uma guerra colonial em meio à população e contra ela, desencadeada pelo capital financeiro neoliberal enquanto máquina de guerra destruidora no auge da modernidade. Assim, não se pode dissociar a luta de classes de seu caráter racial, isto porque racismo, colonialismo e capitalismo são componentes de uma mesma engrenagem, se misturam nas mais diversas escalas de poder e ação”. Ignorando a grande salada que o autor faz, o destaque é o da “guerra colonial”. O que isso significa?

O colonialismo aqui não é uma metáfora para indicar que o Brasil é dominado pelos EUA. O colonialismo aqui é o da teoria do “decolonialismo”, ou seja, novamente o identitarismo. A consequência política dessa tese é simples. Existe o capital financeiro neoliberal, existe o racismo e o colonialismo. Vamos ignorar o primeiro e “lutar” contra os outros dois. Toda vez que uma outra característica é exaltada em contraposição a luta de classes é porque na realidade a luta de classes está sendo ignorada.

A luta pela emancipação do negro, pela emancipação da mulher, dos índios e de quaisquer oprimidos faz parte da luta de classes. Quem oprime todos é a burguesia, principalmente a burguesia imperialista. A discussão deve começar a partir disso e daí partir para as particularidades. Caso contrário, ao falar em racismo, a conclusão a que se chega é que o “branco” oprime o negro, ou que o “homem” oprime a mulher. Ou pior ainda que o “colonialismo” oprime toda a sociedade. É uma tese que tem um resultado: travar a luta concreta dos oprimidos ao obscurecer quem é seu real inimigo.

O artigo então conclui: “por isso, tais grupos excluídos, interrelacionados no espaço banal, podem escapar da racionalidade totalitária própria do sistema, que a todo instante age como força motriz ideológica ao tentar impedir novos olhares e novas ações sobre o mundo. São populações que têm plenas condições de subverter os padrões ideológicos e as subjetividades dominantes, sobretudo através de uma esfera comunicacional ativa, de uma práxis libertadora e inventiva que desafia a própria esfera informacional imposta. E, como uma espécie de fusão nuclear, podem ter condições de liberar uma imensa quantidade de energia que destrua as relações sociais opressivas, qual seja a máquina de guerra do Capital em suas dimensões de classe, raça e gênero”.

Façamos um exercício de imaginação. Imagine que um negro oprimido “terriotorialmente pelo racismo” leia essa conclusão. Qual seria a política que ele deveria tomar? Se um negro do Rio Grande do Sul, que foi mais afetado pelas enchentes que o seu vizinho branco, aderir a essa tese a sua luta é diferente daquela de seu vizinho? A falta de praticidade das teses identitárias é uma das maiores comprovações de que elas são uma farsa.

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