Em seu portal na Internet, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) publicou um artigo intitulado Fake News sobre ajuda ao RS reforçam necessidade de regulamentação das redes, no qual defende explicitamente o Projeto de Lei das “Fake News“. O texto menciona os esforços do governo federal para minimizar os estragos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul e apresenta a propagação de mentiras como o grande obstáculo a esse trabalho. Em determinado momento, o artigo cita o General de Brigada Marcelo Zucco, do comando militar do Sul, que disse:
“As fakes news acabam atrapalhando muito, porque paramos de fazer o que estamos fazendo para tentar responder a um vídeo montado de forma a tentar enganar a população. Quando botes, viaturas param para abastecer, eles filmam para dizer que os equipamentos estão parados. Isso é desleal, lamentável e atrapalha todo o trabalho.”
Que um conjunto orquestrado de mentiras atrapalha a realização de um determinado trabalho, é fato. É óbvio que melhor seria se todas as pessoas do mundo estivessem utilizando todo o seu tempo para ajudar no resgate e estivessem empenhadas em fazer com que os resgates fossem bem sucedidos. Mas a questão é: uma vez que as mentiras se difundam, o que deve ser feito?
O revolucionário alemão Karl Marx já respondeu isso há bastante tempo. Disse ele:
“A liberdade de imprensa é, pois, uma coisa maravilhosa, algo, talvez, que embeleze o doce hábito da existência, uma coisa agradável, vistosa? Mas também existem pessoas más, que usam a linguagem para mentir, a mente para intrigar, as mãos para roubar, os pés para desertar. Seria uma coisa maravilhosa para a escrita e a fala, para os pés e para as mãos, para a boa linguagem, para o pensamento agradável, para as mãos hábeis, para os ainda melhores pés – se não existissem pessoas más que fazem mau uso dela! E ainda não foi encontrado nenhum remédio contra isso.”
O que Marx explica de maneira muito clara é que um direito não pode ser retirado sob a alegação de que as pessoas “abusem” dele. Pois, se assim for, não existe direito.
Para entender isso, basta comparar a liberdade de expressão com outros direitos. É sabido que fumar cigarros causa problemas de saúde. No entanto, ninguém acredita que um fumante não deva ter direito ao Sistema Único de Saúde! Da mesma forma, não é democrático que um aluno seja expulso da escola por não ter estudado para a prova.
Se há mentiras atrapalhando o governo, tudo o que lhe resta é combater as mentiras. É fazer uma campanha, é explicar para a população o que de fato está acontecendo. Do contrário, ao sair à caça de quem propaga “fake news“, o governo estará incentivando a censura, o que recairá não apenas sobre os “mentirosos”, mas sobre toda a população.
Em outro momento, o artigo cita o secretário-adjunto de Comunicação da CUT Nacional, Tadeu Porto, que diz:
“A quantidade de informação que a gente tem disponível, ela dificulta o entendimento do que é uma verdade absoluta. Nós passamos por momentos de muita incerteza e desconfiança. E isso faz com que as pessoas liguem a ideia de verdade ao seu desejo, que é aquele conceito de pós-verdade, e fica muito difícil dela simplesmente acreditar em algo que não esteja ligado ao que ela quer acreditar. A gente precisa seriamente pensar uma ética da informação, da comunicação, como um todo. O Estado, a sociedade e os sindicatos têm que pensar.”
Trata-se de um argumento comum, nos dias de hoje, para promover a censura. Isto é, o argumento de que a Internet teria trazido uma “novidade” na comunicação, de forma que as mentiras nas redes sociais teriam um efeito inédito. Não procede.
Não há nenhuma prova de que a Internet tenha permitido causar uma desestabilização política maior que o que a grande imprensa vem fazendo. Pelo contrário: nenhuma rede social chegou perto do que fez a Rede Globo quando decidiu derrubar o governo de Dilma Rousseff.
O oposto, no entanto, é verdadeiro. A “quantidade de informação que a gente tem disponível”, longe de dificultar qualquer entendimento, permitiu que a verdade fosse conhecida como nunca antes. E a prova disso é a Palestina. Por quase um século, os palestinos sofreram as piores atrocidades possíveis. Mas foi preciso que surgisse a Internet e que ela se desenvolvesse para que os crimes de “Israel” fossem conhecidos por todo o planeta.
E o que a CUT ignora por completo no artigo é que, em nenhuma legislação no mundo, quando se fala em combater as “fake news“, o objetivo seja depurar a verdade das redes sociais. Muito pelo contrário: todas visam censurar os apoiadores da resistência palestina, assim como visavam censurar, no início da guerra da Ucrânia, os apoiadores dos russos.
Vale lembrar que a própria CUT apresenta como solução para as “fake news” a aprovação do PL das “Fake News“, um projeto que fracassou por causa da enorme oposição a ele. Um projeto que foi apelidado de “PL da Rede Globo”, uma vez que aumentava ainda mais o poder dos monopólios da comunicação, ao passo que estabeleceria uma censura muito dura nas redes sociais.
O que é realmente espantoso neste debate é o fato de que a maior central sindical da América Latina, diante da catástrofe no Rio Grande do Sul, decidiu dedicar a sua atenção às “fake news“. Acontece que o maior interesse do movimento operário não é esse, mas sim o de travar uma luta contra os seus patrões e os seus representantes. A CUT, em vez de fazer campanha para uma lei de censura, deveria aproveitar a oportunidade para denunciar como os inimigos dos trabalhadores destruíram o Rio Grande do Sul.
A hora não é de pedir censura, mas de aproveitar o que ainda existe de liberdade de expressão para mostrar até onde vai a política direitista de vampiros como Roberto Campos Neto. Afinal, os gaúchos foram vítimas do vampirismo bancário. É hora de mobilizar a população para derrubar as medidas fiscais draconianas, que impedem que o dinheiro do Estado seja utilizado para serviços essenciais e geração de emprego.





